“Tenho que fazer antropologia”, diz índia

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Jera, moradora da aldeia Guarani Kalipety, revela que tem muita dificuldade em explicar aos meus velhos da sua tribo por que o povo Jurua (homem branco) destrói tanto.

“Jurua é inteligente, sabe fazer tanta coisa legal e tal, mas por que eles fazem isso? Os mais velhos perguntam às vezes pra gente. Eu estudei a cultura do Jurua também, fiz pedagogia diferenciada. Tô muito tempo no mundo do jurua. Mas eu não consigo entender ainda. Eu tenho que fazer antropologia, talvez da cultura do juruá pra conseguir explicar isso por meu povo mais velho. É muito lamentável tudo o que está acontecendo hoje no nosso planeta Terra.”

Os direitos indígenas estão sendo ameaçados pela PEC 215 que “inclui dentre as competências exclusivas do Congresso Nacional a aprovação de demarcação das terras tradicionalmente ocupadas pelos índios e a ratificação das demarcações já homologadas; estabelecendo que os critérios e procedimentos de demarcação serão regulamentados por lei”, segundo o site oficial Câmara dos deputados.

O Brasil desvaloriza a cultura nativa e mata indígenas em disputas de terras. Antes da chegada dos portugueses, o número da população indígena poderia ultrapassar 2 milhões e 500 mil nativos. Hoje, estima-se 320 mil indígenas no país. [1]

Não é a toa que para o povo Munduruku, o homem branco “anda de mãos dadas com a morte, come junto com a morte.”
Este povo deu uma lição aos homens brancos numa carta escrita em repúdio à PEC 215:

Em quem os deputados interesseiros pensavam quando fizeram essa lei? Não foi por Povo brasileiros  e sim, por eles individualismos, nossos irmãos Guarani-Kaiowa que precisam de paz e harmonia na própria terra e ainda são discriminados , ameaçados e morrendo assassinados por querer cuidar e preservar sua pequena terra mãe que resta, ouvimos até dizer que quem manda matar nossos parentes, foi quem pediu aos deputados essa lei, chamam eles de latifundiários interesseiros , pariwat (brancos).

Sabemos que não pensaram em nossos parentes do Maranhão, os Ka’apor, por que as terras deles está sendo assediadas por esses mesmos bancadas ruralistas e ninguém dos órgãos responsáveis prestam socorro sequer, pegando fogo e os parentes estão doentes, por que os que tocaram fogo na terra, pediram essa para aprovar essa lei aos deputados corruptos, chamam eles de pariwat invasores das nossas terras, madeireiros,grileiros e demais  chamados saúva .

Também sabemos que não foram nossos parentes aqui do rio Tapajós, por que o que queremos é o território de Dajé Kapap Eipi demarcado, mas ouvimos dizer que os barrageiros junto com mineradoras pediram essa lei e mais outras leis pra roubar da terra a vida que sustenta nos filhos.

Nossos pajés já nos contavam que viam em seus sonhos que isso ia acontecer, vamos escutar agora mais nossos pajés, nossos sábios, por que o governo que criou a portaria 303/2012, ilegal, mas que o governo usa pra não dar nosso direito.

O governo com seus aliados já mostrou que só pensa na morte,matando os povos tradicionais , anda de mãos dadas com a morte, come junto com a morte. Não queremos quem vive assim perto de nós. A vida de todos os povos tradicionais  é a terra porque nós somos ligados à mãe natureza, mãe do rio e dos animais. Assim aprendemos com nossos sábios e mantemos nossa força unida para lutar, sempre informados, alertas, com nossa própria voz e autonomia.”

Desde que o homem branco chegou ao Brasil, já desmatamos quase todas as nossas florestas, poluímos nossos principais rios, tornamos águas impróprias para o consumo, destruímos indígenas. Da imagem do Brasil milenar, pouco sabemos. O historiador Pedro Paulo A. Funari, no livro “Os antigos habitantes do Brasil”, chegou a escrever sobre como era o Brasil há milênios atrás:

“O território era maior, porque o nível do mar se achava noventa centímetros mais baixo. Isso equivale a quilômetros de terras que hoje estão debaixo da água. O clima era mais frio, de modo que a floresta Amazônica era menor e os pinheirais do Sul chegavam até Minas Gerais. Agora, diferentes mesmo eram os animais que conviviam com o homem nessa época. Animais gigantes que não existem mais. Tigres‑dentes‑de‑sabre, preguiças e tatus maiores do que um cavalo. […] Os antigos habitantes viviam da caça, da pesca e da coleta de frutos. […] Nas caçadas, usavam lanças de pontas de pedra. Quase sempre viviam em grutas. Muitas pinturas que encontramos hoje foram feitas naquela época.”

A verdade é que a noção “branca” de conforto e progresso trouxe muita destruição tanto para povos nativos quanto para nosso planeta. A produção industrial de alimentos, junto com a monocultura acabou por destruir e desvalorizar a nossa terra. Jera explica que não adianta torcermos o dinheiro:

“A demarcação pros povos indígenas no Brasil não é mais só pra gente, ela é pro ser humano. Porque a gente, quando luta pela demarcação, a gente é chamado de vagabundo, de preguiçoso, de bêbados e tal porque a gente não faz monocultura. A gente não quer ter essa área toda aqui pra jogar um monte de vaquinha, ficar alimentando elas todo dia e depois matar, vender e ficar rico. A gente sabe que a gente pode ganhar muito dinheiro com as nossas terras. Mas todo esse dinheiro, todo esse mar de dinheiro não vai sair água se a gente começar a torcer quando acabar a natureza. É a consciência do equilíbrio. Uma das nossas dificuldades do povo indígena de demarcar a terra é justamente por essa situação do empreendedorismo, da ganância que o povo Jurua tem. Esse povo da elite que não quer saber de nada, destrói tudo, corta tudo, mata tudo pra ter mais dinheiro e mais dinheiro. E que daqui a pouco vai morrer e não vai levar nada disso pra piorar (risos). Só vai deixar outros filhos, outros parentes, pra continuar essa rotatividade de destruição”, complementa Jera

[1] Ribeiro, Regina História e geografia do Estado de São Paulo, 4o ou 5o ano : ensino fundamental : anos iniciais : volume único / Regina Ribeiro, Murilo Resende, Cláudio Mendonça. — 1. ed. — São Paulo : Moderna, 2014. 1. São Paulo – Geografia (Ensino fundamental) 2. São Paulo – História (Ensinofundamental) I. Resende, Murilo. II. Mendonça, Cláudio. III. Título.

[2] Pedro Paulo A. Funari. Os antigos habitantes do Brasil. São Paulo: Unesp/Imprensa Oficial do Estado, 2001. p. 28-29.

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

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