Vero entrevista: Carolina Macedo, intercambista brasileira no Japão

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Direto de Juiz de Fora para o mundo: conheça um pouco mais sobre as aventuras de Carolina Macedo pelo Japão. 

(Foto: arquivo pessoal | Carolina Macedo na cratera do Monte Fuji)

Nossa primeira entrevistada é Carolina Macedo, estudante de Letras da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). Com apenas 22 anos, a jovem mineira tomou uma decisão acadêmica corajosa: resolveu fazer um intercâmbio de longa duração para o Japão. Para contar suas experiência, ela criou um blog, chamado Satsuki.  Mas aqui ela nos conta em primeira mão detalhes de sua viagem. Entre conosco nesse universo de novidades e diferentes culturas!

(Foto: Arquivo pessoal | Fushimi Inari Taisha, templo xintoísta em Kyoto, onde foram filmadas cenas de “Memórias de uma Gueixa”)

Como surgiu o seu interesse pela cultura oriental? 
Acredito que meu interesse tenha surgido desde a primeira vez que vi ideogramas, em uma reportagem na televisão sobre o Japão, quando era criança. Mais tarde, conforme fui tendo mais contato com a cultura japonesa através de música, em especial da minha cantora japonesa preferida, Ayumi Hamasaki, o interesse em aprender o idioma surgiu.
Há quanto tempo você estuda japonês? 
Comecei a estudar japonês em 2009 e já são quatro anos de estudo, contando com o ano de intercâmbio no Japão.
Você tem incentivos para estudar a língua ou acha que no Brasil ainda falta interesse pela comunidade acadêmica no geral? 
Acho que o interesse pela língua japonesa no Brasil ainda é escasso e na maioria das vezes se limita a aulas particulares. Eu, por exemplo, planejo cursar a licenciatura e bacharelado em língua japonesa no Rio de Janeiro, que é a cidade mais próxima da minha onde posso estudar a língua de uma perspectiva acadêmica.
Você recentemente fez um intercâmbio para o Japão. Quanto tempo durou? Você conseguiu bolsa ou planejou tudo através de agências de viagem?
Meu intercâmbio foi realizado através do convênio que a minha universidade tem com a universidade japonesa onde estudei, da qual eu recebia bolsa mensalmente e durou um ano.
Sua família apoiou sua decisão? Você teve alguma ajuda financeira? Você chegou a trabalhar no Japão?
Minha família sempre me deu muito apoio para estudar fora. No primeiro mês eu não recebia bolsa (só recebia ela com valor dobrado no segundo mês lá) então precisei levar dinheiro para custear minhas despesas no primeiro mês, que foi o mais difícil em questões financeiras.

