O que eu aprendi com o VI Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental

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Mundo em transição, este foi o slogan do VI Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental que aconteceu em São Paulo, no SESC Vila Mariana. Pouco tempo se passou desde a última palestra, mas com questões ambientais tão urgentes, fica cada vez mais evidente a importância do evento para profissionais de comunicação social. 
Diversos jornalistas e profissionais de outras áreas debateram questões fundamentais, desde o que é sustentabilidade, como atrair leitores para o tema e até sobre como ter uma visão holística do mundo. A presença também de pessoas como Bruno Torturra, considerado o “ar novo” do jornalismo, já que é bem-sucedido pela Internet. Ele disse ser possível que o público pague pela informação que encontra na Internet. 
A fala que mais me marcou foi a do vereador Ricardo Young, que resumiu perfeitamente as questões mais urgentes: 
“A angústia que eu tenho é que só há uma saída civilizatória, que é a transição radical para o mundo sustentável. O mundo sustentável nós já discutimos várias vezes e em vários lugares o que a sustentabilidade vem a ser. Certamente ela não é aquilo que nós conhecemos. A construção deste conceito é um esforço cotidiano de todos nós. E outra premissa que nós podemos ter bastante clara é de que sustentabilidade não é apenas o fazer. Não é apenas o reciclar, não é apenas o consumo consciente, não é apenas a regeneração dos serviços ambientais, não é apenas a consciência de ecossistemas à beira do colapso de sua regeneração. Sustentabilidade é sobretudo uma forma de ser e agir no mundo.  É uma forma de integrar valores que o paradigma de que a vida é o milagre. Não somos nós humanos o milagre. O milagre é a vida. Nós temos essa visão antropocêntrica terrível, de achar que somos sujeitos e detentores de direitos acima de tudo. A declaração universal dos direitos humanos é o melhor exemplo, apesar da virtude, da dignidade que este documento teve na segunda metade do século XXI, mas exemplo típico do nosso antropocentrismo, da nossa visão limitada, ao entendermos que a sobrevivência humana é tudo. E exatamente no paradoxo de acharmos que a sobrevivência humana é tudo, nós nos matamos, eliminando e mitigando a vida no planeta. Então, o grande desafio do modelo civilizatório sustentável é passarmos a honrar a vida em primeiro lugar. ”

 Ricardo Young, vereador eleito pelo município de São Paulo
Além de Young, que não é da área mas demonstrou uma sensibilidade visível, várias jornalistas deram depoimentos sobre como mesclam o ativismo ambiental à profissão de comunicadoras: 
Mexer na terra, viver numa casa de madeira, entrar em contato direto com as dificuldades do jornalismo imersivo, aquele que vive na própria narrativa. A jornalista ambiental Sucena Shkrada Resk contou um pouco sobre a sua experiência no norte do Mato Grosso, em que trabalhou com agricultores familiares e entrou em contado com povos indígenas:
“Uma coisa é você ver o que está no discurso e na legislação. Outra coisa é você é ter o empoderamento das pessoas que… Difícil, viu. Não é isso tudo que se fala, não. O Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) não chega à mulher. Muitos indígenas ficam praticamente sós, quando têm um acesso para discussão de hidrelétricas que estão na bacia do tapajós. […] Tô começando a mexer na terra, coisa que eu também não fazia. Uma coisa é falar, outra é praticar.” 

Sucena Shkrada Resk, jornalista ambiental
Rachel Añón, jornalistas de A Ponte contou como deixou o jornalismo tradicional para seguir sua carreira com coerência:
“Tem um momento na vida da gente que exige coerência. Exige que nossos atos, o que a gente faz da vida seja muito coerente. Não tinha mais espaço na grande mídia pra fazer aquilo que eu acreditava. E tinha um grupo de amigos sentindo a mesma necessidade. A gente acabou encontrando o mundo de empreendedores socioambientais. Que eles ganharam esse nome devido às organizações sociais. Com o tempo foi descobrindo que poderiam estar em governos, estar em empresas, mas que o trabalho que eles estavam realizando estava impactando o mundo.” 

Rachel Añón, empreendedora socioambiental 
Paulina Chamorro, radialista ambiental, comentou sobre como está empolgada com a nova geração de jornalistas da área: 

“A molecada está vindo já com muitas certezas, com muitos caminhos estudados, e pelo menos vivenciados, que é na parte da Internet. Eu tô bem empolgada no que a gente pode compartilhar tanto de conhecimento de um lado quanto de novas frentes do outro. “

Paulina Chamorro, radialista ambiental

A jornalista Ana Carol Amaral explicou um pouco sobre o mestrado que fez em Schumacher College, no Reino Unido. Lá ela estudou sobre a teoria do Caos, a teoria de Gaia e sobre a importância de se estudar de forma holística e não fragmentada:
“A gente precisa de instrumentos de apuração que nos permitam apurar a realidade de uma forma conectada, de uma forma holística”
“A gente precisa de instrumentos de apuração que nos permitam apurar a realidade de uma forma conectada, de uma forma holística – ou complexa, se isto parecer menos místico. É uma palavra ainda difícil de aceitar na sociedade. […] O que eu encontrei foram 2 resultados básicos: estudando fenomenologia, que é um método de apuração científica em que o cientista depois de observar o fenômeno, ele fecha os olhos e tenta recompor o fenômeno imageticamente, usando a imaginação para recompor as imagens, eu percebi que a gente tem esse ponto cego no jornalismo. O jornalista pula da apuração, principalmente na reportagem diária. São poucos espaços privilegiados de colunistas que realmente analisam a informação antes de ir para a escrita. Então, a gente tem um ponto cego: a gente pula da apuração para a escrita. E reúne um monte de aspas soltas e crê que isso é objetividade. A objetividade é subjetiva porque é uma crença. A gente acredita que reunindo peças soltas, um monte de aspas desconectadas – a gente entrega as peças soltas para o público e acha que é o papel dele construir o quebra-cabeça a entender o que está acontecendo. ” 

Ana Carol Amaral, mestre em jornalismo ambiental 

Todos estes depoimentos me fizeram refletir. Sim, é possível ser empreendedora, como a Rachel Añón, é preciso trabalhar em jornalismo imersivo, do tipo que vive a própria narrativa, é possível ter uma visão completa do todo. Basta acreditar e encontrar seus pares, aquelas pessoas que também creem em atitudes que modificam o mundo. Pessoas que desejam mais informar, não manipular e [des]informar. Com tantos desastres ambientais à tona, com tanta urgência para caminhos mais sustentáveis, é um verdadeiro alívio poder conhecer pessoas assim. 
O VI Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental me trouxe esperança em relação ao meu trabalho como comunicadora. 

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

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