Comunicar pra revolucionar

Uma crítica ao cientificismo radical apolíneo

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Apolo, deus guerreiro da vingança, detentor da luz solar, um poder da verdade absoluta, é um retrato da passagem da pré-modernidade à modernidade. O iluminismo surge, nas rédeas da racionalidade, para se vingar e se opor ao senso comum.

Mas toda guerra tem um preço, o preço de dar poder a um grupo para que ele conquiste outro. O preço de esperar a salvação vinda de Apolo foi deixar livre sua imposição de verdades absolutas. Verdades aclamadas pelos positivistas e defendidas fria e calculadamente pelos cientificistas.

Neste contexto, toda filosofia que não seja analítica, como a filosofia da ciência, passa a ser considerada como descartável ou pelo menos desimportante. Os efeitos são vastos. Afinal, julgam eles, por qual motivo um filósofo deveria ser ouvido sobre os conflitos das paixões humanas, quando a ciência já inventou os remédios anti-depressivos e ansiolíticos?

Desde Espinosa, no século XVII, já havia pensadores a dizer que a filosofia deve respeitar a ciência para não se tornar ignorante. Certo. Mas somente após o enorme poder da industrialização e dos avanços tecnológicos mostrar os dentes em guerras destruidoras, filósofos começaram a perceber que embora a filosofia sem a ciência seja tola, a ciência sem a filosofia, sem a ética, é fria. Fria e muito possivelmente desastrosa. Se torna necessário aceitar que as rédeas da razão não são mais exclusivas da técnica e análise material da realidade, a razão é fundamental na compreensão das relações humanas, e a filosofia e ciências humanas cumprem um papel importante aqui.

Para muitos, a percepção de que a filosofia pode prevenir desastres vindos dos avanços tecnológicos é o suficiente para colocá-la em pé de igualdade em importância com as demais áreas do conhecimento. Mas Apolo, do topo de sua racionalidade metódica, acredita, hoje em dia, que seu método é o único método, que seus progressos são os únicos progressos, e muitos aceitam isso, cegados pelo sol. E acreditam que as teorias científicas não carecem de opiniões humanas.

Nosso tempo atual é chamado em algumas instâncias de pós-modernidade, pois a sociedade chegou ao ponto de contestar Apolo e colocar outras formas de conhecimento em pauta, defendendo seu papel social perante a ciência tradicional. É preciso separar o joio do trigo em todas as áreas, a ciência da pseudo-ciência, a informação da desinformação, a legitimidade do estudo da farsa dos sofismas dos charlatões. Mas nem de longe a Ética é uma pseudo-ciência, nem a crítica social uma desinformação, e a filosofia sobre as paixões humanas uma farsa. Pois todos estes estudos são formas de perceber, interpretar e significar a realidade, e  progresso social virá de ideias inclusivas e diversificadas, ricas ao englobar as diferenças, e não de uma opressão exclusiva que se afirma detentora de verdades absolutas.

Jornalista com interesse nas áreas de filosofia, política, economia e ativismo social. Bastante convicto que não existe imparcialidade em nenhum meio de comunicação, declara sua posição em prol da ética e dos direitos humanos. Defende que o modelo econômico cartalista explica o real funcionamento da economia mundial, mesmo quando ortodoxos visam impor uma visão ilusória para defender, por trás dos panos, que a renda se dirija aos detentores das dívidas nacionais e do grande capital. Defende uma política socialmente liberal, que proteja os indivíduos das forças de mercado, totalmente oposto ao conservadorismo moral, político e econômico. A existência do comércio livre é desejável para os consumos variáveis do dia a dia, porém os bens de subsistência devem ser regulados firme e dignamente pela democracia, como bens da República. Saúde pública e Educação gratuita universal de qualidade, mídia livre e distribuição de renda até um nível de vida agradável a todos, isso deveria ser o básico do básico para guiar qualquer visão econômica. Infelizmente não é.

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