 Você em algum momento se sentiu insegura antes da viagem? Você já havia viajado de avião? Quanto tempo durou o voo e como foi a ida? 
 Eu já havia viajado de avião e isso não foi um problema pra mim, apesar da viagem ter sido longa. Fora 28h de viagem, o que na verdade é uma duração razoável pra um voo do Brasil para o Japão (normalmente os vôos ultrapassam 30h). 
 Não me senti nem um pouco insegura durante a viagem. O voo foi tranquilo e eu estava mais do que decidida de que queria estudar no Japão. Era um sonho de muitos e muitos anos já.
(Foto: arquivo pessoal | Primavera japonesa: Carolina Macedo, ao centro, está cercada por seus colegas).
Como foi a sensação de passar tanto tempo longe da família e dos amigos, imersa numa cultura completamente diferente?
Nos dois primeiros meses foi difícil. Eu sentia saudades principalmente da minha família, dos amigos e da rotina que eu tinha no Brasil. Depois acabei me acostumando e as conversas no Skype foram suficientes para matar as saudades.
Você demorou muito para se adaptar? Quais são as diferenças mais gritantes entre brasileiros e japoneses? Há alguma semelhança?
Eu demorei pelo menos uns quatro meses não só pra me acostumar como também para começar a gostar do Japão. Logo de cara encontrei com japoneses racistas (eram sempre homens mais velhos com a mentalidade muito atrasada) que me trataram super mal e isso foi um choque pra mim. Até hoje esse é o aspecto que mais odeio no Japão, o preconceito, principalmente das pessoas mais velhas, com relação aos estrangeiros. No começo eu odiava os japoneses e achava que todos eram assim. É um choque muito grande pra um estrangeiro e não me culpo por ter pensado assim por tanto tempo. O que importa é que aos poucos eu fui vendo que nem todos os japoneses eram assim. Fiz ótimos amigos, conheci pessoas maravilhosas que me ajudaram bastante e minha visão com relação aos japoneses mudou. Pessoas preconceituosas e ignorantes existem em qualquer lugar.
Os japoneses, ao contrário do que dizem, não são pessoas frias, na minha opinião. A princípio são mais reservados, menos abertos. Não chegam com tanta intimidade como os brasileiros. Mas a partir do momento que se faz amizade com eles, eles são tão amigáveis quanto os brasileiros. 
 Você se sentiu bem recebida no Japão? Como era seu contato com os japoneses?  
O ambiente da faculdade e o Japão do lado de fora eram totalmente diferentes. Na faculdade eu fiz ótimos amigos, conheci pessoas que se mostraram super atenciosas e prestativas e fui muito bem recebida lá. Já na rua, nem sempre eu era bem recebida pelos japoneses. Alguns te olham com curiosidade, mas outros te olham com certo preconceito, o que é fácil de perceber. E já fui maltratada por ser estrangeira também, tanto no interior quanto em uma metrópole como Tóquio. 
De maneira geral, eu fui bem recebida no Japão, e isso se deve ao fato de que eu falava um pouco ou pelo menos tentava falar em japonês com eles, ao invés de inglês. Não porque eles tenham preconceito com a língua, mas por insegurança e medo de falar errado. A língua inglesa é tão distante e tão difícil pra eles aprenderem, quanto o japonês é pra gente. Então quando um estrangeiro tenta falar em japonês, o respeito e a admiração que eles têm por você estar se esforçando pra falar uma língua tão difícil é grande e eles se tornam mais abertos.
De qualquer forma, mesmo se você for ao Japão e não falar japonês, eu acredito que você será bem tratado, pelo menos em lojas, restaurantes e hotéis, pelo seguinte motivo: japoneses podem ter 1001 defeitos, mas não existe povo mais educado para atender cliente do que eles. Se você for ao Japão, você entenderá o que digo.

