O Indie é Independente?

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Indie, do inglês ‘independent’, se trata do título dado a qualquer meio artístico que não está ligado a nenhuma produtora, esta por meio de algum contrato de publicação e distribuição, assim os realizadores teriam que divulgar seus projetos independentemente. O crescimento de forma considerável da palavra e do gênero deu-se em meados dos anos 80, principalmente influenciado pelas bandas de rock dos Estados Unidos e Reino Unido. Uma das maiores características da arte independente tanto na música quanto em qualquer outra área é manter-se a certa distância da influência do mercado atual, assim dando maior autonomia na criação e distribuição do trabalho de um artista, muitas vezes vistos como ‘arte alternativa’.

Com o passar do tempo, assim como qualquer outro gênero o ‘indie’ sofreu transformações, muitos artistas por soarem diferentes do que a grande massa estava ouvindo levavam o titulo de ‘indie’, mesmo com grandes contratos e formas de divulgação, isso pelo fato de parecerem ‘alternativos’, desta forma, nem sempre que se escutar o termo ‘independent’, pode-se dizer que um grupo ou artista propriamente seja independente, mesmo que ele não faça um som popular.

Aproveitando-se desse tema que divide muitas opiniões, tanto pelo seu significado quanto aos artistas que recebem esse título, a ‘Vero’ teve um agradável bate papo com um artista independente brasileiro, este do verdadeiro significado da palavra, Cesar Augusto produz e distribui seu próprio som na internet e assim divulga o seu trabalho e cria sua fan-base.

“VERO” – ENTREVISTA – BASED YEEZUS

1- Primeiramente, muito agradecida pela sua disponibilidade em ceder essa entrevista para o ‘Vero’. Para começarmos o nosso bate papo, o que te inspirou ou impulsionou a fazer música?

Resposta: Bem, foi algo totalmente sem controle. O que começou com uma gigantesca admiração quando criança virou praticamente meu modo de viver hoje. Em 2003, quando eu tinha 9 anos, já começava a experimentar com pianos e tecladinhos bem lo-fis e alguns loops de fitas cassetes. Eu chamava aquilo de “música”, mas, no fundo, era só eu arrastando o dedo indicador nas teclas do piano e repetindo aquilo em 30 loops pequenos de fitas. Com a aquisição do meu primeiro computador, comecei a fazer música mais séria, mas ainda não era algo que eu queria da vida. Isso só começou a virar algo sério quando eu pus a minha mão num Nintendo DS e vinha um cartucho de um sintetizador analógico da KORG, MS-20, emulador nele (KORG DS-10). Por mais que ainda eram canções de chipmusic (gênero que consiste de música feita com videogames) bem mal feitas, já eram coisas que eu estava aprendendo pra, quando eu colocasse minha cabeça num computador, sintetizador “físico” e coisas assim, já era caminho andado. Essa fase com videogames durou apenas 2 anos, entre 2009 e 2010 e, desde então, vendo compondo numa mistura de computadores e sintetizadores físicos. Ao mesmo tempo, eu me via amando o gênero drum and bass de DJ Marky, o breakcore de Venetian Snares e The Flashbulb e a música ambiente de Erik Satie, Akira Yamaoka e, a partir desses artistas, eu pensei “é isso. É isso que eu quero da vida.” Desde então, não tenho parado de compôr um dia e virou, literalmente, um vício que não consigo parar.

2- Quais são as pessoas, artistas ou figuras públicas que te inspiram pessoalmente e artisticamente? Quais artistas você costuma se inspirar na hora de criar a sua música?

