Por trás da neblina, há esperança?

em Prefácio Cultural por

Filme: Paisagem na neblina (Topio stin omichli)

Diretor: Theodoros Angelopoulos

País: Itália, França, Grécia

Ano: 1988

Trilha sonora: Eleni Karaindrou

Trailler:

http://www.youtube.com/watch?v=FN6jCZXp1Ok

Eu tinha uns dezoito anos e nenhum conhecimento formal a respeito de cinema quando deparei com esse monumento da imagem e do som.

Foi numa dessas vazias sessões de retrospectiva (no caso, do cinema europeu dos anos 80), no Cine Lumière (hoje Cine UOL Lumière).  O título, o cartaz, a nacionalidade, tudo – e de uma vez por todas – me chamou a atenção. Entrei naquela sala e mergulhei no filme para dele nunca mais sair.

Paisagem na neblina é um desses longas que eu refiro com todas as letras como um dos que mais gosto, um dos mais decisivos em toda a minha vida.

É um filme cinza, lento e silencioso, com planos que são verdadeiras pinturas (alguns deles figurarão com certeza entre os mais belos da história do cinema); cenas longuíssimas sem cortes, de grande densidade. O enredo é envolvente, trágico, sensível. O tipo de filme que prova que o que  importa de verdade numa obra de arte não melhora com o tempo. É um road movie triste in memoriam ao projeto humanista europeu. Uma epopeia melancólica criada no berço da cultura ocidental: a Grécia.

É a história de dois irmãos: Voula (uma pré-adolescente) e Alexander (um gurizinho). Em busca do pai, que supostamente vivia na Alemanha, eles partem em viagem. Uma viagem numa Europa fria, escura e enevoada. Uma viagem que muda definitivamente suas vidas, obrigando-os a amadurecer, de modo trágico, prematuramente. Uma viagem que metaforiza a decadência do “mundo ocidental”: a impossibilidade da vivência artística, da contemplação, da solidariedade e, no fim das contas, da própria vida.

Mas há uma paisagem por detrás disso tudo. Há esperança (há? O filme é também essa pergunta) por trás da neblina?

Do interior do silêncio dessa narrativa delicada, brota, de tempos em tempos, como uma moldura tênue, a melodia suave e profundíssima de Eleni Karaindrou. Inesquecível. Veja neste link a cena emblemática do pequeno Alexander trabalhando para conseguir comida, na qual fica explícito o papel decisivo da música de Karaindrou na narrativa: http://www.youtube.com/watch?v=_-N-OYPb_2w&feature=related.

Bem, saí do Cine Lumière, assim como entrei: sozinho. E queria dividir desesperadamente aquela experiência com alguém. Telefonei para amigos – estamos em 1993: telefonar, da rua, significava utilizar um orelhão-, mas nenhum deles tinha sequer ouvido falar do filme. Nada. Nos livros sobre cinema que eu procurava nas bibliotecas, não encontrava uma nota sequer a respeito. As locadoras do meu bairro periférico, na Zona Sul de São Paulo, tinham uns dez filmes europeus no catálogo. Ah, também é bom que fique claro: por locadora entenda-se estabelecimento comercial para aluguel de fitas VHS. A locadora 2001 possivelmente já tivesse uma cópia do filme, mas àquele tempo eu não a conhecia. A Internet e a TV a cabo eu nem sabia que existiam. E escrevia a máquina.

Hoje, lendo a respeito na Internet (por exemplo em http://chiphazard.zip.net/arch2009-03-01_2009-03-31.html),  sei que Angelopoulos não só era conhecido como cultuado nos meios cinéfilos em  São Paulo já nos anos 90 e que o filme Paisagem na neblina ficou em cartaz durante uns bons meses no Cinesesc. Mas isso pra mim não significava nada: eu sequer conhecia tinha ouvido falar no Cinesesc. Minha chegada ao Lumière foi totalmente acidental. E quanto ao meios cinéfilos, definitivamente eu não participava deles. Meu ambiente cultural era restrito: meia dúzia de moleques da periferia de São Paulo. Gostávamos de ler e até conhecíamos boa música, mas do cinema europeu não sabíamos nada. Cinema europeu era, pra nós, arte de gente rica.

Foi com grande alívio que revi, uns cinco anos após a memorável sessão do Première – minha première pessoal! – , Paisagem na neblina na TV Cultura. Meu entusiasmo foi tal que liguei para o maior número de pessoas possível, anunciando o MEU FILME!, o filme que eu tinha descoberto e ao qual agora outras pessoas poderiam, com a minha indicação, assistir. Era como se eu guiasse aquela audiência, como se eu a promovesse.

Com a exibição da Cultura, pude relembrar o nome do filme e procurá-lo nas locadoras mais equipadas. Encontrei-o;  não lembro em qual delas, provavelmente na 2001. Assisti ao filme, gravei-o, e emprestei minha cópia para um número grande de amigos, ainda com a sensação pueril de que divulgava um segredo íntimo.

E é, amiga/o leitor/a, ainda com esse espírito que escrevo este post.

Com iminente fim das locadoras, meu filme favorito pode retornar às trevas do esquecimento. A insistente hegemonia do cinema estadunidense – confirmada no Netflix e nos canais pagos – tornou novamente difícil o acesso ao filme. Mas quem sabe, para os internautas bambas, tudo se resolva com um download.

Seja como for, e definitivamente explicitando que isso é mais um relato pessoal do que uma resenha, confesso que pra mim o filme de Theo Angelopoulos continuará a ser aquela película exibida na sala deserta do Première, numa tarde de inverno, quando eu tinha, como único critério pra julgar um filme, a própria sensibilidade e o filme foi, no turbilhão ensurdecedor da cidade, uma paisagem na neblina.

É sério: assistam.

 

Autor do livro "Entulhos" (Editora Patuá) e do blog "não basta". Nasceu em São Paulo e é principalmente sobre essa cidade que gosta de escrever. Professor e pesquisador na área de Literatura, trabalhou também como autor e colaborador para as editoras Ática, SM e FTD. Atualmente, estuda Graciliano e João Antônio em seu doutorado, atua como editor da Revista Crioula da USP e escreve seu segundo livro de contos, cujo título provisório é A menina sem imaginação & outras histórias.

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