Comunicar pra revolucionar

Pós-modernidade em Bauman e Jameson

em Comunicação/Direitos Humanos/Feminismo/Filosofia/Jornalismo por

“Ser um pós-modernista significa ter uma ideologia, uma percepção do mundo, uma determinada hierarquia de valores que, entre outras coisas, descarta a idéia de um tipo de regulamentação normativa da comunidade humana, assume que todos os tipos de vida humana se equivalem, que todas as sociedades são igualmente boas ou más; enfim, uma ideologia que se recusa a fazer qualquer julgamento e a debater seriamente questões relativas a modos de vida viciosos e virtuosos, pois, no limite, acredita que não há nada a ser debatido. Isso é pós-modernismo. “

Zigmunt Bauman

O debate que podemos trazer do contexto atual, sobre os termos pós-modernidade e pós-modernismo, se refere muito à aplicação destas palavras. Enquanto existe uma espécie de senso comum acerca do que significam os conceitos, apenas a definição não basta, é preciso compreender ao quê esta definição se aplica. Para Fredric Jameson, a definição de pós-modernidade se relaciona diretamente com a globalização. Como podemos retirar também do trecho da entrevista de Bauman, estamos falando de um sistema que não distingue ideologias, ideais, virtudes, mas sim almeja a oportunidade de lucro, que existe em qualquer sociedade que o capitalismo busca anexar.

Torna-se medíocre, meramente casual e nada rígido, o uso dessas palavras para insultar alguém, normalmente membros dos movimentos sociais. Essa questão de aplicar o conceito sociológico à mera argumentação de uma pessoa que valoriza sua vivência pessoal simplesmente se trata de um forte reducionismo e equívoco. Ou seja, uma pessoa que não valoriza um argumento alheio por seus motivos não é “pós-moderna”, é somente uma pessoa com seus ideais pessoais e suas emoções pessoais perante debates que quer ou não quer participar. Trata-se, aqui, no caso dos homens no feminismo, por exemplo, de uma forma de argumentar contra o feminismo quando feministas rejeitam debater com homens. Ao invés de expor a emocionalidade que eles sentem ao terem seus argumentos rejeitados por pura preguiça, buscam, no conceito de pós-modernismo, uma forma de fingir se pautar em uma teoria sociológica para criticar o movimento. Veja, não é relativismo dizer “é minha vivência, você não tem o que falar dela”, nem irracionalismo, nem subjetivismo, adjetivos simples e batidos. Na verdade é pura preguiça mesmo, por bons motivos: Ninguém é obrigado a debater e responder as mesmas perguntas milhares de vezes para milhares de homens que sentem-se no direito de exigir respostas às suas geniais colocações sobre como o feminismo deve se portar enquanto movimento.

Quando se trata do conceito de pós-modernidade, não estamos falando de pessoas ou dos debates virtuais entre movimentos sociais e seus haters. Estamos falando de um sistema, de uma estrutura social muito maior, uma estrutura econômica que visa invalidar automaticamente toda a individualidade, transformando as pessoas em números, em lucro potencial. De que importa se uma sociedade é boa ou má, se a relação econômica com ela será próspera? É essa a questão. Para isso é preciso demarcar o que difere este momento histórico, para ele ser considerado pós-moderno, dos momentos que vieram antes e também continham pensamentos redutores da humanidade. A diferença deste momento histórico para o resto da história da humanidade, neste sentido, é o marco do iluminismo, a passagem pela modernidade que, teoricamente, nos teria incentivado a racionalizar e, ao mesmo tempo, humanizar as relações, promover igualdade social entre humanos, promover a busca pelo conhecimento, por meio da razão. Bauman nos leva a refletir até onde o projeto da modernidade foi executado com sucesso, e o que faltou, o que falhou, o que o impediu de triunfar sobre a irracionalidade, ou melhor, sobre uma racionalidade máquina, que rejeita a racionalidade humana, esta que valoriza as relações sociais, a igualdade social, e não apenas age em prol da produtividade, do capital financeiro.

“Imagino que a crença de que a sociologia poderia melhorar a vida humana ao reformar o meio social no qual esta se conduzia era parte integral do “projeto de modernidade”. Até mesmo diria que o projeto consistia exatamente nisso. Assim, as pessoas que estavam seriamente empenhadas em levar a sociedade a desenvolver condições mais desejáveis — a fim de ser “moderna”, ou seja, mais humana e melhor estruturada para promover a felicidade e a dignidade humanas”

O pós-modernismo é apontado em estruturas que, após o surgimento da modernidade, buscavam ignorar os valores desse projeto. Em meio a falhas e sucessos da modernidade, uma parte do sistema, parte bem grande, muito relacionada à centralização ao redor do núcleo do capital financeiro, se destaca ao ignorar completamente essas buscas de humanização e igualdade, e promover, por outro lado, os meios de maximizar a influência desse núcleo de capital por sobre toda a sociedade.  Ser um humano deixa de ter importância, ser milionário, bilionário, se torna tudo o que importa.

Assim, um conceito como esse não pode ficar nas mãos dos especialistas em deturpar alguns parágrafos de definições, que são depois resumidos em adjetivos simples para o uso de todos que lerem seus textos superficiais.

“(…) essa “ciência da sociedade” nasceu junto com o projeto de modernidade, que era um projeto muito simples. Partindo da idéia de que o mundo que herdamos dos tempos pré-modernos, tradicionais, ignorantes, preconceituosos e supersticiosos era um mundo desordenado e caótico, a tarefa que se impunha era torná-lo melhor. Ora, quem assumiria esse papel? Evidentemente os legisladores, os reis, os príncipes, os presidentes, os parlamentos, enfim, quem quer que estivesse no poder e que se impusesse a tarefa de reorganizar o mundo de tal modo que as pessoas viessem a se comportar racionalmente, a buscar a felicidade sem correr o risco de fazer escolhas erradas. Nesse quadro, cabia à sociologia fornecer informações sobre como obter um comportamento desejável das pessoas, sobre as razões pelas quais elas se desviam do caminho certo, como mantê-las nesse caminho e evitar desvios etc. Enfim, o conhecimento sociológico era, portanto, dirigido àqueles que estavam no papel de legislar, de criar as condições para uma boa sociedade. Esse era, enfim, o projeto da modernidade, que hoje está em grande parte abandonado.”

