Xenofobia à brasileira: por que médicos estrangeiros estão sendo tão hostilizados?

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Episódios envolvendo manifestações que chegam a ser xenofóbicos revelam outra face dos brasileiros: não somos tão cordiais quanto parecemos. Sob os berros de “escravos” e “incompetentes”, por exemplo, cerca de médicos estrangeiros – sendo 79 cubanos – foram hostilizados por um grupo de profissionais cearenses nesta segunda-feira (20).

(Foto: Luiz Fabiano/Futura Press/Folhapress)
O programa “Mais Médicos”, pelo qual profissionais brasileiros e estrangeiros inscritos irão atuar em áreas carentes de profissionais de saúde no interior do país e na periferia das grandes cidades, ainda causa polêmica. 
(Infográfico do ministério da saúde)
Há quem critique a vinda dos médicos estrangeiros porque não precisarão fazer o Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos (Revalida). Os críticos apontam que isso não garante a qualidade do serviço dos profissionais.
Todavia, nas próximas três semanas, médicos estrangeiros irão passar por avaliações e cursos, que incluem aulas em universidades públicas federais sobre e pública, com ênfase em língua portuguesa e na organização e funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS). Os que irão atuar em áreas indígenas terão, em acréscimo, aulas específicas sobre a cultura dos locais. 
“(As aulas) vão tratar da cultura, das dificuldades de deslocamento, horário de trabalho e servirão para conhecer as doenças mais comuns da população”, afirmou Alexandre Padilha, ministro da saúde. Aqueles que não alcançarem desempenho desejado voltarão para seus países.
 Episódios envolvendo manifestações que chegam a ser xenofóbicos revelam outra face dos brasileiros: não somos tão cordiais quanto parecemos. Sob os berros de “escravos” e “incompetentes”, por exemplo, cerca de médicos estrangeiros – sendo 79 cubanos – foram hostilizados por um grupo de profissionais cearenses nesta segunda-feira (20). Os gritos faziam parte de um protesto organizado pelo Sindicato dos Médicos do Ceará (Simec). 
“Na realidade ninguém vaiou médico cubano, nós vaiamos quem estava com eles, eles não têm culpa, só que não dava para não misturar se estava todo mundo junto. A vaia na verdade foi para aquelas pessoas que tiveram a ideia absurda de trazer esses médicos para cá, inclusive com trabalho escravo sem nenhum compromisso a não ser com o compromisso ideológico do partido dos trabalhadores”, José Maria, presidente do Simec, tentou se explicar.
Mas José Maria não se manifestou sobre as duas horas em que os estrangeiros tiveram que ficar presos num prédio por conta da tal manifestação. Também não foi específico em dizer o que considera como “trabalho escravo”. 
“Em primeiro lugar, tem muita truculência, muita incitação ao preconceito, e à xenofobia. […] Lamento veementemente a postura de alguns profissionais – porque eu acho que é um grupo isolado – de ter atitudes truculentas, [que] incitam o preconceito, a xenofobia. Participaram de um verdadeiro ‘corredor polonês’ da xenofobia, atacando médicos que vieram de outros países para atender a nossa população”, declarou Padilha.
Mas este episódio não foi o primeiro. O presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG), João Batista Gomes Soares, afirmou que vai orientar os médicos a não socorrerem erros dos profissionais cubanos. 
O ministro da saúde se manifestou a respeito. “Repudio, lamento veementemente aquela declaração do presidente do CRM de Minas Gerais. Não sei que código de ética médica, em que juramento ele se baseou para recomendar os médicos mineiros a omitir socorro, a não atender a população”, disse Padilha.
Depois da repercussão negativa de sua declaração, João Gomes Soares procurou se justificar. 
“Nós não temos que assumir falha de médico cubano, nem pegar na mão de médico cubano para fazer nada. Nós temos um compromisso com o paciente. Mas nós temos que esclarecer ao paciente que nós estamos pegando dali para frente”, afirmou o presidente do CRM-MG.
Este tipo de manifestação vem se repetindo. A jornalista Micheline Borges afirmou hoje (27), na sua página pessoal do facebook, que as médicas cubanas pareciam empregadas domésticas. E ainda terminou com: “Deus proteja O nosso Povo!”. 
(Foto: Facebook / Reprodução)
Devido à repercussão negativa de seu comentário, ela cancelou sua conta e resolveu se manifestar a respeito. 
“Não agi, de forma nenhuma, com preconceito. Não tenho preconceito com ninguém. Só acho que a aparência conta, sim. Que é algo importante”, afirmou a jornalista. “Vou deixar do jeito que está porque as pessoas não aceitam o contraditório. Você não tem o direito de expressar a sua opinião, que logo vêm as críticas”, concluiu. 
(Foto: Facebook / Reprodução)
Se a emenda foi pior que o soneto, o leitor que o dirá. Enquanto médicos brasileiros chegam ao Brasil para suprir a necessidade de tais profissionais em áreas carentes, alguns médicos brasileiros fazem a farra em hospitais públicos. Uma  reportagem exclusiva do SBT Brasil mostra como alguns médicos assinam o ponto e vão embora sem prestar qualquer atendimento à população em hospital público do interior do Rio de Janeiro. Apesar de recebem por cem horas semanais, não permanecem nem dez minutos no hospital.
Mas por que os médicos cubanos estão sendo tão hostilizados? 

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

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