Precisamos falar sobre Setembro Amarelo

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Segundo o Centro de Valorização da Vida (CVV), 25 pessoas se autoexterminam por dia no país. Pelo menos outras 50 tentam tirar a própria vida. A cada 40 segundos, uma pessoa se mata em algum local do mundo. Os números são alarmantes. É por isso que a ONG, fundada em São Paulo em 1962, conta com a ajuda de 2.200 voluntários em 18 estados mais o Distrito Federal.

Com o slogan: “falar é a melhor solução”, a ONG organizou diversos eventos para este mês, no intuito de divulgar a importância de prevenir o suicídio. Pintar edifícios e usar amarelo foram apenas alguns exemplos. Também organizou desfiles, palestras, caminhadas em prol da valorização da vida e ações comunitárias.

A Ou Seja apoia esta causa e vai publicar algumas matérias a respeito. Para introduzirmos este assunto com maior profundidade, conversamos o psicólogo Willian Lucas. Confira a entrevista na íntegra: 

Ou Seja: Você acha que o assunto suicídio é um tabu na sociedade ocidental?

Willian Lucas: Melhor que lhe dizer o que acho, vamos passar alguns dados históricos e observar como as possíveis respostas levantam outras indagações.

O que torna complexo lidar socialmente com o tema é a sua interpretação e os valores que lhe estão atrelados, e estes dependerão da época, cultura e contexto em que se pensa o assunto.

Sendo sucinto, suicídio vem do latim “sui” = si, e “caedare” = matar, sendo caracterizada como patologia pelo século XVII, e anteriormente, o termo utilizado era “morte voluntária”, o que o punha enquanto crime.

Só isso já é abre um leque imenso de possibilidades sobre o modo como o tema deve ser observado, analisado e dissecado também de diversos pontos: patologia? Crime? Livre escolha?

Contextualizando em nossa atual sociedade ocidental embasada em valores judáico-cristãos, o suicídio é encarado como um crime contra a dádiva da vida – que foi dada por Deus; e isso faz parte dos valores da sociedade, quer o indivíduo creia ou não em Deus, concorde ou não com tais valores. Isso o influencia e impacta em sua relação consigo e o mundo.

De modo diferente, em alguns contextos de algumas culturas orientais, o suicídio pode ser uma honra e até um dever, passando do samurai e kamikase aos homens-bomba.

Em suma, adentramos o campo da biopolítica, como diria Foucault, e assim, se há algo que põe o suicídio como tabu, é a concepção que se tem de vida e quem tem direito de decidir sobre o uso que se fará dela: um rei, um imperador, um Estado, um grupo/corporação, um indivíduo…

Ou Seja: Como identificar uma pessoa suicida?

Willian Lucas: Há que se perceber que o suicídio é um fenômeno que não é exclusivamente do indivíduo – não é “culpa” dele ou de ninguém em específico; há um emaranhado de relações de forças que influenciam na chegada à possibilidade de suicídio, diversos processos de determinação que poderão conduzir um estado de fragilidade que levará a esta decisão. Questões familiares, de renda, afetivas, biológicas, sociais… diversos fatores têm de ser averiguados para se ter uma percepção do que leva alguém ao suicídio.

Mas existem pistas, indícios. E também precisam de contextualização, dessa vez na história inidividual. A pessoa mudará seus hábitos, ficará introspectiva ou impulsiva, perderá o cuidado ou aparentará cuidado excessivo. E invariavelmente, haverá ameaças tanto verbais quanto comportamentais. O que quer que seja, ficará notório por uma destrutividade da pessoa para consigo própria e de suas relações: daí os comportamentos e verbalizações agressivos.

Contudo, o que tem de ficar claro é que esse é justamente o modo dela pedir ajuda: ouça, acolha e incentive a procura de um psicólogo para que passe a ter acompanhamento multiprofissional.

Ou Seja: Como agir para ajudar?

Willian Lucas: Empatia. Evitar ir moralmente contra, dizendo que a pessoa deve viver e coisas do tipo. Ela quer viver; mas já não sabe como e não suporta. E tentar “enfiar” isso em sua cabeça será pior. Procure se aproximar de seu sentimento, demonstre compreender seus motivos e que consegue pôr-se em seu lugar. Apenas isso, muitas vezes já faz a pessoa se abrir e repensar “nossa, alguém entende e não julga meus atos?”. Mas veja, isso é radicalmente diferente de incentivar ou a falada “psicologia reversa”; o que a pessoa deseja é estabelecer vínculos e viver bem.

Dado este passo, ganhar autenticamente a confiança da pessoa – e preferencialmente, antes de chegar a um ponto crítico –, aconselhe a pessoa a procurar ajuda profissional, pois provavelmente ela estará com diversas questões que a levaram a se sentir assim, com a auto-estima baixa: uma doença ou a perda de um ente/emprego, drogas, depressão, estresse, bulliying, viver em área de intensa violência…

O apoio de entes queridos junto à equipe multidisciplinar será essencial.

Ou Seja: O que fazer se uma pessoa realmente estiver a ponto de tirar a vida (com a arma apontada para a cabeça etc)?

Willian Lucas: Ainda vale o que foi dito acima, porem deves pôr-se também em segurança. Se chegou a este ponto, a negociação terá de ser conduzida por alguém habilitado tecnicamente e/ou alguém que tenha grande influência afetiva sobre a pessoa. Evite gestos bruscos que instabilizem e ponham medo à pessoa, fale suave, e outra vez, empatia – mas já tendo chamado os profissionais competentes para intervenção.

Ou Seja: E como a psicologia evoluiu para ajudar tais pessoas?

Willian Lucas: Não posso lhe dar um por quê definitivo nem falar em nome da Psicologia, pois existem Psicologias, no plural. E dependendo da vertente, a abordagem e evolução do processo se dará de modo diferente.

Neste instante, para esta pergunta, destaco como ponto de evolução da Psicologia o fato de ela não se enrijecer e manter a fluidez histórica e técnico-científica, se reinventando para fornecer este (auto)cuidado com o ser humano

Devido a pluralidade de formas da encarar e lidar com o suicídio, nenhuma mais ou menos certa, cada qual responderá sob medida à um caso – e isso é bom, pois se houvesse uma só maneira para lidar com a diversidade de modos de se expressar das pessoas, possivelmente a Psicologia seria uma ciência obsoleta e inútil há tempos.

Ela evolui na medida em que acompanha os novos tempos e, ao mesmo passo que perscruta o passado, projeta para o futuro, atendo-se ao acontecimento presente, estando técnica e teoricamente preparada para o que é mais importante: a expressão ética de ser do ser humano.

Willian S. J. Lucas atua como psicólogo clínico, hipnólogo e neurolinguista no Rio de Janeiro, além de promover palestras informativas sobre TDAH e outros temas com o intuito de difundir o conhecimento acadêmico/clínico para a população corporativa, leiga e demais.

 

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

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