Ouvir os sociólogos não é de interesse das grandes empresas. O poder perdeu interesse no caráter sociológico dos conflitos da humanidade, atendo-se somente ao que lhe interessa, a economia. As formas de lucrar mesmo em meio a crises, as formas de não perder dinheiro com guerras, pelo contrário, lucrar muito com elas. E o pós-modernismo surge enquanto um método irracional de defesa de uma estrutura cuja razão não é ética, mas mecânica, fria. Como convencer o povo a permanecer conformado com crises, guerras, opressões? Os métodos de fazê-lo estão dissipados por toda a mídia tradicional, com bastidores conectados ao poder.

“Vivemos em tempos de desregulamentação, de descentralização, de individualização, em que se assiste ao fim da Política com P maiúsculo e ao surgimento da “política da vida”, ou seja, que assume que eu, você e todo o mundo deve encontrar soluções biográficas para problemas históricos, respostas individuais para problemas sociais. Nós, indivíduos, homens e mulheres na sociedade, fomos portanto, de modo geral, abandonados aos nossos próprios recursos.”

Coube levar, então, a sociedade à profunda confusão acerca do que fazer perante o avanço agressivo da globalização, da ideologia neo-liberal. Parte dos ideais que defendem esse fenômeno se focam em atestar que este regime capitalista é o mais natural, devemos brigar sobre outros assuntos e deixá-lo ocorrer como deveria. Muitos vão concordar com essa ideologia pós-modernista, vão concordar que o que der mais lucro é o melhor. Outros não precisarão nem concordar, pois automaticamente acatarão ao que lhes é sutilmente pregado, e irão se voltar uns aos outros no povo, culpando os indivíduos pelos problemas sociais, culpando, por exemplo, as feministas radicais pelo fracasso do feminismo, um fracasso que ironicamente não ocorre. O único fracasso é o dessas pessoas perceberem que se querem lutar com o feminismo, não é criticando-o, não é identificando o que eles consideram errado no feminismo, mas sim lutando por mudanças sociais, pois tanto o que há de bom quanto de ruim nos movimentos sociais é o que há de bom e de ruim na humanidade em geral. O importante é fortificar uma estrutura justa no sistema, impedir o avanço de uma ideologia que nos torna menos importantes do que os números dos bancos, pois a concentração de renda se tornou o novo sangue nobre da humanidade.

“Sendo assim, a única entidade a quem a sociologia se dirige hoje é aquela que realmente está assumindo a responsabilidade — o indivíduo. Ora, a experiência individual é normalmente muito estreita para que o indivíduo seja capaz de ver os mecanismos internos da vida. Não saberíamos o que está acontecendo nesse mundo da modernidade líquida se não fôssemos alertados para as possíveis conseqüências do processo em andamento. Explicar como as coisas funcionam, ampliar a visão necessariamente limitada dos indivíduos, alargar seus horizontes cognitivos, enfim, dar a eles condições de enxergar além de seu próprio nariz é o que cabe à sociologia agora.”

É preciso abrir os olhos, de fato, para a pequenez que os debates virtuais representam em relação à aplicação sistêmica da ideologia pós-modernista. Ela não está na fala de uma ou outra, ou até um grupo inteiro de pessoas. Ela está nas mãos do poder, dos detentores do maior capital financeiro. E para eles é muito útil que, nesses debates, todos fiquem apontando dedos para os outros ao invés de pregar união e organização, que uns culpem os problemas, os obstáculos do avanço da sociedade, da ciência, da mentalidade dos estudantes, da sabedoria democrática, em certos indivíduos ou movimentos sociais.

“Quando a complexidade da situação é descartada, fica fácil apontar para aquilo que está mais à mão como causa das incertezas e das ansiedades modernas. Veja, por exemplo, o caso das manifestações contra imigrantes que ocorrem na Europa. Vistos como “o inimigo” próximo, eles são apontados como os culpados pelas frustrações da sociedade, como aqueles que põem obstáculos aos projetos de vida dos demais cidadãos.”

 

Para ler o artigo anterior sobre este tema “Sobre Pós-Modernismo e Movimentos Sociais”: http://ouseja.jor.br/?p=4929

Para ler a entrevista com Bauman na íntegra: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-20702004000100015&script=sci_arttext

Jornalista com interesse nas áreas de filosofia, política, economia e ativismo social. Bastante convicto que não existe imparcialidade em nenhum meio de comunicação, declara sua posição em prol da ética e dos direitos humanos. Defende que o modelo econômico cartalista explica o real funcionamento da economia mundial, mesmo quando ortodoxos visam impor uma visão ilusória para defender, por trás dos panos, que a renda se dirija aos detentores das dívidas nacionais e do grande capital. Defende uma política socialmente liberal, que proteja os indivíduos das forças de mercado, totalmente oposto ao conservadorismo moral, político e econômico. A existência do comércio livre é desejável para os consumos variáveis do dia a dia, porém os bens de subsistência devem ser regulados firme e dignamente pela democracia, como bens da República. Saúde pública e Educação gratuita universal de qualidade, mídia livre e distribuição de renda até um nível de vida agradável a todos, isso deveria ser o básico do básico para guiar qualquer visão econômica. Infelizmente não é.

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