O CARRASCO QUE DESEJAVA ROUBAR O MISTERIOSO OVO DE LISPECTOR

em Arte/Literatura por

Clarice Lispector é autora consagrada, mesmo que em vida nunca tenha apreciado o título. Enquanto internautas distribuem suas frases soltas (nem sempre de sua autoria) como pílulas de autoajuda, os apreciadores de sua arte sabem que não há como citar Clarice sem uma pincelada de melancolia. Clarice é, em quaisquer cores, admirada. Mas nem sempre foi assim.

Críticos de arte existem nas mais variadas formas; lembrando que a palavra crítica, neste caso, não tem necessariamente um peso negativo. Dentre eles, Clarice cita Sérgio Milliet. (Primo de segundo grau do meu atual namorado, Octavio Milliet. Que coincidência!)

Sérgio, orgulho da família, teria se referido à Clarice com uma sombra de despeito: “Essa escritora de nome desagradável, certamente um pseudônimo…”, como ela mesma conta numa rara entrevista, concedida em 1977 para Júlio Lerner, da TV Cultura. Na ocasião, ela explica que Lispector é sim seu verdadeiro sobrenome.

O vídeo da entrevista está disponível no YouTube e mostra uma Clarice triste e exausta, sem paciência para perguntas e certamente desgostosa em relação aos críticos.

Ela se senta numa poltrona, acende seu cigarro, fala pouco e evita o olhar do jornalista, que atua como carrasco – função, de fato, muita atribuída a esta profissão. Por mais que ele a venere, a oposição entre os dois é evidente.

Júlio Lerner, aliás, escreveu sobre sua experiência em relação àquele dia e confirma o meu argumento:

Estou completamente desconcertado, fico um minuto em silêncio fitando Clarice. Estou oco, vazio, não sei o que dizer. Clarice me olha curiosa, mas vigilante, defendida. Sou o senhor do castelo e — prepotente — guardo comigo a chave desta prisão. Ninguém pode entrar ou sair sem meu expresso consentimento. Todos devem se submeter à minha autoritária vontade.

A fornalha arde, meu coração dispara, minha boca está seca e debaixo destes tirânicos mil sóis sou o maior dos tiranos. Começa a entrevista. A entrevista avança. Seus olhos azuis-oceânicos revelam solidão e tristeza. Clarice está nua, não há perdão, Clarice agora está encapotada, ela se deixa agarrar, mas logo escapa, e volta, e me pega, e me sugere o longe, o não dizível, depois se cala. E quando nada mais espero, ela volta a falar. Faço uma antientrevista, pausas, silêncios, Clarice agora está fugindo para uma galáxia inabitada e inatingível, mas volta em seguida e, tolerante, suporta toda a minha limitação.

Repito: por mais que a admire, como ele narra exaustivamente em seu texto, Lerner reconhece seu papel de inquisidor, sabe perfeitamente como pesa a crítica escondida por trás da linha de uma pergunta aparentemente inocente. Ele, enquanto homem, profissional, jornalista, segura todas as cartas daquele jogo. É ele, e apenas ele, quem liderara a dança, mesmo sabendo que Clarice aprecia a liberdade.

Na entrevista, ela afirma que há um conto que ela não compreende muito bem: O Ovo e a Galinha. “É um mistério para mim”, ela diz. Mesmo assim, também é uma das suas obras prediletas.

Desde então, há várias resenhas atrevidas sobre a obra. A tese principal é a de que o ovo simboliza a inspiração da escritora, enquanto a galinha seria a própria.

São muitos os que se aventuram, os que criam preposições, os que copiam o que leiam por aí e reproduzem o mesmo conteúdo. O texto em si também é repetitivo, não é fácil. Se eu pudesse arriscar, diria que é filosófico.

Quando se trata de literatura, os maiores críticos tendem a ser jornalistas e professores da área. Isto porque fazem da caneta um bisturi, dissecam a obra, transformam a crítica numa autópsia. Trocando pelo ethos do “o Ovo e a Galinha”, a meu ver, o jornalista deseja quebrar o ovo e fazer uma omelete.

Veja bem, começam desmembrando a autoria: o porquê atormenta o carrasco. Ele sente uma necessidade inexplicável de entender quais são as engrenagens psicológicas que levam a autora a escrever sobre determinado tema.

Fantasia-se de historiador: vai fundo revirando o passado, as histórias, buscando respostas em entrevistas prévias, em colocações. Quer conhecer a biografia de sua vítima.

Fantasia-se também de psicólogo, colocando-se à frente da entrevistada, mas sem nenhuma didática ou interesse terapêutico. Seu único objetivo parece ser chafurdar na criação alheia.

Quando mais sofisticado, é bem possível que tenha em si a alma de sommelier: precisa experimentar as emoções, decodificar os sabores e a textura de cada palavra, de modo que o tormento da autora se transforma num elixir saboroso; cada linha triste e cansada é tomada a longos goles.

Não importa o quão intricado seja para a própria autora: o jornalista finge que tem a chave, como se transcendesse ao texto que ele admira e dissesse, prepotente: “veja, nem mesmo você entende sua própria obra, mas eu entendo você. Eis aqui um breve texto sobre o verdadeiro significado que você escondeu de si mesma nas entrelinhas”.

Talvez me falte essa prepotência jornalística, mas eu não me atrevo a desvendar os mistérios que a própria Clarice desconhece. O ovo é branco, disso sabemos.  Que continue imortal e milenar, como ela escreve, para que gerações passadas e vindouras possam apreciá-lo. Eu irei fazer como ela indica na entrevista, ao ser perguntada acerca do papel do escritor hoje:  “falar o menos possível”.

 

 

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*