Um olhar feminista sobre o candomblé.

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Candomblé (1983), óleo sobre tela de Carybé
Candomblé (1983), óleo sobre tela de Carybé

Pensar uma ótica feminista sobre o culto aos Orixás, não significa dizer que o Candomblé é uma tradição religiosa pautada pela perspectiva revolucionária da ausência do patriarcado. O candomblé é uma reorganização do culto às divindades africanas aqui no Brasil, ou seja, embora sendo essencialmente de natureza africana, é ainda, reorganizado dentro de uma estrutura que se fundou sob os pilares europeus, logo, sofrendo a influencia do patriarcado europeu e cristão que aqui se consolida, em contrapartida, uma tradição construída por mulheres e que, o feminino ocupa grande lugar de destaque na prática e na mitologia. Em África também há patriarcado, mas destaco a importância de se observar que o patriarcado africano e o europeu se dão em atmosferas diferentes. Nesse sentido, o que busco explicitar no desenrolar deste breve ensaio é às possibilidades de perceber no candomblé um espaço de resistência e luta feminina

Historicamente os homens exercem maior poder sobre a prática do Sagrado, às mulheres cabendo o papel de transferir as doutrinas, sem definir qualquer posição sobre as mesmas. Nas religiões de matriz africana isso ocorre de maneira diferente. Desde África as mulheres exerciam espaços de poder:

“Por toda a África à mulher se deu tradicionalmente grandes oportunidades (como propriedade e controle de hortas e pomares, mercados, negócios, domésticos, sociedades secretas) e reconhecimento oficial (de sacerdotisa e médium, os paços da rainha e outras entidades que tratam de interesses femininos); por vezes a mulher as partilhava com os homens. Este era bem o caso nas complexas sociedades da África Ocidental de onde veio, ou descendia, grande parte da população escrava”(LANDES, 1967, p. 313/314).

Começando a conquistar a liberdade no Novo Mundo, às mulheres negras ganharam o comércio e com o lucro obtido na venda de quitutes e diversas especiarias compraram aos poucos a alforria de companheiros e familiares. A maioria dessas mulheres já eram sacerdotisas e dentro dos limites impostos pelo sistema escravista brasileiro, cultuavam as divindades africanas. Dentre essas mulheres três ficaram muito conhecidas por darem origem às primeiras casas de Candomblé na Bahia, partindo da Casa Branca do Engenho Velho: Iyanassô, Adetá e Iyakalá.

Essas mulheres assim como tantas outras resistiram à escravidão e com muita força e fé, deram continuidade ao culto dos ancestrais africanos, ressignificando a forma de cultuar reunindo as diferentes nações em um mesmo espaço sagrado. No Terreiro, as mulheres ocupam diversos cargos importantes, de (sacerdotisa) Yalorixá, ekedy, iyabasé, Iyá pequena, uma série de posições que definem o fazer e o viver nesta comunidade.

As mulheres exercem espaço essencial na mitologia fundante do candomblé. Temos Oshum, Yansã, Nanã, Yemanjá, Obá, Ewa, todas essas divindades femininas que são cultuadas nas diferentes nações que compõem o que conhecemos por Candomblé. Da Yaba considerada a mais feminina e sensível a mais guerreira e desafiadora, o feminino constrói metafisicamente e materialmente as religiões afro-brasileiras. Desde que inicie minha pesquisa sobre “O feminino no Candomblé” em 2014, nunca conheci uma Dona Rita do Sr° João. Conheci Mãe Rita Logidãn, de Oxumarê, ou Mãe Ritinha de Oxóssi, ou de Yansã, de Oxum. A identidade dessas mulheres está diretamente ligada ao Orixá, ao pertencimento étnico-religioso o que proporciona autonomia a elas.

A perspectiva feminista sobre essa comunidade se dá através da mitologia, da construção histórica à contemporaneidade, por se referir a mulheres que desafiaram a escravidão, o patriarcado, a soberania da Igreja Católica, todas as desigualdades existentes numa sociedade estruturada pela mão cristã, colonizadora, patriarcal européia e que até a atualidade lutam para continuar cultuando seus ancestrais, que enfrentam diariamente os herdeiros do colonizador. A força da mulher negra existe muito antes do próprio conceito de “feminismo”. Se pensarmos que antes do “feminismo” já havia mulheres que lutavam pela liberdade, então nós temos um feminismo que antecede a proposta de Beauvoir, porém não foi teorizado academicamente

Reconhecendo todas as limitações impostas aos Terreiros, todo o androcentrismo, a hierarquia de gênero absorvida pelos membros que ocorre obviamente através desse processo estruturante de uma cultura predominantemente patriarcal do Novo Mundo, ainda assim, o Ilê é um espaço de empoderamento no que se refere às posições de poder e tomada de decisões.

“Dessa forma constatamos que, apesar de nas religiões afro-brasileiras o número de adeptas ser bem superior ao de homens (se destacando em cargos de liderança), e desse fenômeno se diferenciar em comparação às outras religiões, os valores tradicionais da sociedade patriarcal acabam invadindo e se manifestando nesses espaços, nos quais, de forma notória, se exprime, no ideal, uma negação dos princípios oficiais vigentes, mas que não se desvinculam completamente destes princípios, uma vez que neles estão inseridos. Nossa sociedade é de tradição extremamente conservadora, machista e permeada pela moral judaicocristã. As identidades sexuais e de gênero transitam entre a adesão à norma sexual e de gênero dominante e a sua transgressão.”( BASTOS, 2009.p.09)

Finalmente, o feminismo no candomblé se dá de forma marcante, no sentido de, as mulheres assumirem um local definitivo na quebra da ordem vigente em uma sociedade dominantemente patriarcal cristã, embora  de maneira ainda limitada, mas sendo revolucionária para os padrões conservadores da cultura brasileira.

Referencias:

LANDES, Ruth. A cidade das mulheres. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.
Publicado originalmente em 1947.

BASTOS. S, Ivana. A visão do Feminino nas Religiões Afro-brasileiras. Bahia,2009.

Acadêmica em História pela Universidade Estadual de Alagoas, membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB-UNEAL) e Grupo de Estudos Feministas Dandara-UNEAL, amo gatos e café com canela, feminista interseccional, filha de Obaluayê e Yansã, e nordestina.

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