Trindade resiste: a luta dos trindadeiros contra a especulação imobiliária

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Trindade é terra de beleza e de muita luta
Trindade é terra de beleza e de muita luta

Você já foi à Trindade?  Localizada entre as cidades de Paraty, no Estado do Rio, e Ubatuba, no Estado de São Paulo, a antiga vila é habitada por caiçaras e visitada por milhares de turistas durante as altas temporadas. Conta com belas praias e uma grande piscina natural de água salgada. Cercada por praias paradisíacas, trilhas com paisagens exuberantes e produções turísticas, deslumbra qualquer visitante.

A população local, porém, pagou um preço alto na luta para manter suas terras contra os interesses de empreiteiras, que por todas as vias buscam tomar as terras de famílias que vivem lá há gerações.

No dia 2 de junho de 2016, o jovem Jaison Caique Sampaio, o Dão, então com apenas vinte e poucos anos, foi assassinado a tiros.

O assassinato cometido seria de responsabilidade da empresa Trindade Desenvolvimento Territorial, controlada pela família Bonfiglioli e por seus sócios.

Pedro Milliet, professor que deu aula na região na década de 70, descreve a empresa como:

Grupo responsável por manter o clima de terror em Trindade por mais de 30 anos, com mais um ato irreparável de brutalidade, o assassinato de um jovem caiçara de 22 anos, o Jaison.
Encontrei os meus companheiros de luta da década de 70, quando enfrentávamos, os Trindadeiros junto com alguns de nós de fora, a invasão de suas terras ancestrais. […] Convoco todos a se informar sobre mais esta brutalidade inaceitável contra as populações nativas de nossa região do mundo.

Naquele dia 2 de junho, um grupo de policiais invadiu a terra onde o jovem caiçara plantava. Quando os locais foram ligar para a polícia, os invasores atiraram em Jaison e fugiram.

Entrevistamos Jordan Ravel Sampaio, irmão do jovem assassinado. Ouça a seguir o depoimento de Jordan:

Jordan Ravel Sampaio busca por justiça que, mesmo após meses do ocorrido, a população ainda não viu. O inquérito está em apuração e os culpados ainda estão soltos.

A AMOT, Associação de Moradores de Trindade, é uma das responsáveis por organizar a resistência dos trindadeiros.

Entrevistamos Davi Paiva, Diretor de Comunicação Social do movimento sobre o assassinato e sobre as medidas que a própria população está tomando em busca de justiça. Ouça a seguir:

Reação da população

O ato de violência levantou a população, indignada e revoltada, que ocupou áreas que haviam sido tomadas pelo grupo empresarial.  Destruíram alojamentos da empresa Trindade Desenvolvimento Territorial (TDT), levantaram placas pedindo justiça.

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Veja nossa galeria de fotos:

Agora a área retomada pela população se chama Praça Jaison Caique Sampaio (Praça Dão), em homenagem ao jovem assassinado. A população organiza várias atividades para que o local seja sempre ocupado.

Durante todos os dias da semana diversas atividades de esporte, lazer e de cunho social e cultural estão sendo realizadas na Praça Jaison Caique Sampaio (Praça Dão), conforme garante o plano de manejo que rege a Área De Proteção Ambiental de Cairuçu e a Lei Municipal 1.828/2011. Conhecidas como ZUCEL – Zonas de uso Comunitário, Esportivo, Educacional, Cultural e Lazer – essas áreas nunca tiveram a finalidade que especifica a lei. A comunidade de Trindade reivindica o cumprimento da referida legislação, proteção das autoridades e a retirada imediata da empresa Trindade Desenvolvimento Territorial da vila de Trindade.
AMOT – Associação de Moradores de Trindade

A AMOT esteve presente na FLIP, no dia 3 de Junho de 2016, para conscientizar visitantes e moradores de Paraty sobre a situação da vila. A Ou Seja também estava no local.

Durante a Festa Literária Internacional de Paraty, a Associação de Moradores de Trindade esteve junto aos movimentos coletivos de Trindade na realização do Espaço Cultural Trindade Vive. O objetivo era contar um pouco da nossa cultura caiçara para os turistas e paratienses que passavam pelo local e denunciar o conflito territorial que vivemos há mais de 40 anos. Foram diversas as atividades realizadas no espaço, como teatro, música, poesia, comidas típicas, exposição fotográfica, artesanato, pintura, mesa de debates, além de muita história. Agradecemos a todos que contribuíram com esse espaço histórico que foi amplamente elogiado por todos que nos visitaram. Parabéns aos movimentos coletivos Trindade Vive, Mulheres na Luta por Trindade, Caravana Cultural, Companhia de Teatro Rosa Carmo Queiroz e todas as entidades e pessoas que de alguma forma contribuíram para que nossa cultura e nosso grito de socorro se transformasse em algo tão lindo como foi durante todos os dias da FLIP.

AMOT – Associação de Moradores de Trindade

Contexto histórico

A luta contra a especulação imobiliária não é de hoje. Na verdade ela é da década de 70. Saiba mais sobre o contexto da época ouvindo a entrevista com Pedro Milliet, o professor “Pedrinho”:

Mulheres Guerreiras

Pedro ainda cita Dolores e Diná Lopes como expoentes das mulheres guerreiras que lutaram para manter Trindade livre da especulação imobiliária:

Saiba mais sobre a luta de Diná Lopes clicando no vídeo de YouTube a seguir:

Para mais informações, siga a página da Associação de Moradores de Trindade no Facebook.

Matéria por Lia Ferreira e Octavio Milliet, para a Ou Seja

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