Sexo e a realidade do “faça, mas disfarce”

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Em público, quando o assunto é sexo, bochechas ficam coradas, corações palpitam, pessoas fingem desinteresse. Vivemos na sociedade do “faça, mas disfarce”. Pessoas sentem a necessidade de usar máscaras, dissimular, esconder. Se, por um lado, a sexualidade humana é exposta coletivamente em propagandas, programas, revistas e mulheres seminuas, por outro, é escondida e abafada quando analisada num contexto pessoal. Em outras palavras, você até pode ter sido “sapeca” quando jovem, mas espera que sua filha aja diferente.

Frases técnicas sobre o ato sexual deixam o tema frio, sem gosto, como chuchu sem sal: “Acariciar os órgãos reprodutores”, “introduzir pênis na vagina”, “para o espermatozoide encontrar o óvulo” etc. Ainda pior é usar termos infantis, momento em que a criatividade – ou a falta dela – reina: caverninha, sementinha, conchinha, bananinha, piu-piu. Codinomes para “ela”, então, ouve-se aos montes: perseguida, perereca, xoxota, aranha, quebra-pinto, engole-espada, periquita, setor de embarque, pombinha. A pessoa escolhe o apelido que mais lhe apetece caso não queira parecer séria ou vulgar.

Isto acontece porque, para muitos, se o tema não for tratado como brincadeira ou entre amigos, torna-se constrangedor. Não importa se a vida sexual daqueles que se sentem desconfortáveis com o assunto seja até mesmo promíscua, a verdade é que, para a maioria, podemos ser safados na cama, mas devemos permanecer santos ante a sociedade, valorizando assim o teto imaculado de nossos pais e as paredes honradas de nossas igrejas.

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Ondas de conservadorismo mostram que o tabu e a hipocrisia ainda reinam. Alguns pais ainda não conseguem falar francamente sobre sexo com os filhos e preferem deixar o assunto nas mãos das escolas. Principalmente no meio protestante, sexo antes do casamento é pecado. Seguindo este pensamento, se mães pudessem escolher, prefeririam que suas filhas se casassem virgem.

A realidade, contudo, está muito aquém dos desejos dos pais. No Brasil, 96% dos jovens declararam, numa pesquisa da Unesco, ter uma religião. Contudo, apenas 5,4% afirmaram que a atividade favorita deles fora de casa é ir à igreja. Conversar com Deus não parece ser tão agradável quanto ir a festas (8,5%), praticar esportes (12,5%), dançar (9,1%), e outros. Além disso, 45% dos jovens entre 15 a 17 anos revelaram já ter tido relações sexuais. O número aumenta para 77,8% no que diz respeito à faixa etária entre 18 a 20 anos e chega a 90,2% na faixa dos 21 aos 23 anos.[1] Portanto, apesar de se afirmarem religiosos, suas crenças não os impedem de experimentar os prazeres do sexo. É difícil para uma pessoa jovem, se ela não for assexuada, abster-se de qualquer expressão de sua sexualidade. Este talvez seja indício de que nem as mãos das autoridades paternas e as influências religiosas conseguem incidir sobre a realidade de cada indivíduo.

Papo de Calcinha: Reprodução
Papo de Calcinha: Reprodução

Além do sexo antes do casamento, alguns comportamentos também são considerados tabus. O programa “Papo de Calcinha”, do canal Multishow, apresentado por mulheres jovens que falam abertamente sobre suas experiências sexuais, causou muita polêmica na mídia. Nos vídeos do programa veiculados na web, os internautas que os comentaram usaram termos pejorativos e palavras de baixo calão na tentativa de ofendê-las. Outros disseram não acreditar nas histórias pessoais contadas pelas apresentadoras. Afinal, como moças jovens poderiam ter tanta experiência sexual? Para alguns, o programa ridiculariza a imagem dos homens. Para outros, denigre a das mulheres. A discussão tomou espaço também em meios tradicionais da mídia. Num artigo publicado pela Folha de São Paulo, a colunista Nina Lemos afirma que o programa parece ser liberal, mas na verdade se trata de machismo disfarçado.[2] O fato das garotas revelarem o que fazem para agradar os parceiros seria um dos motivos do programa ser machista. Mas elas não apenas falam sobre agradar, mas também sobre como gostam de ser agradadas. Talvez seja difícil para Nina Lemos admitir que não é o suposto machismo que a incomoda, mas a coragem das meninas em falar em público sobre sua intimidade.

A religião, claro, desempenha importante papel nesse cenário, por ser marco de nossa conduta social. Padres, pastores e outros líderes religiosos têm ditado como devemos nos portar, ou ao menos fingir, para não termos uma conduta considerada desviante. Mas quem repudia a imoralidade, muitas vezes dela se lambuza. Hoje, devido às constantes manchetes sobre pedofilia, estupro e outras condutas igualmente impróprias para líderes religiosos, perguntamo-nos o que leva tantas pessoas apegadas à fé, que são tementes a Deus e às ardilosas chamas do inferno, a pecar tão deliberadamente. E por que tantos fiéis, seguidores da palavra divina, acenam com a cabeça para seus líderes com o mesmo empenho em que pecam em suas casas.

Fontes:

[1]    Juventude, Juventudes: o que une e o que separa. Unesco, 2004.

O documento está no site oficial da Unesco:

http://unesdoc.unesco.org/images/0014/001468/146857PORB.pdf

Acessado pela última vez em 5 de julho de 2013.

[2]    Veiculado em dezembro de 2009 e disponível no site oficial do jornal:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1812200922.htm

Ultimo acesso em 5 de julho de 2013.

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

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