Pedacinho de Deus

em Arte/Crônicas/Literatura por

Feliz dia do “Vem limpar a mesa! Tá pensando que sou tua empregada, é?”

Feliz dia do “Acaba com essas bebedeiras e arruma uma namorada” aí o cara arruma e fala que vai casar e escuta “Essa menina não presta, meu filho. Vi nos olhos dela. Arrume uma moça da igreja. Tem tanta moça boa por aí. Essa não é pra você”.

Feliz dia do “Vai ficar até quando nesse negócio de escrever poesia, meu filho? Poesia não enche barriga. Sabe o Fabinho, filho da Vera? É advogado, tem carrão, mora em condomínio na estrada da ponta negra.” Dá vontade de falar “O Fabinho é o maior cuzão que conheço, mamãe. Babacão que pensa que o Clítoris é um país da Europa”, mas melhor ficar quieto.

Sei o quanto é foda passar o dedo na ferida. Mexer no vespeiro. Nunca tive uma boa relação com a minha mãe. Muito menos com meu pai. Muitas mágoas. Com a família inteira. Sou um péssimo parente. Não me identifico com eles. Desliguei-me desse negócio de família muito cedo. Minha mãe foi um dos motivos que me fez largar tudo e tentar a vida fritando batatas na Europa. Estava cansado de desapartar briga com padastro. Minha vida tava uma merda morando com eles. Sentia que estava vegetando.Tava existindo em função das ofensas e brigas deles. E todo dia eu falava “Deixa esse cara, Mãe. A senhora quer eu me torne um assassino?” então arrumei uma namorada que tem dupla nacionalidade e ela topou de ir para Espanha comigo. Casaríamos em São Paulo e nos mandaríamos pra Madri. Só que esqueci a certidão de nascimento em casa e caímos no crack. História que todo mundo conhece. E todo dia eu dormia na Praça da Sé e esperava os mendigos dormirem pra eu chorar em paz. Um choro dolorido. Não queria voltar pra merda de vida em Manaus. Sobretudo pra casa da minha mãe. Ter que conviver com um cara escroto e tal. Não queria voltar pra cidade que nunca me deu nada. A cidade que prefere reconhecer e respeitar cantor que faz cover de Chico Buarque que reconhecer minha literatura, mas fui emagrecendo. Adoecendo. Chegando aos 60 quilos e resolvi ligar pra ela depois de meses na rua. Lembro-me como se fosse hoje. Liguei de um telefone público no bairro Liberdade: “Mãe, não aguento mais. Manda uma passagem pra mim” e uma semana depois eu estava de volta. Abraçamos-nos no aeroporto e choramos pra caralho. As lágrimas dela escorriam pelos meus ombros e eu disse “Eu te amo”. Sabe, às vezes fico puto com ela, mas daí lembro que nos momentos mais fodidos ela me deu a mão. Então a raiva passa e sinto que ela é um pedacinho de Deus.

Texto por Diego Moraes, autor convidado. Diego é poeta, contista e romancista. Autor de 6 livros. Publicado no Brasil e Portugal.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*