O que eu aprendi com os lobos

em Comportamento por
(Imagem: reprodução StockPholio / Author: Denali National Park and Preserve)
Os lobos do Pai de Todosi
Tudo começou quando, conversando com um amigo, me vi inserindo Odin no conto indígena “os dois lobos” – aquele sobre um bom e um mau, onde vence o que você alimentar mais. Odin apareceu quando eu disse: “mas há um ponto nublado nesse conto: nós não somos os lobos como muitos entendem… somos quem os alimenta (o que aliás é dito na maioria das versões, como entendem tão errado?)… tal qual Odin com Geri e Freki”.
Admito ter sido temerário, pois falava com grande conhecedor dos mitos nórdicos. E me vi bem-sucedido, pois que ele anuiu à aproximação e o entendimento que tal argumento deu à ideia que tínhamos em debate.
Lugar comum nas diversas mitologias, Odin também adorava experienciar ser humano, e pensava que seria mais proveitoso se realmente “fosse um mortal”. Vestia manto, cajado, face idosa e punha à voar por todo o mundo, Munnin– sua memória, que o manteria atado, revivendo ao que já conhece – e Hugin – seu pensamento, que o projetaria para longe na criação de ideias possíveis e vindouras.
Essa é a parte mais conhecida; fica ignorado seu caminhar com os lobos Geri e Freki (“os vorazes”). Odin pretende, enquanto mortal, se permitir o que a vida lhe apresentar. E como um Homem que domina os próprios instintos – entendido por nosso estado de ser quando imersos numa tarefa ou emoção no presente –, ele e somente ele os alimenta, quando, quanto e com o que quer.
Tornando somente à noite, as aves lhe fariam rever o (dia) passado e planejar o (dia) futuro – tarefa que lhe cabe somente enquanto ser divino, e assim, qualquer julgamento quanto a “bom ou mau” acontece neste momento em consonância entre a razão e as emoções: com comedimento.
O lobo solitárioiie O lobo das estepesiii
Sucintamente, elegerei duas formas de expressão para o “Homem que comanda o lobo” cotidiano – além da já mencionada. Dependendo de como os alimentamos, eles se apresentam como um ou outro; muito provavelmente oscilando na vida de algumas pessoas; mais certamente, enrigecido na de outras.
Mas sempre, sempre estão se alimentando e uivando.
O Lobo Solitário: Itto Ogami, grande espadachim, estrategista militar, poeta, filósofo e tudo mais que um samurai completo podia e fazia por onde ser. Sua vida, como espadachim de aluguel, era cheia de imprevistos; seu passado, tormentoso; seu futuro, incerto.
Com a única coisa que lhe importava literalmente atada às costas – seu filho –, e sua espada presto a combate, ele segue: o caminho do guerreiro é o caminho do agora.
O Lobo das Estepes: Harry Haller, inseguro, titubeante, negador da vida, burguês enojado de si mesmo… tudo muda, quando, após descobrir-se um dos raros, compreende que não é apenas dois – o homem e o lobo –, mas vários!
Libertador? Enlouquecedor? É preciso decidir?
O homem dos lobosiv
O que se pode, objetivamente, aprender daí?
Primeiro, à alimentar sempre os animais:
Odin dava a própria comida aos lobos.
Qual é a coisa que melhor você sabe, conhece, faz?
Dê algo de si à si mesmo diariamente. Sacrifícios não são válidos e nobres só quando pelos outros.
Depois, à alimentar com coisas boas seus animais:
Não é pra ouvir Bach porque “faz bem pra inteligência” se odeia clássicos. Isso é má-alimentação.
Também não é pra detonar no Heavy Metal, e esquecer de ouvir algo novo vez ou outra.
Aprenda. Algo. Novo. Sempre.
Terceiro, mas não menos importante:
Corvos, somente à noite! (seja flexível, encontre seu momento equivalente à “noite”)
Rememore e planeje com antecedência para, o que quer que ocorra, poder estar íntegro no momento. Sem apego, sem ansiedade.
Feito isto, evoluirás, e quem sabe um dia poderás dormir como um deus que comanda os lobos.
Dança com Lobosv
Pra não dizer que não falei de Nietzsche: “eu só poderia crer num deus que soubesse dançar”vi.
– notas de rodapé:
i maior divindade do panteão nórdico, deus da guerra, sabedoria, morte etc.; dentre as muitas alcunhas, uma das mais conhecidas é esta.
ii personagem da obra de Kazuo Koike e Goseki Kojima, era o maior espadachim de aluguel do Japão.
iii personagem da obra de Herman Hesse, supunha sua personalidade metaforicamente parte humana e parte “lupina”, digladiando entre si.
iv famoso paciente de S. Freud, que sonhou estar deitado e ter uma matilha de lobos ao pé de uma árvore, frente a sua janela.
v filme de e com Kevin Costner, que narra a história de um norte-americano conhecendo o interior da cultura Sioux, antes que esta desapareça.
vi os discursos de Zaratustra – ler e escrever em e assim falou Zaratustra”, de F. Nietzsche; refere-se a vida enquanto processo dinâmico, devir.

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