O Universo Racionalista não é um espaço seguro para mulheres

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Como o Universo Racionalista deixou de ser um espaço inclusivo de reflexão e passou a abraçar celebridades da ciência que destilam misoginia e ódio aos movimentos sociais 

Calmaria, racionalidade, nada de “sentimentalismo barato”. É isto que você possivelmente observa ao visitar o site Universo Racionalista que, segundo a própria descrição da página oficial do Facebook, prega a publicação de artigos não provocativos:

universo

 

Entende-se por sujeito racionalista aquele pratica o racionalismo. Mas o que é, afinal, racionalismo?

racionalismo
ra.ci.o.na.lis.mo
sm (racional+ismo) Filos 1 Sistema filosófico, no qual a razão é considerada fonte de conhecimento independente da experiência. 2 Doutrina que afirma a autoridade soberana da razão e rejeita a intervenção do sentimento ou da tradição na ordem teórica.

Fonte: Dicionário Michaelis 

Ou Seja, cada integrante desta página se identifica em maior ou menor grau com a filosofia citada, afinal, ela carrega seu nome. É contraditório pensar que o sujeito responsável pela página não tem sequer formação acadêmica. Ele não é cientista ou jornalista. Nem mesmo tem experiência em trabalhos presenciais do ramo. Já tentou fazer faculdades de física e matemática e não concluiu nenhuma. Isto não é um problema, apenas uma curiosidade, já que pessoas como ele louvam a academia acima de tudo. Por fracassar tantas vezes, seu passatempo é fazer cursos online na tentativa hercúlea de ter alguma certificação.

Autodidatas estão em peso no Universo Racionalista. São pessoas com alto grau de leitura, mas às vezes nem mesmo isso. Contentam-se com textos mastigados, resumos e palavras-chave. As publicações no Universo Racionalista muitas vezes não têm verificação. São traduções, achismos e partilhamentos de outras páginas:

rep

Também há as celebridades ateístas do YouTube que estão na equipe apenas pelo nome, pois nunca contribuíram com nada. E, evidentemente, há aqueles que acreditam realmente na causa. Profissionais renomados, cientistas, mestres e doutores. A equipe é muito diversificada, por isso eu vou me focar no problema maior: o responsável pelo site. Não vou sequer citar seu nome porque ele não é alguém conhecido na Internet. Ele não passa de um joguete nas mãos dos autodidatas mais ativos na página, aqueles que são notoriamente conservadores.

As belas imagens das maravilhas da natureza e do universo em geral escondem a baixaria. Nos bastidores, as discussões entre os participantes pegam fogo. Pessoas que não suportam divergência de opinião bloqueiam as que pensam diferente. Textos com “viés de esquerda” raramente são permitidos, mas os de “direita” sim. Eles pregam a imparcialidade, mas não é isto que demonstram na prática. Do seguinte nível:

AA

Eli Viera, um dos integrantes mais celebrados, é um sujeito conhecido por expor pessoas negras, transexuais e mulheres. Por que ele perde seu precioso tempo debatendo teorias do campo de humanas quando poderia estar se dedicando à ciência é que eu não entendo. Ele tentou, mas não explicou:

 

eli 1

Eli é tão “verdade e a vida” que tem a fórmula secreta para como os movimentos sociais devem se portar. Na verdade, perde muito tempo criticando os movimentos sociais.

lbgt

E muito mais tempo criticando o feminismo e expondo mulheres:

eli3

O Eli Viera não é apenas um dos autores problemáticos do site. No seguinte texto, um homem que se diz feminista (encontre o erro) critica pontos do feminismo. Para ele, pornografia não foi criada pelo sistema patriarcal.

homem feminista

Neste texto, o autor ainda “elege” seu tipo de feminista favorito:

hehehe

Noutro texto escrito por um estudante de biologia, ele explica de maneira reducionista e pelo viés de sua área como a mulher se tornou inferior ao homem:

biologia

Ele mesmo diz que recebeu várias críticas e que pretende fazer um outro texto se explicando melhor.

Por ser um site que aborda cientificismo, ele peca em ter muitos estudantes e autodidatas e poucos autores acadêmicos DE FATO. Peca mais ainda por deixar tais estudantes e autodidatas falarem de assuntos que deveriam ser próprios das ciências humanas. O termo pós-modernismo é totalmente deturpado e funciona como um “coringa” para falar mal de movimentos sociais. Disse um dos “pós-doc em autodidatismo”:

 

glauber

Octavio Milliet refuta isto no texto “sobre pós-modernismo e movimentos sociais“.

Jogos de poder, pessoas autocentradas e egocêntricas ao extremo: tem de tudo nos bastidores
A verdade é que o Universo Racionalista é um antro para conservadores e pessoas de direita que pregam a imparcialidade, mas que na prática destilam seu preconceito apoiado na “ciência”. Ciência feita por quem, aliás? Quando os mais conservadores do site sequer têm formação acadêmica, o meu temor é que se torne um site eugenista, enraizado no darwinismo social, que critica as ciências humanas por puro modismo e desejo por alcançar a “supremacia intelectual”.

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

11 Comments

  1. O que significa “expor as mulheres” pra você? Perguntando na boa, mesmo. No seu exemplo, Eli vieira apenas compartilhou um texto de um site bem conhecido e teceu algumas críticas, isso é “expor as mulheres”? discordar?

