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Setembro amarelo: A importância de se falar sobre suicídio mesmo quando dói a alma

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         “Há quase três anos, o meu pai faleceu e, desde então, a minha mãe, que já tinha depressão, se afundou ainda mais. Eu fiquei deprimida também, mas sempre quis ser forte, para ajudar a minha mãe. Ela é superprotetora, sempre quer que eu e meu irmão gêmeo fiquemos juntos com ela e tal. Devido à depressão dela, nos mudamos para a Bahia, onde temos mais pessoas da família. Só que eu piorei, e ela também.

Um dia, acordei e estava tudo normal, aparentemente. Só que quando fui falar com a minha mãe, ela estava chorando muito e não quis dizer os motivos. Como sei que ela tem depressão, pensei que fosse um dia daqueles em que nada faz sentido (eu também me sinto assim, então tentei entendê-la). Só que teve um momento em que ela se trancou no banheiro e não queria abrir a porta por nada, eu esperei uns minutos e disse a ela que queria usar o banheiro, para ela abrir. Quando ela abriu, ela estava jogada no chão, parecia drogada… Então, fui direto nos remédios antidepressivos dela e a cartela que tinha uns cinco comprimidos estava vazia. Chamei um parente com carro e levamos ela ao hospital, por pouco ela não faleceu. Eu fiquei completamente sem chão, às vezes sinto q a culpa é minha e que eu sou impotente… Atualmente, moramos em São Paulo, só eu e ela, e sempre que ela está mal, fico com medo de acontecer de novo, evito deixar ela sozinha com os remédios, ela não aceita se tratar. Eu estou tomando antidepressivos porque alguma de nós tem de ser forte”.

Anna

Infelizmente, relatos como o de Anna são comuns. Muitas garotas enviaram depoimentos sobre casos próprios ou de pessoas conhecidas que tentaram o suicídio. Pediram para que apenas o primeiro nome fosse colocado, visto que não querem ser identificadas. Há sempre alguém próximo que sofre de depressão, o grande responsável pelas tentativas de suicídio.

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Imagem: UOL

            Enquanto a ONG e outros movimentos sociais querem espaço para discutir abertamente o assunto, a grande mídia procura manter silêncio no que diz respeito à divulgação de mortes por suicídio. De fato, segundo um estudo do Ipea, Os efeitos da mídia sobre o suicídio: uma análise empírica para os estados brasileiros, de agosto de 2013, existe, sim, um aumento no número de casos de autoextermínio quando uma morte do tipo é divulgada amplamente. A mídia ainda é colocada como o terceiro motivador de suicídio, seguido por desemprego e violência, quando se considerada todos os grupos de pessoas.

            “Os resultados deste estudo sugerem que existem grupos de pessoas suscetíveis ao suicídio, em decorrência do efeito da mídia. Isto é, elas são influenciadas por algum tipo de comportamento de grupo, por exemplo, alguma tribo de jovens e adolescentes que propagam suas ideias por meio de mídias sociais. Estes canais permitem a interação social a partir do compartilhamento e da criação colaborativa de informação, nos mais diversos formatos, via internet. Além disso, há outras formas de propagação de ideias por meio de veículos tradicionais de comunicação, como televisão e rádio”, afirma o estudo.

            Ademais, escreve sobre como a mídia pauta a própria mídia, gerando um efeito em cadeia. O processo se torna um círculo vicioso e algumas ideias acabam contagiando outras pessoas. “Nesse sentido, pode-se afirmar, então, que existe um componente de epidemia em determinados episódios de suicídio”, reitera o texto do estudo.

Contudo o problema não pode ser tratado como se não existisse. Pessoas que sentem a urgência de falar sobre suas dores, receios e pensamentos sombrios, podem ligar para 141, 24 horas por dia, ou então irem pessoalmente aos pontos de atendimento da ONG, pelo site da instituição e/ou conversar por chat, Skype ou e-mail. Muitas pessoas necessitam falar sobre suas questões mais profundas. Relatos são importantes para outras pessoas que passam pelo mesmo problema não se sintam sozinhas.

“Eu lidei com fobia social desde bebê e hoje em dia só me restam resquícios e muito menos intensos como antes. Eu lidei com falsidade de amigos desde uma idade precoce e às vezes quase que movida as amizades por pena. Convivi com bullying indireto por alguns anos na época escolar. Aos 12, tive síndrome do pânico e fugi do colégio. Me distanciei e mergulhei na depressão. Não queria ver quase ninguém só minha melhor amiga que depois brigamos e rompemos a amizade aos 13 por motivos fúteis e infantis. Fiquei sozinha por muito tempo, mas depois consegui convívio social. Aos 15, comecei os sintomas do meu transtorno borderline: impulsividade, agressividade tentativas de suicídio e automutilação de todas as formas possíveis. Indo fisicamente ao descobrimento e uso de álcool e cigarro e desejo imenso de outras drogas para fugir dos problemas como própria experiência. Tenho uma fraqueza para o caminho de abuso de substâncias a ponto de não recusar um copo de álcool e cigarro. Cresci em meio de violência doméstica e ansiedade constante de meu pai alcoólatra e muitas brigas. Minha mãe ė abusiva comigo vindo de um ciclo familiar de abuso. Eu tentei me matar duas vezes aos 15 com remédios e enforcamento por meio de cinto, que para piorar foi do meu falecido pai na época. Tudo levado a impulsividade de brigas com minha mãe. Eu vejo o suicídio como uma fuga, impulsividade inconsciente. Ė um tabu e visto a olho cru ainda por muitos e ė um assunto que deve sempre ser tocado”.

Lorraine

Para um cidadão comum, é difícil entender a depressão e a dor de quem passa por isso. Muitas vezes, a pessoa que fala sobre o suicídio não quer uma solução para seus problemas, mas deseja ser acolhida de alguma forma. Contudo a sociedade tende a julgar o assunto nem nenhuma sensibilidade, como se fosse algum tipo de “frescura”. O movimento “Conte comigo” busca unir a sociedade para que vencemos a depressão. “O Conte Comigo é um movimento que tem o apoio do CVV, e foi criado para promover um diálogo aberto e franco sobre depressão”, se autodescreve o movimento. Na página da Internet, é possível encontrar dicas para ajudar conhecidos e também apoio.

Buscar colo de amigos, alívio na arte, em terapias e até mesmo em ajudas com medicamentos receitados por profissionais, podem aliviar o peso.

“A morte, a meu ver, não deve ser levada como ruim e feia e cruel mas sim como uma fonte de renascimento aprendizado. É até mesmo poética se formos filosofar. Porém, o suicídio ė uma linha tênue diferente da morte. Estamos falando de uma pessoa com uma fragilidade emocional intensa no momento e que convive com isso. O suicídio tem que ser ajudado de forma terapêutica, compreensiva e amável. Não vamos jogar mais espinhos em um porco espinho, certo? Enfim, o que me ajuda a lidar com isso ė a arte porque ela pelo menos pra mim ė a melhor terapia possível no mundo. Eu jogo tudo que eu sinto vontade de jogar nela e tiro um peso das minhas costas gigante. Como também posso ajudar outras pessoas mostrando a elas que não são as únicas que sentem isso e ensiná-las a jogar quaisquer sentimentos negativos e até mesmo positivos na arte. Não machucamos ninguém assim e só ficara lá. Não devemos cobrir os sentimentos e sensações mas sim jogá-los inteiramente e sem medo e sem vergonha. A sociedade precisa entender isso e interpretar não como um incentivo a algo ruim mas como uma forma terapêutica que só fica ali”, coloca Lorraine, que vê na arte um alívio para a dor. 

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

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