Resposta: Da parte pessoal é estranho, pois, boa parte das figuras públicas que me inspiram, são mulheres (principalmente atrizes como Mônica Belluci e Kristen Stewart) e, quando não são, são homens que eu tenho inveja da criatividade inacabável deles. Eu ainda vou ver na mente do David Lynch um dia, porque é impossível o cara ter ideias tão geniais dia após dia assim! hahaha Musicalmente, não tenho coisa certa. Pessoas como The Flashbulb, Venetian Snares, Squarepusher, Akira Yamaoka, Burial, Phil Elverum e John Frusciante me inspiraram e muito para eu poder pisar firmemente em escolhas musicais. Mas, quando eu me inspiro mesmo pra compôr algo novo, isso varia muito pois, ultimamente, não têm sido músicas que me inspiram, e sim filmes, séries de TV e games que amo. Filmes do David Lynch (principalmente INLAND EMPIRE e a série Twin Peaks), Lars Von Trier, Ingmar Bergman e Bela Tárr são meus preferidos quando eu preciso de “inspirações mútuas”. Games como “Shadow of the Colossus”, “Forbidden Siren” e a série “Silent Hill” também têm seus respectivos papéis fundamentais em questões de inspirações musicais.

3- Em sua opinião, quais são as vantagens e as desvantagens de ser um artista independente no Brasil?

Resposta: Essa pergunta é muito complexa e mal respondida algumas vezes, pois tem gente que não analisa cenas underground por estados. No fim, acabam jogando tudo no mesmo saco e generaliza como algo difícil e que todo mundo vai ficar pobre, o que é um erro. A vantagem de você ser independente no Brasil, é o fato de você poder fazer música sem se importar com nada. Você não precisa fazer música que uma gravadora maior lhe manda fazer, não precisa fazer coisas que tem que agradar o ouvido de todos… você faz o que lhe dá na telha, posta em sites como Soundcloud, Bandcamp, Last.fm, ReverbNation e outros mais. Como consequência, você vai criando e moldando sua própria base de fãs que, mesmo pequena, ela será bastante fiel e importante para o seu trabalho e, quem sabe, você também ganhe uma grana com isso como consequência. Já as desvantagens são sérias. Infelizmente, a cena underground está muito amena atualmente e sem forças e fé pra meter o pé na cara das empresas maiores. Isso deve a vários fatores, mas o principal é a falta de suporte que artistas locais têm. Muita gente fica ansiosíssima pra comprar um álbum de alguém conhecidíssimo que tem apenas 10 músicas por 60 reais mas, quando alguém da zona underground precisa de míseros 10 reais para um festival de música local, fingem que nem é com eles. Essa falta de suporte é muito ruim, ainda mais para uma cena que, mesmo dependente de si mesmo, necessita de suportes exteriores porque se não, no final, ele estará fazendo música pra si mesmo! E, infelizmente, pessoas reclamam tanto da falta de “musicalidade boa” no Brasil mas sequer põe seus olhos na cena local, onde poderiam ter artistas que atrairiam fácil seus ouvidos. Com isso, a cena fica fraca e sem força pra seguir em frente, o que é uma pena. Se tivéssemos muito mais suporte das pessoas que, realmente, se importam com música boa, a cena underground brasileira seria um belíssimo motivo para mudar a música brasileira literalmente e, como consequência, influenciar mais e mais pessoas à fazerem o mesmo.

4- Estamos em novembro, falta menos de sessenta dias para terminarmos 2013, quais são os seus planos para esse final de ano e quais são os seus planos para o ano que vem em questão de criação e divulgação do seu trabalho?