Você passou por alguma situação alarmante ou engraçada?
Como já mencionei, experienciei situações de xenofobismo logo no primeiro mês que cheguei lá. 
Um dia fui fazer compras numa loja de conveniência e pedi pra pagar com o cartão de crédito. Só que cartões de crédito, principalmente débito, são muito incomuns lá e na maioria dos estabelecimentos eles não são aceitos. O caixa que estava me atendendo era novo, então foi perguntar a um veterano como usava o cartão. Não levou nem dois minutos pra eu ser atendida. Nesse meio tempo um homem atrás de mim, aparentemente com mais de 50 anos começou a me xingar, resmungar coisas como “essa merda dessa estrangeira” e achou que eu não fosse entender. O que ele menos esperava era que uma mulher o respondesse, pois normalmente os japoneses, principalmente mulheres, se calam e evitam responder grosserias ou falar sua opinião. Eu virei pra trás na mesma hora e perguntei: “Algum problema?”, o que fez o homem se calar e virar a cara, fingindo que não era com ele. Paguei minhas compras e na hora de ir embora percebi que o caixa ao lado estava vazio e ele podia muito bem ter ido pagar o que queria lá ao invés de ficar tentando me ofender. Mas, neste caso, a ignorância falou mais alto.
Qual lugares você visitou? Quais você achou mais interessantes? Houve algum local que te decepcionou de alguma forma?
Tentei viajar o máximo que pude na ilha onde estava, Honshu, e visitar os lugares mais clássicos. Viajei bastante e consegui ver quase todos os lugares que queria. A viagem mais memorável de que mais tenho saudades com certeza foi Kyoto. Vi cada lugar, cada templo incríveis os quais nunca vou esquecer. Yamanashi, onde fica o Monte Fuji, também é incrível. Infelizmente fui no verão e não pude ver o Monte Fuji com neve de perto, mas é uma visão que dá vontade de ficar olhando o dia todo tamanha é a beleza e perfeição desse vulcão. É a minha paisagem favorita do Japão.
Quase todos os lugares que visitei foram incríveis, com exceção de um: Akihabara. Akihabara é um distrito em Tóquio, famoso pela quantidade de lojas de eletrônicos e relacionados à mangá e anime. É ótimo pra quem se interessa e quer fazer compras por um preço acessível. O problema, na minha opinião, são as pessoas que frequentam o distrito. Akihabara é um antro de homens esquisitos, tarados ou interessados em garotas, em algumas vezes crianças, que em muitas situações as abordam sem o menor respeito. As lojas também não escondem o interesse em atender a esse público. Logo de frente pra estação de Akihabara há um sex shop de oito andares (nada contra sex shops pois eu mesma entrei nesse pra dar uma olhada), cujo último andar é especializado em vender artigos para pedófilos. Roupas eróticas infantis, miniatura de crianças fazendo sexo, dentre outros artigos repugnantes. Fiquei enojada com o distrito e eu mesma fui abordada por homens muito mais velhos que eu querendo uma “companhia”. Fiquei assustada a princípio, mas no Japão esses tipos de homens, até mesmo os tarados, na maioria das vezes não se mostram perigosos, ou tentam te forçar a algo. Chega a ser infantil e patética a forma como eles abordam as mulheres e, normalmente, quando conseguem algo, a vítima é incrivelmente ingênua. Apesar da situação, o Japão é extremamente seguro e, se esses chikans, como chamam os japoneses, fossem perigosos como os daqui, pela quantidade de vezes que fui abordada por eles, eu poderia até estar morta. Felizmente não aconteceu.
(Foto: arquivo pessoal | Carolina visitou também a disneylândia japonesa)
 Que dicas você daria para aqueles que também querem fazer um intercâmbio de longa duração?   
 A princípio eu sempre escuto as pessoas dizerem que a melhor coisa a se fazer é se informar bastante sobre o país pro qual você está indo. Isso realmente é uma coisa muito importante a se fazer, mas não significa que você vai evitar enormes choques culturais. O choque cultural é importante e faz parte do intercâmbio, pois é uma das coisas que te fazem amadurecer e refletir sobre aquele país. 
A dica que eu gostaria de dar as pessoas que desejam fazer intercâmbio é, além de procurar se informar sobre aquele país, se planejar antes de ir. Eu gostaria de ter planejado meus estudos e minhas viagens antes de ter ido, poderia ter aproveitado muito mais. Contudo, meu intercâmbio foi uma experiência maravilhosa pra mim e, apesar das situações ruins pelas quais todos passamos, eu tive muito mais momentos bons do que ruins. O Japão é uma país maravilhoso que recomendo a todos! 
(Foto: arquivo pessoal | Carolina Macedo usa  yukata, um tipo de kimono para o verão)
Para saber mais, visite o blog de Carolina clicando AQUI

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

2 Comments

  1. Adoro esses crossovers de culturas e estilos e amo o Japão! Por isso decidi que aprenderia japonês a todo custo. Comecei… com aulas particulares de japonês por skype hahaha. Mas pior que super indico o curso https://preply.com/pt/japonesa-por-skype. Depois partir pra mergulhar em livros e dicionários e hoje em dia me farto de histórias e games que, otherwise, jamais teria acesso.

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