O que é a cultura do estupro?

em Direitos Humanos/Feminismo por
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A cultura do estupro é uma realidade mundial e se caracteriza por objetificar o feminino, amenizar casos de estupro, vitimizar os agressores e rotular as mulheres pela roupa que usam e por sua liberdade sexual. Assim a sociedade desumaniza a vítima ou simplesmente ignora os horrores do estupro. Esta tradição cultural revela os mecanismos duma triste realidade, de forma que a ignorância sobre o assunto ainda é chocante, mesmo que vivamos na chamada “era da informação”. Em 2012, o político republicano Richard Mourdock chegou a afirmar numa rede de televisão que uma gravidez resultada de um estupro é vontade de Deus. Outro congressista, o então deputado Todd Akin, assegurou que os corpos das mulheres têm maneiras de evitar gravidez em caso de “estupros legítimos”.[1] Ou seja, para ele as mulheres que engravidam de estupros na verdade não haviam sofrido violência alguma.

Este tipo de afirmação malacafenta e ignóbil veio de políticos americanos, pessoas que deveriam ter posicionamento crítico e o mínimo conhecimento a respeito do que dizem, afinal espalham informações para milhares de eleitores. Mas não, estes respeitáveis senhores falam como se nunca tivessem frequentado uma aula sequer de educação sexual ou aulinhas básicas a respeito do corpo humano no ensino fundamental. A má notícia é que eles não são os únicos e a cultura do estupro não se restringe à política.  Ela está presente em todos os níveis e graus da nossa sociedade.

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Imagem: Reprodução | Fonte: www.compromissoeatitude.org.br

Como exemplo, em muitos filmes e novelas vemos os protagonistas, em suma masculinos, agarrarem à força suas enamoradas como se isto fosse um ato excitante para as mulheres e viril para os homens. Beijos forçados são vistos como românticos pelos expectadores – ou pelo menos pelos roteiristas. Mas estas cenas escondem uma realidade sombria, pois o que é passado como natural e sexy não mostra o temor de quem sofre. A cultura do estupro se fortalece todas as vezes em que  justificam a violência ao afirmarem que a vítima o merecia porque vestia roupas curtas, ou porque pensam que ela estava gostando, ou deduzem que o sexo feminino só serve para ser objetificado. Parece que o fato de a mulher ser considerada vadia ou puta nos termos populares faz com que automaticamente mereça ser assediada ou agredida sexualmente. Até mesmo aquelas que perdem a virgindade brutalmente são desqualificadas, pois esta cultura não dá real importância à violência ou ao sofrimento.

Este quadro piora consideravelmente ao considerarmos que certa parcela da sociedade tende a culpar a vítima, não o agressor. Em muitos casos as denúncias sequer são apuradas e a mulher acaba sendo vista com nojo e preconceito. É assustador ler notícias de jornais do tipo: “Mãe bate na filha ao descobrir que ela era estuprada pelo pai”.[2] Por que ela seria culpada de um crime do qual ela não pôde se defender? E por que deveria ser punida depois de já ter sofrido violência sexual? O fato é que, graças a preceitos religiosos e sociais, desde cedo as meninas são doutrinadas a se comportar para não despertar desejos nos rapazes. As mulheres se tornam, assim que nascem, de certa forma as responsáveis pelo pecado dos homens, já que carregam consigo o erro original e representam em si mesmas a tentação encarnada.

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“Não vista roupas curtas”, “não faça contato visual com estranhos”, “não dê muita atenção aos garotos”, são algumas das recomendações mais comuns às mocinhas que acabam de entrar na puberdade. Enquanto isso, muitas vezes os pais ensinam a seus filhos a serem “machões” e a controlar a situação quando o assunto é meninas. Algumas anedotas sobre o comportamento feminino contam que quando uma mulher diz “não”, na verdade está dizendo “sim”. Ou então o “não” feminino é, na verdade, “talvez”, pois as mulheres supostamente gostam de se fazer de difíceis e por isso os homens devem coagi-las até que cedam. Este tipo de pensamento corrobora para que o rapaz interprete o “dicionário feminino” como queira, avance e faça sexo forçado. Desta forma, ensinam suas filhas a não serem estupradas – algo que não podem evitar –, mas não ensinam seus filhos a não estuprar, o que deveria ser primordial numa educação sadia.

Também ensinam as mulheres a serem meigas e delicadas, a não reagir, a não mostrar força. É justamente graças a esta “cultura do estupro” que dezenas de outras manchetes pipocam nos jornais e assombram seus leitores: “Casal mata filha de 16 anos com ácido para ‘defender a honra’ na Caxemira; pais disseram à polícia que ela havia conversado de forma imprópria com um menino”;[3] “Turista suíça é vítima de estupro coletivo na Índia”;[4] “Estupro de garota alcoolizada causa polêmica nos EUA”;[5] “SUS recebe duas mulheres por hora vítimas de abuso”,[6] entre outras. São manchetes alarmantes, ainda assim muitos leitores de jornais tendem a diminuir o sofrimento das vítimas.

