Reencontro dos que nunca se viram

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Por Erickson Oliveira

Reencontro dos que nunca se viram

A solidão, megera do ópio do conformismo,
Sempre me disse: meu manto lhe cai bem, garoto!
E eu nunca discordei
Meu coração, tragado por tantos eufemismos
E sonhos infantis – cansado de tantos cobertores,
Também nunca discordou

Quem sabe – algum dia! – fosse o acaso ao caos entregue e perdido
No tempo que outrora se fizera caprichosa
A esquentar novamente minhas entranhas
E fazer crescer aquele aperto no peito
Porém, mitigado pela fome de suplício, apenas me entreguei
A concubina do destino no vale das pernas que andam tortas

E caminhando embriagado por entre as valas dos esgotos que descem das casas
Das famílias que sorriem em fados e lágrimas opacas
Fui resgatado pela lâmina afiada – dilacerando meu ser
Cortou-me primeiro a carne, cada fibra de músculo;
Chegando aos meus órgãos, fez uma levecurva
E arrancou-me as estranhas da barriga e o coração

Desde então, tenho sentido uma fome
Não de comida, mas de minhas próprias tripas
E meu sangue tem corrido meus vasos com a força do meu andar
Corro, corro, corro sem parar atrás da lâmina que me cortou
Empunhada pela moça do sorriso algoz, atroz…
Mas não era ela, a solidão… Não, era outra voz!

Uma voz que cantava que me amava!
Cujo versar entre rodopios e vários passos eu não acreditava
Que pudesse naquele pântano se sustentar
A dor me era tanta da ferida que me fora deixada
Que voz nenhuma ecoava de minha boca ensanguentada
Mas de alguma forma eu sentia que ela podia me escutar

Contudo, ainda sorria, e corria – corria – corria…
Foda-se, pensei, não mais valia. Iria morrer ali, com fome de algo
Alguma coisa – que eu ainda não compreendia
Foi quando a vi, estática e ao meu lado, banhada em meu sangue
Estupefato, quase caricato, dependente da força que o ódio me trazia
Entortei-me em sua direção e entreguei-lhe a maior violência que eu tinha:

Eu a beijei.

Acadêmica em História pela Universidade Estadual de Alagoas, membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB-UNEAL) e Grupo de Estudos Feministas Dandara-UNEAL, amo gatos e café com canela, feminista interseccional, filha de Obaluayê e Yansã, e nordestina.

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