Os limites do sadismo na máquina de propaganda do Estado Islâmico

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Desde a invasão norte-americana do Iraque, grupos islâmicos passaram a recorrer a vídeos de intimidação (envolvendo torturas e execuções) como estratégia de guerra. 

Após a divulgação de fotos mostrando abusos cometidos por carcereiros contra prisioneiros iraquianos em Abu Ghraib (incluindo a prática de tortura), militantes islâmicos sequestraram o civil norte-americano Nicholas Evan "Nick" Berg e o executaram em represália.

O mundo viu, pela primeira vez naquele momento, ao registro de uma execução não como algo previsto na lei de um Estado ou praticado por um grupo em conflito contra inimigos por motivos pragmáticos (eliminar prisioneiros), mas algo organizado e planejado para se extrair o máximo de realismo e detalhamento de um ato extremo de violência por meio de um registro audiovisual, tendo como fim último a intimidação, a vingança e a exaltação do assassinato como motivo de orgulho para os seus autores (com parte desse sentimento sendo extraído da interpretação do Alcorão de que a morte dos "infiéis" é justificável).

 

Desde então, outros grupos recorreram à tatica, mas o Estado Islâmico levou-a a outro nível, usando-a como um dos seus principais métodos de propaganda e ao mesmo tempo de intimidação dos inimigos.

Além de usar a estratégia da decapitação e potencializá-la (fazendo vídeos com decapitações em massa, com a execução de mais de 15 pessoas ao mesmo tempo), o grupo extremista tem recorrido às mais bizarras formas de execução com o intuito de, além de infligir medo, chamar a atenção de uma audiência predominantemente jovem que já está acostumada a ver todo o tipo de coisa na terrra de ninguém que é a internet. Por meio do choque causado pelos métodos incomuns e bizarros das execuções, o grupo também acaba conseguindo projeção nos principais portais noticiosos.

O que começamos a ver, nesse contexto, é que a busca por métodos que provoquem choque e chamem a atenção das pessoas por meio do sadismo está levando o grupo extremista (assim como o seu braço midiático, a produtora Al-Hayat) a cruzar tantas vezes o limite da razoabilidade e da humanidade que parece que se está chegando a um ponto de exaustão.

Dentre os métodos de execução já utilizados pelo Estado Islâmico estão os seguintes: 

  • Queimar pessoas vivas;
  • Jogar pessoas de cima de prédios;
  • Usar crianças para executar prisioneiros com tiros na cabeça ou decapitando-os; 
  • Decapitação em massa; 
  • Descer jaulas com prisioneiros em uma piscina para que morram afogados; 
  • Uso dos mais divertos tipos de armas, de metralhadoras de alto calibre a RPGs, para executar prisioneiros (muitas vezes obrigando os executados a cavar sua própria cova); 
  • Colocar explosivos atados entre si no pescoço de diversos prisioneiros e explodí-los ao mesmo tempo (provocando decapitações ou a morte apenas pelo impacto da explosão);
  • Permitir que a população de um local mate prisioneiros através do linchamento (com agressões ou pedradas) 

 


Mesmo com um esforço enorme por parte das potências ocidentais (e dos grandes sites de conteúdo, como Youtube e Facebook) no sentido de bloquear a publicação desse tipo de vídeo, eles ainda têm uma grande audiência no Oriente Médio sobretudo pela difusão "peer to peer", ou seja, compartilhado de forma descentralizada por pessoas que apóiam o grupo extremista, o estabelecimento de um estado muçulmano ou que se opõem àqueles que governavam o Iraque e a Síria. Além disso, esses vídeos são exibidos repetidamente nas regiões sob domínio do Estado Islâmico, exercendo mesmo um pouco a função de entretenimento para a população, além de propagandear o braço duro do regime contra os inimigos (muitas vezes é feita uma montagem com pessoas feridas após ataques aéreos seguida da execução daqueles que estariam causando aquele mal à população, de forma a suscitar no observador a noção de que o que estaria ocorrendo, na verdade, é apenas justiça).

Após chocar tanto os telespectadores, no entanto, surge a dúvida do que poderia continuar a chamar a atenção das pessoas para este tipo de vídeo. Seria o sadismo algo constante, passível de ser suprido com a simples divulgação de vídeo semelhantes, mas diferentes (por causa da novidade envolvida), mantendo constante também o apelo deste tipo de vídeo extremo a certa parcela da população? Ou estaria chegando o Estado Islâmico a um ponto de exaustão, onde tudo já foi tentado, todo tipo de atrocidade perpetrada, e a sua máquina de propaganda estaria perdendo grande parte do seu apelo pelo simples fato de cair na banalidade?

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