O (su)jeito do amor: uma cena do Fausto de Goethe

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Resumo:
Neste breve ensaio, pretendo lançar olhos sobre o jeito e o sujeito do amor – que lampeja – num breve diálogo entre Fausto e Margarida, na célebre obra de Goethe.
Introdução:
Fausto trata da história de um homem que pactua com o diabo, pois, apesar de todo (re)conhecimento e poder que possui, sente imenso vazio em sua vida. O trato é simples: ao obter  satisfação e deleite, cederá sua alma de bom grado.
Produzida ao longo da vida do poeta J. W. von Goethe, esta obra foi apresentada por diversos prismas: a aposta entre Deus e o Mefistófeles, o pacto entre Fausto e Mefistófeles, a morte, a metafísica, a ganância, a angústia… Tudo isto, e muito mais, aparece nos versos que parecem abarcar todo o conhecimento acerca do existir humano.
Assim, compondo junto à análise do discurso e à psicanálise, ouso, pois, congraçar com o amor – aqui representado no XVI quadro, cena I, na Primeira Parte da peça – e conceber meu discurso a partir deste recorte.
Por que o amor?
Foi um ponto que muito me chamou atenção ao reler a obra, tantos anos após a primeira vez. Numa curta digressão, convergem o amor-acontecimento, o amor divino e o amor à pessoa amada. E precisamente isto faz emergir a satisfação e deleite em Fausto.
Já sabemos que Deus – em sua aposta que Fausto era um seu servo –, permite que este seja provado por todos os modos, contanto que viva. Como – dentre todos os conhecimentos mais – Fausto é um praticante de magia – que invoca um demônio –, um “insensato (…) quase cônscio de sua loucura” (v. 324-6), nas palavras de Mefistófeles, não é pois um servo comum, o típico cristão do imaginário.
Contudo, Deus o clama por servo, e acrescenta: “Se no erro envolvido inda me serve, / Hei de prestes guiá-lo a claridade.” (v. 331-2). O amor de Deus para com o Homem é o primeiro a despontar na obra. Nada inesperado; contudo, é o outro o foco de minha análise – explico-me adiante. No referido diálogo, destacam-se três discursos sobre o amor: o amor na relação metafísica; o amor como acontecimento; e o amor (romântico) objetal.
O primeiro, surge da própria pergunta da enamorada do protagonista: “Acreditas em Deus?” (v.3406). Retruca este:
“Quem é que ousa
a dar-lhe um nome e a afirmar se atreve:
eu creio nele? E quem, sentindo,
a dizer se abalança: ‘Não, não creio’?”
(v.3412-14).
Não se atreve a nomear o inominável, significar esse não-ser. Todavia, a fala estabelece a produção de sentidos, mediando a relação do homem com a realidade (ORLANDI, 2005). Deste modo, para investir mais na conquista visando obter o gozo, torna o significante – Deus –  algo outro: o amor.
Freud dizia que “o amor expressa a aspiração sexual como um todo” (apud JORGE, 2010, p.159). E que mais tem em vista, Fausto, que não a consumação de seu amor para com Margarida?
Mas antes, é preciso amar, ou melhor, definir o que é amor. E visto o amor e o gozo sexual serem antitéticos – pela aproximação do gozo com a morte –, num sutil gracejo com as palavras, ele os torna “indiferenciados”, como que o mesmo, dizendo:
“Com esse sentimento o peito inunda;
e quando nele imersa te sentires,
o nome então lhe dá que mais quiseres:
delícia, coração ou Divindade!
Nome não acho, o sentimento é tudo”
(v.3425-29).
Trecho que poderia lido como “Deus é amor; esse amor que tenho por você”. Com isso, não somente produz um novo dizer – tem aí aceito o seu discurso por Margarida –, como ainda faz o amor deslocar-se da fantasia – da  suplência à relação sexual –, e aproximar-se do sexo – via pela qual o homem chega ao amor (JORGE, 2010, p.160).
Ao respondê-la de maneira tal, Fausto – diria Foucault –, parece simultaneamente restituir o caráter de acontecimento do discurso sobre Deus, suspendendo a soberania do significante ao não nomear um autor-identidade-origem para o mesmo, mostrando-o – em sua segunda forma discursiva – como amor e exterioridade (1996).
[Justifica-se, aqui a subversão na relação do amor de Deus para o Homem: sendo Ele próprio, o amor, é ato e expressão, não podendo possuir desejo ou intenção (de amar); Deus/o amor somente acontece e ganha existência por intermédio do Homem]
Tal discurso reverberar a expressão “toda pulsão é, no fundo, pulsão de morte” (JORGE, 2010, p.160). No jogo dessa antinomia cria-se uma descontinuidade, tornando o não-dito dizível, compondo assim uma nova significação: “Deus é amor; amor é morte/gozo”. Rompe-se a imposição do discurso previamente estabelecido (FOUCAULT, 1996).
Esse passo leva a terceira forma, a do amor objetal, o amor por Margarida. Esse é um ponto de ruptura, de transformação no personagem. O amor como cura e salvação de seu vazio existencial, suplência de sua inexistência; seu pacto poderia findar-se ali.
Ainda de acordo com Jorge, “de modo paradoxal, é da pulsão de morte que, por ação do amor e do desejo do Outro, nasce a pulsão de vida” (2010, p.161). Sob esse prisma, diria que o amor preencheu espaço da falta e deu sentido, a sensação de completude. Tanto o é que Fausto diz:
“Bem sabes como te amo;
por meu amor o sangue e a vida dera”
(v.3397-8)
Com estas palavras afirma a materialidade de seu amor; “a linguagem só faz sentido porque se inscreve na história” (ORLANDI, 2005, p.25). O sentimento de Fausto, baila entre o campo do desejo sexual – masculino – e o do amor – campo feminino. Quando é mulher, ele ama; quando é homem, deseja – parafraseio Lacan (JORGE, 2010).
Quem é o sujeito?
O amor, a fantasia do sujeito em relação ao objeto causa do desejo, estabiliza, protege-o da tendência auto-destrutiva originária. De tal maneira que, ao ter o Outro por objeto, reconhece-se também objeto do Outro, e assim, passa ao lugar de sujeito com o objeto de desejo (JORGE, 2010).
Coaduna pois com os apontamentos de Foucault que, ao buscar as condições de surgimento e modificação das relações entre sujeito e objeto, demonstra que a subjetividade na realidade constitui “modos de subjetivação” (CASTRO, 2004)
Esse sujeito, presente na resposta à primeira fala da cena, onde Margarida pergunta “Henrique, tu me prometes?”(v.3393), mais adiante desaparece “Nome não acho, o sentimento é tudo” (v.3430). Não há falta, pois há sensação de completude na relação; os dois são um só (JORGE, 2010).
O lugar ocupado enquanto isto diz, ao mesmo tempo que constitui e assujeita, dissolve o sujeito-estrutura, pois o sentido se desloca, permanecendo a expressão de um modo de subjetivação que se dá empiricamente no espaço-tempo, através do devir-sentimento (ORLANDI, 2005). O Deus eterno e inominável, entra no plano finito, nominável e experiencial como o amor, como discurso – “e o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo, 1:14).
Desce o pano
Desse modo, o discurso-metáfora se torna: amor=Deus=acontecimento; ao invés de ser pensado metafisicamente como constante em nosso interior ou num empíreo no Além, apresenta-se externamente na relação, num jogo-acontecimento, tendo por complemento – como produto, efeito e invenção –, essa expressão de subjetividade representada por Fausto – figurando o Homem enquanto espécie.
Por certo que há ainda muitas outras vozes e discursos além deste realçado: a morte/ódio/satisfação do gozo, esse avesso e complemento atravessando e puxando incessantemente pelo outro lado. Mas isso fica numa outra cena…
Referências:
CASTRO, E., El vocabulario de Michel Foucault – um recorrido alfabético por sus temas, conceptos y autores, Bernal, UNQUI, 2004; p.262-268.
FOUCAULT, M. A ordem do discurso: aula inaugural no collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 5 ed. São Paulo: Loyola , 1996.
GOETHE, Fausto, Editora Martin Claret Ltda, Trad.: Agostinho D’Ornellas, 2002; p.149-150.
JORGE, M. A. C., Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan, vol.2: a clínica da fantasia, RJ: Rio de Janeiro, Zahar, 2010; p.159-179
ORLANDI, E. P., Análise Discurso: princípios e procedimentos, SP: Campinas, Editora Pontes, 6a edição, 2005; p.13-55.
Referências e contra-referências fantasmas:
Zigmunt Bauman (livro): Amor Líquido
Legião Urbana (música): Monte Castelo
Martin Bubber (livro): Eu e Tu
Osho (livro): Deixe o amor se tornar sua qualidade
Richard Linklater (filme): Before Sunrise/Sunset/Midnight
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FAUSTO, PARTE I, QUADRO XVI, ATO I – JARDIM DE MARTA
(GOETHE, J. – FAUSTO; Ed: Martin Claret, 2002, p.149-150)