    (Não dá pra postar em caixa baixa nos comentários, fica tudo em caps)

  2. Ótimo texto, Lia! A mais purapura verdade, depois de assim como o Octavio, ajudar o projeto a crescer fui sumariamente expulsa por questionar e discordar do dono. Sem qualquer direito de defesa ou diálogo. Há tempos se fazia necessário que alguém tivesse a coragem que você teve para falar sobre o que realmente está acontecendo no UR…,

    • Não apagamos seu comentário cara (ou caro) Adriana. Nós simplesmente estávamos em um evento e não havíamos lido. =)

      Abraços e obrigado por ler o texto e comentar.

  3. “O termo pós-modernismo é totalmente deturpado e funciona como um “coringa” para falar mal de movimentos sociais.”. Sim, e deve com toda a razão. O pós-modernismo se tornará em pouco tempo, mesclado com os ativismos sociais a nova Idade das Trevas que o mundo Ocidental já presenciou, mesclada com o radicalismo islâmico no Oriente e do evangélico no Brasil e nos EUA. As pautas originais de diversos ativismos mesclados com a doutrina pós-moderna os tornam extremamente contraditórios e fomentadoras de inúmeras falácias difíceis de refutar (justamente pela quantidade que são lançadas). Um belo exemplo da contradição (uma das milhares), é o modo que tratam de mulheres e a religião islâmica. Desde sempre o feminismo criticou a opressão contra as mulheres dentro da cultura islâmica, mas com o advento do pós-modernismo, que dita o Relativismo Cultural voltando à premissa clássica grega de que nada pode ser provado com certeza, isso torna todas as interpretações culturais de mundo como verdades. Uma paquistanesa que aborda sobre sua relações sexuais é criticada por um pós moderno, que vê isso como uma negação da sua cultura ( http://www.bbc.com/portuguese/internacional/2016/05/160506_paquistao_sexo_tg?ocid=socialflow_facebook ). Ao mesmo que defendem o sufrágio feminino, defendem a vinda de islâmicos para a Europa e qualquer contestação a isso como islamofobia, ou em outro exemplo, tentar impedir movimentos LGBT passarem por bairros islâmicos, pois isso é um choque com a verdade deles. É triste que dentro do quadro de leis dentre as várias páginas feministas, a reflexão e a lógica sejam facilmente destruídas por “argumentos” como: “não é seu espaço de fala” ou “ninguém quer opinião de macho aqui não” ou “você não têm uma vagina”. Não é raro ver ativistas negros condenando casamentos interraciais, ou pessoas que se utilizam da vivência pessoal para criar Verdades que nada são concretas, exemplos básicos como a falácia do Todo Homem é um Potencial Estuprador: é o mesmo que dizer que toda mulher é uma potencial vadia, já que toda mulher possui vagina e toda vadia possui vagina, logo, toda mulher é uma potencial depravada. Uma coisa é um ativismo sério, que realmente vá ajudar alguém, outra bem diferente é mandar uma petição pra polícia federal para retirar o nome Acarajé de uma de suas operações, pois isso é apropriação cultural da cultura negra. Uma coisa é você lutar contra o sexismo em sua pauta e em um primeiro momento ser sexista contra homens e justificar isso como Reação do Oprimido, pelo simples gosto de querer xingar. De acusar celebridades de Apropriação Cultural por usarem gostos que bem desejam. Agora eu lhe pergunto: você acha que está ajudando alguma minoria realmente necessitada com isso? Pense nisso.

    • Relativismo é relativismo, cultural, social, filosófico.

      O conceito de pós-modernismo, quando foi aplicado por Jameson, era voltado ao poder, não às minorias. Relacionado ao poder econômico principalmente, como um conjunto de diversos protocolos presentes em diversos sistemas de governo e mercados diferentes para infiltrar os interesses neo-liberais, isso é, em outras palavras, a mão da globalização.

      Pelo menos assim foi primeiramente utilizado.

      Mais tarde temos o uso do termo referindo-se não à ultra-modernidade (pós-modernismo original), mas aos “negadores” do “valor” da idade moderna. Uma visão um tanto idealista que vê a “Modernidade” como o auge da cultura e da civilização humana, e considera os críticos da modernidade como negadores da Razão, da “luz” do iluminismo, ou, de tudo o que é “verdade”. Uma visão apolínea e bastante autoritária sobre o que é certo e o que é errado.

      Agora, você terá pessoas que simplesmente não são tão positivistas, e buscam um critério de realidade mais abrangente do que o cientificista, inclusive no que se refere à compreensão de outras culturas, levando em conta a realidade material dos indivíduos vivendo em outros locais, de forma pragmática. E terá, como sempre, pessoas que vão além de qualquer racionalidade. O que eu não pretendo fazer é julgar as atitudes dessas pessoas sem ter qualquer conhecimento dos motivos que levaram a estas atitudes. Imagino que se o acarajé fosse algo de minha cultura, um alimento, uma mercadoria com vários signos agregados culturais, e houvesse uma operação militar que, dentre milhões de possibilidades, escolhesse minha profissão pacífica, essa mesma polícia que vive metendo porrada no povo dessa cultura? Prendendo o povo pela cor de pele? Acho que eu ficaria meio p* da vida sim. Então processar os caras pelo acarajé no nome da operação está ajudando uma minoria? Não sei, pergunte para ela. Mas aí eu lhe pergunto: Está atrapalhando a sua vida?

      E sobre “não queremos opinião de macho aqui não”, pesquise o conceito de habitus social que ele poderá lhe servir bem se você tem problemas com situações assim.

      Abraços.

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