Sete Minutos – Curta Metragem Nacional

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Texto por Lia Ferreira

O curta “Sete Minutos” retrata um cenário bastante comum nas favelas brasileiras. Numa linguagem cinematográfica inovadora, a câmera se comporta como agente ativa, pois capta o olhar do personagem principal. Desta forma, a apresentação imagética do curta se parece com a de um jogo de violência, ressaltando, deste modo, a brutalidade que ocorre nas favelas. Lembra o jogo GTA, por exemplo. O expectador, portanto, não consegue ver o personagem principal, apenas suas mãos, e se compreende no contexto espacial do filme de acordo com a visão dele. Percebe-se logo que o personagem em questão é um dos “chefes” da favela e, tal como no jogo, se vê em uma “missão” – no caso, assassinar um sujeito chamado Léo. Logo na primeira cena, o expectador tem uma ideia das características físicas do personagem principal, conhecido como PC, ao ver sua mão tirar a blusa de um “pedaço de carne” em forma de mulher branca e loira. “Pedaço de carne” porque a mulher em questão se oferece como se estivesse tentando mostrar seus atributos carnais e qualidades sexuais numa feira. Além da questão mulher-objeto, a cena inicial logo faz refletir sobre a imagem difundida nos meios midiáticos de que os “chefões” das favelas, normalmente negros, costumam optar, como companheiras sexuais, por moças brancas e loiras. Talvez como demonstração de poder, de ligação com a sociedade na qual se veem marginalizados. Nas cenas que se seguem, percebe-se as interações do personagem, visivelmente obcecado com questões de traição, enquanto ele percorre parte da favela em busca de seu alvo, Léo. Portando-se de forma violenta, procurando amedrontar seus “subordinados”, o personagem repete que mataria qualquer um que o traísse. O curta não deixa claro qual foi o “pecado” de Léo, mas o expectador pode imaginar, percebendo os caminhos vistos no submundo do crime. Outro aspecto tratado, mas de modo subtendido, é a aparente calma dos moradores da comunidade. Apesar da visível violência, dos personagens andarem pelo local com armas pesadas, os moradores passam com crianças no colo sem se importarem, sem temerem as consequências de balas perdidas. Estariam acomodados? Estariam adaptados às situações de violência? O curta não aprofunda essas questões, mas induz a refletir sobre elas. O final não poderia ser diferente. A violência e a obsessão pela morte do “inimigo” levam o personagem principal à própria morte. Assim, este recorte midiático, que demonstra com clareza a violência na favela, também faz pensar sobre as consequências desses atos bárbaros. Aquele que procurava a morte do outro acaba por morrer.

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

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