MARGARIDA E FAUSTO

MARGARIDA Henrique, tu prometes?
FAUSTO Quanto eu possa!
MARGARIDA Se tens religião saber quisera;
És bom deveras, sei, mas imagino
Que não guardas a fé.
FAUSTO Não fales nisso,
Vida minha! Bem sabes como te amo;
Por meu amor o sangue e a vida dera;
A ninguém roubar quero o sentimento,
A fé na sua Igreja.
MARGARIDA Isso não basta,
Deve-se crer também!
FAUSTO Devido o julgas?
MARGARIDA Se contigo pudesse alguma coisa!
Não respeitas os santos sacramentos.
FAUSTO Respeito, sim.
MARGARIDA Mas sem amor! Há muito
Que à missa não vais, nem te confessas.
Acreditas em Deus?
FAUSTO Quem pode, filha.
Dizer: – Eu acredito em Deus? Pergunta
Aos padres e aos sábios, a resposta
Parece escarnecer de quem pergunta.
MARGARIDA Então não crês?
FAUSTO Entendendo o que digo
Anjo, anjo do céu! Quem é que ousa
A dar-lhe um nome e a afirmar se atreve:
Eu creio nele? E quem, sentindo,
A dizer se abalança: “Não, não creio”?
O que tudo contém que tudo anima,
A mim, a ti e a si contém e anima.
Dos céus não vês além curvar-se a abóbada?
E firme a nossos pés não jaz a terra?
Com amoroso olhar astros eternos
Não se elevam? Não cravo nos teus olhos
Os meus, e penetrar em ti não sentes
Na mente e coração todo o Universo,
Que, arcano insondável, se desdobra
Visível e invisível de ti junto?
Com este sentimento o peito inunda;
E quando nele imersa te sentires,
O nome então lhe dá que mais quiseres:
Delícia, coração, ou Divindade!
Nome não acho, o sentimento é tudo;
O nome é rumor vão, o nome é fumo
Que o brilho dos céus cobre e ofusca!

Texto escrito por Willian Lucas

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