The Art Of Leo Dias De Los Muertos

em Arte/Cinema/Decoração por
The Art Of Leo Dias De Los Muertos
The Art Of Leo Dias De Los Muertos

Confira na entrevista abaixo um pouco sobre a história de vida do artista plástico gaúcho Leo Dias e o magnífico universo de horror que há por trás de suas obras, repletas de intensidade e sentimento.

DSC01825

Hölle Carogne: Conte-nos um pouco sobre a sua historia de vida, falando sobre a pessoa, o homem e o artista Leo Dias.

Leo Dias De Los Muertos: Eu sou filho de um arquiteto com uma contadora. Nasci em 1976 e cresci idolatrando o Muppet Show, assim como Spectreman, Robô Gigante, histórias em quadrinhos e desenhos animados. Como tinha acesso a todos os materiais artísticos em casa, meu interesse foi muito natural, foi meu primeiro amor na vida e é, até hoje a coisa mais divertida que existe para mim.
Eu me apaixonei também, muito cedo, pela cultura de horror, pelos monstros e criaturas. Para mim, eles nunca foram feios ou grotescos, eles eram e são tão bonitos e interessantes quanto qualquer espécie do reino animal. O que faço é celebrar a magia do horror, transformar metáforas do cotidiano em imagens que me dão prazer.
Todas as culturas em diversos pontos da história humana tentaram lidar com o medo do fim e interpretar o desconhecido. Assim nasceram todas as religiões e folclores, e também a cultura do horror. A curiosidade mórbida faz parte de todos nós, admitamos ou não. Alguns se levantam para dar uma espiadinha num acidente automobilístico enquanto dizem “que horror”, em outros tempos a população se reunia em praças para assistir a execução de condenados. Eu faço esculturas.

Hölle Carogne: Conte-nos sobre a sua infância, e se possível, relate uma experiência que marcou esta fase da sua vida.

Leo Dias De Los Muertos: Minha infância foi bem normal, exceto pelo fato de perder meu pai com 5 anos. Passei a dormir com minha mãe uns tempos, e numa madrugada enquanto ela tinha adormecido eu vi um filme de horror, amei a sensação e ali o menino que desenhava e brincava com massinha de modelar passou a ser obcecado pelo macabro.
Lembro que nessa época em que perdi meu pai alguém me disse que ele tinha ido viajar, e eu fiquei esperando ele voltar… Um dia minha mãe se deu conta que eu estava esperando o retorno dele, me perguntou e eu contei o que haviam me dito, ela obviamente ficou furiosa. Não comigo, mas por terem feito isso.
Acredito muito que essa é a origem do meu fascínio por todas as criaturas mitológicas ou da cultura popular que retornam do mundo dos mortos, sejam zumbis, vampiros ou fantasmas. Embora eu nem sequer acredite em alma, deus, espírito, reencarnação ou algo parecido.

card

Hölle Carogne: Qual foi seu primeiro contato com a arte e quando decidiu dedicar-se a ela?
Leo Dias De Los Muertos: Foi com meu pai e os materiais de trabalho e lazer dele. Eu não decidi me dedicar à arte, ela é uma função vital, eu não tenho escolha, assim como não posso decidir se quero ou não respirar.

Hölle Carogne: A arte é a sua profissão? Ou apenas um hobbie?

Leo Dias De Los Muertos: É minha profissão, e nas horas de folga, meu hobbie! Trabalho todos os dias, 7 por semana, 365 por ano, durante quase todas as horas desde que acordo até ir dormir. Já notou como eu digito mal? Raramente eu não estou segurando uma espátula de escultura enquanto digito.

Hölle Carogne: Como você idealiza as suas obras e o que te inspira a criar?

Leo Dias De Los Muertos: Sempre varia de acordo com meus interesses, que são flutuantes. Há alguns anos mergulhei fundo no horror vitoriano, então tudo desse período é fascinante, sejam lendas, criaturas, trajes, objetos, decoração ou arquitetura. Foi assim com todas as fases que meu trabalho já passou. Eu penso em um conceito geral e que coisas fazem parte daquele cenário, nenhuma peça é gratuita, mas está estabelecida dentro de uma narrativa que só acontece dentro da minha imaginação e, espero, um dia existam peças o suficiente para que ela se conte sozinha.

DSC03345

Hölle Carogne: Quais são os materiais e técnicas utilizados?
Leo Dias De Los Muertos: Argila e epóxi, para peças originais. Resina, fibra e borracha de silicone para réplicas, tintas e vernizes de todos os tipos, e muita, muita sucata. Eu sou muito lixeiro. Eu trabalho mais com modelagem, também desenho desde sempre, mas escultura me satisfaz incomparavelmente mais.

Hölle Carogne: Quais são os artistas (pintores, escultores, desenhistas, escritores, músicos, etc) que te inspiram?
Leo Dias De Los Muertos: Giger, ZdzislawBeksiński, Paul Booth, Yeuronimous Bosch, Caroline Jamhour, Jeanne D´Angelo, Michael Bukowski, Michel Munhoz, Mike Mignola, Dave McKean, Tony Moore, Jack Davis, Graham Ingels, Joe Orlando, Jack Kamen, Basil Gogos… Definitivamente desenhistas e pintores influenciaram bem mais minhas esculturas do que escultores.
Escritores como Julio Verne, Poe, Lovecraft, Stephen King, Frank De Felitta, William Peter Blatty, Dickens, Pedro Bandeira, Marcos Rey, Mike Mignola novamente, Allan Moore… Todo o cinema de horror, é claro.
Musicalmente o que fala mais comigo é o punk, hardcore, crossover e metal. Mas eu gosto de música independente de gêneros. Amo Bruce Springsteen, Tom Waits para mim é deus, surf music australiana, tudo que tiver tambores, música latina, música tribal, rap se for pesado, clássica, trilhas sonoras… Sabe aqueles carinhas bolivianos que ficam tocando flauta? Adoro eles!