Resposta: Final de ano será resumido em uma coisa: descanso. Em 2013, lancei 19 releases (incluindo full-lengths e EPs) na internet e foi um ano muito corrido em cima de datas, computador parando de funcionar, problemas financeiros e que, no fim, consegui passar tudo e lançar meu trabalho do jeito que eu queria. Como consequência, vou descansar e ouvir música despretensiosamente, sem querer compor nada, voltar ao meu vício de League of Legends e rever alguns dos meus filmes favoritos, além de dar chances à mais alguns. Para o ano que vem, já anunciei a continuação do meu debut album, “Inconsequential Hallucinations II”, lançado sob o nome de The Industrialism, sendo esse meu principal projeto. O álbum acaba caindo como o principal favorito da minha fanbase, então decidi revivê-lo com uma continuação espiritual. Está sem data de lançamento e eu só irei começar a trabalhá-lo só depois das festas mesmo. Meu último trabalho esse ano foi o “Alexia’s Delusions EP”, que foi a volta à esse mesmo projeto, após um ano me dedicando a produzir artistas de hip-hop, pop e compor sob outros nomes, mais precisamente Lindsheaven Virtual Plaza. Também para o ano que vem, vou me focar no meu sonho, que é fazer trilhas para filmes e games. Para isso, eu tenho o plano de fazer “sampler albums” (álbuns demonstrativos) da minha capacidade de criar certas atmosferas, cada um no estilo e temática cinematográfica que pretendo compôr, como games e filmes de terror, ação e thrillers e disponibilizá-lo de graça, porém registrando meus direitos das canções. Não quero nenhum diretor roubando minhas canções e não me creditando no final hahaha

5- Você acredita que ultimamente a internet é um espaço suficiente para o apoio no surgimento e divulgação de novos artistas como você? Quais seriam outros meios que poderiam colaborar com isso, se é que eles realmente iriam colaborar?

Resposta: A internet é um lugar bastante bipolar. Ao mesmo tempo que ela te dá um mundo aberto pra você divulgar seu trabalho, você tem que fazer coisas, no mínimo, mirabolantes para prestarem atenção em seu trabalho. Hoje, temos a força de como os virais viraram parte do nosso cotidiano; seja um simples vídeo mirabolante e diferente ou simples meme de internet que tem sido repetido até diariamente. Eu sou bem mínimo quanto a divulgação, colocando meus trabalhos em locais e comunidades que as pessoas já sabem onde eu fico e coisas assim. Não curto muito ficar spammeando minhas canções aí afora, porque isso é uma coisa chatíssima. Se eu fosse dar uma dica, a dica seria: calma. Não vai ser da noite pro dia que você terá 15,000 plays no Soundcloud e lançar um magnum opus na Columbia Records. Na vida, o menos sempre é mais. Então, não precisa ser mil contas em vários sites pra divulgar seu trabalho. Você mantendo certas redes sociais, sempre ativo e com foco, isso dá mais resultado do que você ficar spammeando pessoas com “hey bro, check my music” em todo lugar que você vai na internet. A minha fanbase, mesmo que pequena, ela só existe hoje, devido às pessoas que gostaram da minha música e passaram para as mais próximas. Então, não tenha medo: uma pessoa curtiu seu trabalho? Seja cara de pau e peça para ela divulgar isso. Um simples “compartilhar” de uma pessoa em seu profile ajuda E MUITO quem tá começando e quer ter uma base de fãs concreta e firme.

6- No cenário musical atual, quais são os aspectos que mais te agradam e quais são os fatores que te desagradam?

Resposta: O que mais me agrada do cenário atual, é como a música está sendo bem distribuída atualmente e como cada gênero tem seus fãs estabelecidos. Seja um gênero virtual e de fãs pequenos, como o vaporwave, ou um gênero com fãs mundialmente, como o glitch-hop ou a trap music, eles estão estabelecidos e são fãs disso, independente do que aconteça. Se o gênero “morrer” um dia, eles vão continuar saudando tal gênero, até o dia que ele renascer. Isso é lindo de se ver. Já da parte que me desagrada, é a famosa “panelinha”. Ultimamente, é muito grupinho musical que não se importa com nada e fica de panelinha com outros artistas, para alimentar seus respectivos egos. Outra coisa que me desagrada é “elitismo musical” e a obrigação que alguns fãs radicais tem com seus ídolos. Se eu curto alguma coisa que não é bom para os ouvidos deles, não existem motivos dessa pessoa vir pra cima de mim, pregando que eu tenho que odiar tal gênero, só porque ela não curte aquilo. Assim como me chamar de alguém de ser “do contra”, só porque não curte alguma coisa que é relativamente famosa e que não acha tão legal como dizem. Isso tem que acabar e rápido.