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A Organização Mundial de Saúde revelou que pelo menos 140 milhões de mulheres já foram submetidas à mutilação genital feminina, ato no qual retiram o clitóris da mulher para que ela não sinta prazer sexual.[7] No Paquistão, em 2012, centenas de mulheres foram mortas por “crime de honra”, sendo que a maioria foi executada, mesmo sem provas, por supostamente fazerem sexo fora do casamento. Outras centenas foram mortas porque casaram sem o consentimento da família.[8] Mas estes problemas não estão tão distantes. Na Colômbia a moda agora é jogar ácido nas mulheres. Por dia dezenas destes casos são registrados em Bogotá.[9] No Brasil, os números relacionados a estupro e outros tipos de violência são assustadores. Por dia, 16 estupros ocorreram em média no estado do Rio de Janeiro em 2012.[10] Parece pouco, mas outro estudo mostra que 6 em cada 10 brasileiros conhecem pelo menos uma vítima de violência doméstica.[11] As causas principais apontadas neste estudo para a contribuição da violência contra mulher são machismo e alcoolismo. Outra pesquisa assinalou uma realidade ainda pior: uma em cada cinco mulheres já sofreram algum tipo de violência.[12]

“A mulher provoca”, dizem. Por isso pensam que ela é a única responsável por fazer com que os homens ajam de forma violenta. Vê-se que a demonização do sexo feminino não é nova, mas continua atual como nunca. Um exemplo disso é o “Culto Dos Príncipes”, no qual homens são instruídos a guardarem sua virgindade até o casamento. Qual é o maior impedimento para este intento? A natureza masculina? Não. As mulheres, claro. Nas palavras do Pastor Claudio Brinco, responsável pelo culto, “se uma mulher bonita vier na sua direção atravesse a rua”. Ele ainda confessou algo um tanto curioso numa entrevista para o portal IG: “Dia desses andava na calçada quando vi uma morena fenomenal vindo na minha direção. Eu sou homem, pô! Aqui tem testosterona (diz batendo no braço). Enquanto todos os caras viraram o pescoço para vê-la melhor, encostei na parede e comecei a orar ao Senhor. Uma irmã aqui da igreja passou na hora e perguntou se estava passando mal. Disse para ela que não, só estava afugentando o demônio”.[13]

Brinco poderia ter usado qualquer termo, mas ele foi bem categórico. Preferiu encarnar naquela mulher o demônio, pois ela despertava nele a cobiça sexual. Não é à toa que querem cobrir as mulheres, tampar seus decotes, colocar-lhes roupas cumpridas e, em alguns extremos, burcas. Tudo isto, contudo, funciona tanto quanto tampar o sol com a peneira. Os conservadores se esquecem de que as mulheres também sentem desejo sexual. Mas nunca pensaram em cobrir os homens. Eles sim podem andar seminus e ninguém imagina que estejam querendo seduzir alguém apenas porque estão sem camisa. Por outro lado, quando uma mulher amamenta seu filho em público, muitas vezes causa nojo ou espanto. De qualquer forma, não é a roupa que faz com que uma mulher seja ou não mais vulnerável ao estupro, mas sim a forma com que essas ações são vistas em sociedade. Todas as vezes nas quais a culpabilizada é a vítima e este tipo de violência fica impune, a impressão que fica é de que os verdadeiros culpados nunca sofrerão a punição que merecem, o que pode incentivar que outros crimes do tipo ocorram.

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Fontes:

[1]     A notícia é do jornal O Globo, de 24 de outubro de 2012.

http://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2012/noticia/2012/10/politico-americano-diz-que-gravidez-apos-estupro-e-vontade-de-deus.html

Acessado pela última vez em 8 de junho de 2013.

[2]     http://noticias.r7.com/cidades/mae-bate-na-filha-ao-descobrir-que-elanbspera-estuprada-pelo-pai-03042013

Acessado pela última vez em 8 de junho de 2013.

[3]     http://odia.ig.com.br/portal/mundo/casal-mata-filha-de-16-anos-com-%C3%A1cido-para-39-defender-a-honra-39-na-caxemira-1.510393

Acessado pela última vez em 8 de junho de 2013.

[4]     http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,turista-suica-e-vitima-de-estupro-coletivo-na-india,1009542,0.htm

Acessado pela última vez em 8 de junho de 2013.

[5]     http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/03/130313_estupro_ohio_midias_sociais_rw.shtml

Acessado pela última vez em 8 de junho de 2013.

[6]     http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/03/sus-recebe-duas-mulheres-por-hora-vitimas-de-abuso.html

Acessado pela última vez em 8 de junho de 2013.

[7]     http://globotv.globo.com/globo-news/jornal-globo-news/v/pesquisa-da-oms-indica-que-140-milhoes-de-mulheres-foram-submetidas-a-mutilacao-genital/2390642/

Acessado pela última vez em 8 de junho de 2013.

[8]     http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/04/quase-mil-mulheres-morreram-no-paquistao-em-2012-por-crimes-de-honra.html

Acessado pela última vez em 8 de junho de 2013.

[9]     http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/19946/onda+crescente+de+ataques+com+ acido+contra+mulheres+assusta+colombia.shtml

Acessado pela última vez em 8 de junho de 2013.

[10]    http://oglobo.globo.com/pais/em-quatro-anos-registros-de-estupro-cresceram-157-7345872#ixzz2QHtr2BbP

Acessado pela última vez em 8 de junho de 2013.

[11]    http://www.institutoavon.org.br/wp-content/themes/institutoavon/pdf/iavon_0109_pesq_portuga_vd2010_03_vl_bx.pdf

Acessado pela última vez em 8 de junho de 2013.

[12]    http://www.fpa.org.br/sites/default/files/cap5.pdf

Acessado pela última vez em 8 de junho de 2013.

[13]    http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/rj/2012-08-02/culto-dos-virgens-se-uma-mulher-bonita-vier-na-sua-direcao-atravesse-a-rua.html

Acessado pela última vez em 8 de junho de 2013.

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

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