IMG_3035

Hölle Carogne: Suas ideologias e crenças influenciam em suas criações artísticas? De que forma?

Leo Dias De Los Muertos: Completamente! Eu sou o que se pode chamar de ateu desde muito criança. Nunca me convenci da existência do que se chama de deus (seja qual for entre tantos) e quanto mais aprendia sobre história, menos credibilidade esse conceito religioso espiritual tinha comigo. Como eu lido com horror, me interesso por tudo que dê medo, cause repulsa, ou seja, antagônico ao status quo. Demônios nada mais são para mim do que metáforas de antagonismo, tão reais quanto lobisomens, zumbis, vampiros, slenderman, loira do banheiro ou o Saci.
Como eu não acredito também em pátria e nacionalidade, encaro todas as culturas do mundo como uma só. Embora obviamente existam traços regionais no folclore e mitologia, fronteiras são linhas imaginárias criadas para dividir as pessoas. Eu não poderia estar menos interessado em divisões, a mim fascina toda e qualquer boa história de horror, seja dos cafundós da China, ou aquele causo que os antigos contam no interior do Rio Grande Do Sul. Esse é meu combustível.

DSC08948

Hölle Carogne: Como você se sente quando está criando um trabalho? O que passa em sua mente e em seu corpo no momento da criação?
Leo Dias De Los Muertos: É a melhor sensação que existe. É um momento de profundo relaxamento, quando estou atento ao conceito geral e aos detalhes que trazem o charme da peça. Raramente é fisicamente desgastante, a menos que seja uma peça gigantesca e pesada ou quando preciso lixar e perfurar por tempo demais. Eu passo cada segundo de todos os meus dias pensando em novas idéias ou detalhes delas. Eu observo pessoas, animais e plantas e fico analisando suas características visuais, como são as rugas, texturas e cores, quantas cores existem dentro da cor de uma pele, por exemplo.

Hölle Carogne: Como você definiria seu estilo artístico?

Leo Dias De Los Muertos: Eu não tenho certeza se tenho um estilo artístico definido. Eu tenho curiosidades e são elas que me guiam. Embora eu perceba uma identidade no que faço ela é muito mais proveniente de uma espécie de “sotaque visual” do que de um esforço para obedecer a essa ou aquela escola da arte.

Hölle Carogne: Escolha uma (ou mais obras) e conte-nos sobre ela/elas.

Leo Dias De Los Muertos: Minha peça favorita é A Velha Bruxa, da EC Comics, criação do grande Graham Ingels nos anos 50 e que retratei no começo de 1990 em argila, mas que havia ficado apenas uma cabeça. Já nos anos 2000 resolvi revisitar e reformar, transformei a cabeça transpondo a peça para epóxi e esculpi o corpo inteiro. Os cabelos são humanos, a roupa é de feltro. Então é uma peça que demorou uns 20 anos para ser finalizada.

A Velha Bruxa

Uma peça com um significado bem mais pessoal é o Escafandro Para Mergulho No Inferno. Tive a ideia para ele na época em que minha mãe fazia quimioterapia, todos os dias vivendo aquela realidade não só dela, como de diversos outros pacientes era como uma descida ao inferno. Ver a pessoa que tu mais ama no mundo passar por algo assim e tudo o que tu pode fazer é tentar minimizar o sofrimento dá uma sensação de profunda impotência. Milhares de vezes eu pensei que faria qualquer coisa para trocar de lugar para que ela não tivesse que sentir mais dor. Mas não, tudo o que eu podia além de oferecer amparo era assistir, como um escafandrista encasulado em seu traje de mergulho, descendo ao escuro do abismo.

Escafandro Para Mergulho No Inferno

Hölle Carogne: Leo, gostaria de te agradecer pela disposição e pela entrega. Foi uma honra para nós da Equipe Vero conhecer um pouco mais sobre sua vida e sobre a sua arte, que é incrivelmente fantástica. O espaço a seguir é seu, para que deixe suas considerações finais e seus contatos para que as pessoas que queiram conhecer um pouco mais sobre você e seu trabalho possam encontrá-lo.

Leo Dias De Los Muertos: Eu é que agradeço pelo espaço e possibilidade de que mais gente conheça meu trabalho, ou os que conhecem saibam das motivações.
Embora seja um trabalho, ainda assim faço cada peça para mim mesmo, porque eu sou um privilegiado por poder fazer todos os dias o que amo.
Eu sei que muita gente que vai ler também trabalha ou quer trabalhar com o que ama, fiquem firmes. Façam por amor e nada além disso, os resultados serão naturais. Faça por amor, faça porque é necessário para que você se sinta uma pessoa completa. Ignore pressões, ignore conselhos, ignore o mundo.
Vai doer, vai ser mais difícil, obrigatoriamente. Mas a vida é uma só e curta demais para se gastar ela inteira tentando se encaixar em padrões sociais.
Não faça pensando na linha de chegada, mas na trajetória. O percurso deve ser um prazer, caso contrário você está sacrificando tempo precioso. Tempo é tudo o que temos.

Visite a página de Leo Dias, no Facebook: https://www.facebook.com/helldiving/?fref=ts

desaturado

com bode 5-3
cucaracha2
DSC03688
DSC05040
DSC05947
DSC06179
DSC08871
final
hell
IMG_0554
LClogo
stormcrowlogo
wallp

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*