Senhora presidente, meu nome é Willian, e eu não sou ‘existencialista’

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[montagem em homenagem à estréia da 4a temporada de GoT – WL]
O título deste artigo é uma livre apropriação do mote-título de um filme idiano chamado “Meu nome é Khan”.
Neste, o personagem principal, um muçulmano portador da síndrome de Asperger (variação do autismo), por ver seu povo chamado de terrorista após os eventos de 11 de setembro de 2011, decide-se por falar ao presidente norte-americano que nem ele nem os demais muçulmanos são, por definição, terroristas – as pessoas são boas ou más, ele aprende com a mãe, independente de crença, raça e etc.
Mas o que isso tem a ver com o ‘existencialismo’ entre aspas? E porque digo que não sou um?
Recentemente, numa aula sobre o filósofo J. P. Sartre, fomos apresentados ao modo como o pensamento existencialista chegou nas terras tupiniquins em meados da década 1940; seria cômico se tal não persistisse até os dias atuais.
Tendo suas obras chegado ao Brasil com atraso – dentre outros motivos, pelo alarde da renúncia de Vargas (lembremos que notícias de Franças eram quase imediatamente reportadas aqui) –, estas foram logo postas no rol das ameaças à sociedade e aos bons-costumes, sendo incluídas no Index Prohibitorume constando ainda nos jormais ameaças de excumunhão a quem quer citasse ideias ou demonstrasse comportamentos ‘existencialistas’ em público.
Pense em algo ruim e inaceitável; jogue no Brasil num Estado ditatorial e religioso; agora piore um pouco com pseudo ou semi-conhecimentos sobre nada: eis o entendido como ideias e comportamentos ruins, portanto, ‘existencialistas’.
Para os políticos, era a escória esquerdista-comunista; para os religiosos, os ateus/homossexuais/destruidores da família (indiferenciados como uma única coisa); para a sociedade, os ladrões, degenerados, imorais (dá pra colar a foto de negros aqui); para os intelectuais, eram os ignorantes, os relativistas e os boêmios (vulgo, filósofos de boteco).
[e houve até um caso de assassinato (não recordo se 69 ou 79), em que o acusado não questiona sua prisão pelo crime, porém faz questão de enfatizar não ser ‘existencialista’]
Quando estava prestes a respirar aliviado pensando que tal balbúrdia era fruto de um passado já acabado, que hoje as pessoas haviam lido obras existencialistas antes de dizer o que estas eram (e daí falarem o que quiserem), a grande revelação: ainda é o que se pensa sobre o Existencialismo.
Veja nesta matéria de janeiro de 2014 no JB, falando sobre o “relativismo, o mal do século”, como ‘existencialista’ ainda funciona como pecha depreciativa para tudo genericamente.
Assim, tendo adotado o ateísmo-ceticismo como postura política diante do mundo, sendo um questionador das ditas verdades absolutas – sejam elas religiosas, socio-políticas ou de vídeogamísticas –, sendo um cidadão “moreninho” de baixa-renda e ex-morador de comunidade, acabo sendo incluído entre os ditadores pervertidos antinaturais ‘existencialistas’ que se fazem de vítima e merecem morrer.
Por isso que hoje, diante desse ultraje que é ser caluniado de bandido, imoral e lesador da sociedade, venho em nome de muitos outros fazer esse breve manifesto para que não me confundam: “Senhora presidente, meu nome é Willian, e eu não sou ‘existencialista’”.
# ele queria era falar pro presidente / pra ajudar toda essa gente / que só faz… / sofrer. – Faroeste Caboclo, Legião Urbana.

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