Somos mulheres, mas não apenas isso

em Articles/Comportamento/Educação/Feminismo por

É consenso que o feminismo é um movimento plural. Suas diversas formas de atuação e as visões direcionadas e advindas de variadas vertentes muitas vezes trazem discordância, e o resultado é que, nesse sentido os embates, são inevitáveis. Ainda assim, parece haver algo em comum em certos discursos feministas, independente da vertente o qual se alinham: o feminismo centrado única e exclusivamente na condição da mulher na sociedade, desconsiderando todas as outras variantes que determinam o Ser mulher.

Seja por imaturidade, falta de conhecimento sócio-histórico, teórico ou até mesmo pela falta de visão do feminismo como um movimento político, essa visão desconexa leva à propagação de discursos problemáticos e vazios como os que vemos ultimamente, como o pedido por mortes masculinas (sejam quem for esses homens), ou uma aversão à questão da transexualidade. Movidas pela emoção, ou por puramente reagir a uma estrutura social em permanente crise e um cenário político extremamente conservador, assistimos a adoção de estratégias de ação falhas, como é o caso do clamor por leis mais duras, pois acreditam que isso, apenas a letra fria, protegerá as mulheres.

É pertinente pontuar que o discurso proferido a sério em relação à mortes masculinas, embora não surta nenhum efeito social, é reflexo de uma falta de conhecimento da conjuntura atual em suas diversas expressões, assim como dos efeitos do racismo na sociedade. Se faz necessário lembrar que os homens mortos diariamente, possuem cor e estão condicionados às classes sociais mais vulneráveis, onde impera o desemprego, a violência e o analfabetismo.

Nosso país vem aderindo à leis cada vez mais rígidas, assistimos ao fortalecimento de um Estado cada vez mais repressivo, presídios lotados em condições desumanas, o que evidentemente não está resolvendo a problemática da opressão sexista, ou da violência como o todo no país, tampouco está protegendo as mulheres, pois as leis penais e os presídios tem um alvo evidente.

Recorrer ao Direito Penal com o objetivo de mudanças sociais é um caminho deveras perigoso, pois além de o mesmo não possuir tal finalidade, é uma via de mão dupla; a repressão se faz para toda a população, mas atinge em grau maior setores marginalizados da sociedade, além de incorrer numa medida que não soluciona realmente o problema, tratando-se de uma medida paliativa, visto que é adotado apenas quando o então considerado ato ilícito já ocorreu.

Nos anos 60/70, nos EUA, diversas feministas negras anarquistas, comunistas e socialistas já denunciavam a problemática de um feminismo que se pautava única e exclusivamente em torno da condição da mulher branca e heterossexual e denunciavam a invisibilidade das mulheres negras dentro do movimento. Também nessa época, as mulheres lésbicas e bissexuais falavam da necessidade de um debate em torno de suas orientações sexuais, visto que o foco se dava sobre as mulheres heterossexuais. Seja em relação ao racismo, a lesbofobia e bifobia, o discurso predominante dentro do feminismo era de que o machismo atingia de maneira igual a todas as mulheres, sendo assim, não havia necessidade de apontar essas especificidades.

800px-Audre_Lorde
Audre Lorde, Austin, Texas, 1980 – (Fonte Wikipédia)

Audre Lorde, feminista norte-americana negra e lésbica, em sua carta a Mary Daly denunciava o racismo existente no feminismo e falava da importância de não encarar a opressão às mulheres como algo que se dá da mesma forma

“A opressão das mulheres não possui limites étnicos nem raciais, de fato, mas isso não significa que é idêntica dentro dessas diferenças. As reservas de nossos poderes ancestrais também não conhecem esses limites. Lidar com um deles sem sequer mencionar o outro é distorcer o que temos em comum, da mesma forma que distorce as nossas diferenças.”

Nas primeiras décadas do século XX no Brasil, mulheres anarquistas clamavam o debate em torno da mulher trabalhadora nos movimentos de mulheres, ao mesmo tempo em que chamavam a atenção para inclusão do debate da condição da mulher na sociedade de classes dentro do próprio anarquismo, cuja hegemonia masculina impedia de enxergar a questão da mulher como algo não secundário em relação à luta de classes, algo que também se fez presente entre as mulheres comunistas.

Há alguns anos vemos a inserção das questões referentes à transexualidade e travestilidade no feminismo. Mulheres e homens transexuais, assim como as travestis são marginalizadas socialmente, tendo direitos mais básicos negados, como o reconhecimento do gênero o qual pertencem, até algo que parece simples, como o uso de banheiros.

Racismo, gênero, luta de classes, sexualidade, transexualidade, essas são questões que embora pareçam diferentes à primeira vista, ao se analisar melhor, nota-se que estão todas interligadas e que atentam para a necessidade de um debate não fragmentado e que respeite as especificidades em torno da mulher. A opressão sobre as mulheres se dá de diferentes formas, a depender de suas especificidades em sociedade. Não é possível avançar politicamente quando não se enxerga as diversas implicações de determinada problemática, no caso, ser mulher numa sociedade capitalista, excludente, e, para que isso ocorra, é necessário analisar as particularidades e demandas específicas dos diversos grupos de mulheres.

A condição de ser mulher não deve ser traçada sob uma ótica isolada, mas sim como condicionada a partir de uma série de fatores que se modificaram e vem se modificando ao longo dos anos e que sofre direta influência de uma ideologia dominante. É só a partir de um debate mais consistente que se pode analisar e considerar as diferentes formas de opressão, sendo possível à construção de pautas para tratar diretamente a causa, e traçar estratégias que visem livrar a mulher das diferentes opressões a que está submetida na sociedade.

Precisamos ampliar o debate sobre a condição feminina, precisamos dialogar mais e impor menos, assim como construir mais espaços que nos fortaleçam, e, necessitamos principalmente, refletir.

Autora: Cléo Silva (Estudante de direito, membro do grupo feminista Dandara / Arapiraca-AL)

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*