7 –  Em que gêneros, tu anda vendo mais panelinhas?

Resposta: Dói falar, mas no drum and bass principalmente. É horrível ver um gênero que você ama e ser o principal motivo de começar a compôr, tornar um bando de crianças sem opiniões, que não aceitam qualquer tipo de piadinhas com o gênero e que compõe com o simples motivo de ficar famosão. Com isso, ficam criando panelinhas com outras pessoas de mais “nomes”, só pra ajudar a inflamar o próprio ego delas. Mal elas sabem que são as tais panelinhas que estão destruindo o gênero e que serão as mesmas que as destruirão os projetos musicais de tais pessoas.


8 – Já que falamos bastante sobre seus pontos de vista de outros artistas e do mercado atual, o que podemos esperar do seu primeiro trabalho?

Resposta: O “Inconsequential Hallucinations” é o trabalho que considero minha estréia, mesmo lançando coisas mais obscuras anteriormente. Hoje eu tenho um certo receio com esse álbum, mas é um álbum que minha fanbase curte bastante. Por ser um álbum mais minimalista e bem “amateur”, o som dele é muito diferente do que faço hoje. Então, por curiosidade, continua sendo o trabalho que o pessoal ouve quando quer começar no meu “trabalho”; não sei se é por ser, exatamente, o primeiro, ou por ser o mais ouvido do meu projeto. O álbum é, exatamente, o som melancólico, rápido e minimalista de que eu sempre quis seguir. Hoje, logicamente, meu som é bem mais trabalho que o meu primeiro trabalho oficial, porém continua sendo uma boa experiência pra quem ouve. Além de ter sido feito numa época conturbada da minha vida, com experiências emocionais mais pesadas e coisas assim.

9 –  Aproveitando o espaço, muitos artistas e músicos que estão começando agora podem ler essa entrevista, que dica você poderia dar para alguém que está pensando em trilhar o mesmo caminho que o seu?

Resposta: Se divirta. Simples assim. Não importa se você está fazendo drum and bass, glitch, música ambiente ou dubstep. Não importa se você está preocupado se 10 ou 1000 pessoas vão ouvir. Se você está se divertindo compondo e está feliz com isso, não tem mais nada pra se preocupar. O importante é você se sentir bem; ouvir sua música e pensar “porra, isso tá foda demais!” e divulgar pela internet. Nenhuma das inúmeras rede sociais vão te ajudar na felicidade que seu trabalho de compôr trás. É amar o que faz e estar feliz com isso.

10 – Você poderia nos recomendar alguns artistas que estão no atual mercado independente?

Resposta: Nossa, são vários! Mas citarei alguns do meu estilo, mais precisamente álbuns que me influenciaram: “Kirlian Selections” do The Flashbulb (2005, Sublight Records), “drukQs” do gênio Aphex Twin (2001, Warp Records), “Ultravisitor” do Squarepusher (2004, Warp Records) e a trilha sonora do game “Silent Hill 2”, feita por Akira Yamaoka (2001, Konami). Em suma, artistas da “internet” que eu amo, como Bija (Athenas), Matheus (UK), Infinite Quazar (França), Kamikaze Deadboy (UK) e outros, como Fennesz, Deepchord (o álbum “20 Electrostatic Soundfields” é um dos melhores de 2013), Burial, Flying Lotus e, claro, os deuses da guitarra John Frusciante e Frank Zappa. Disso, já dá pra ligar de como a minha mente é estranha quanto à música. xD

11 –  Para encerrarmos, onde podemos encontrar sobre você e o seu trabalho?

Resposta: Podem me encontrar na Last.fm (http://www.last.fm/music/The+Industrialism) e Facebook (http://www.facebook.com/theindustrialism), pra ajudar no ‘statis’ do projeto. Pra ouvir minha música, Soundcloud (http://soundcloud.com/m1-a1) e Bandcamp (http://theindustrialism.bandcamp.com/) têm tudo lá.

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