O bairro do sol nascente

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Por André Cáceres e Bruna Meneguetti

O sábado surgia como todos os outros sábados na Liberdade. Naquele canto, o astro-rei nasce como na Terra do Sol Nascente, de onde os fundadores daquele bairro vieram para trazer novo tempero à mistura que é a cultura brasileira. No entanto, aquele sábado tinha um ingrediente a mais naquelas ruas japonesas: dois jovens aspirantes a repórter completamente perdidos e perguntando a esmo se os transeuntes falavam português.

Viver na Liberdade é sentir-se próximo do outro lado do mundo. A princípio, não há outra maneira de definir a vida no bairro. Desde os postes com motivos orientais até as inúmeras lojas, restaurantes e estabelecimentos com placas escritas em ideogramas, passando pelas pessoas que falam japonês nas ruas. Subindo as escadas do metrô, já se percebe um ar diferente, com jovens fantasiados de personagens de mangás e barracas vendendo itens orientais. É uma cidade dentro de São Paulo. “Esse bairro é a minha vida”, conta Mario Hiroshi, que trabalha há 12 anos na Casa de Cultura Oriental, a associação dos lojistas da Liberdade, ajudando a organizar as festividades.

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“Para mim é um orgulho, porque sou descendente e é minha responsabilidade manter a cultura viva”, acrescenta ele, que nasceu no Brasil, mas nunca abandonou as raízes de sua família que veio do Japão. A tradição é um aspecto muito valorizado, especialmente por pessoas que nasceram no Japão, como Yukiko Matsuda. “Não é que eu queira falar bem da gente, mas nós estamos sempre tentando melhorar nossa cultura. Nós já nascemos com ela implantada”, afirma a simpática senhora.

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Quando se examina mais a fundo, porém, é possível notar que os habitantes da região já não sentem mais a mesma proximidade com a cultura da Terra do Sol Nascente. O êxodo dos filhos e netos de japoneses para outras partes da capital paulista e a chegada de imigrantes de outros países fez com que o quadro se transformasse radicalmente, mesmo que à primeira vista isso não seja facilmente reconhecido.

Com os olhos já marejados, Mario se recorda com carinho de sua primeira Tanabata, a festa oriental realizada todos os anos em julho. “Tudo estava enfeitado com bambus, foi lindo. Eu me lembro que participaram mil duzentas e oitenta pessoas. Hoje em dia, não chega a quinhentas”, lamenta. “Meus pais vieram pro Brasil e eu nasci aqui. Esse bairro foi construído pelos japoneses, mas de uns tempos para cá, mudou muito”, diz Rosa Maria, que tem nome brasileiro e feições orientais.

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Dona de uma loja de roupas que vende desde kimonos até camisetas de bandas de rock inglesas, parece contraditório que ela se incomode tanto com a miscigenação. O mesmo podemos dizer sobre sua cultura, embora ela diga que “Agora, o comércio é quase todo dominado pelos chineses. Virou uma 25 de março”, admite que não faz questão de explicar as diferenças culturais de cada roupa que vende e que os clientes costumam confundir-se. Suas críticas logo se acentuam em cima dos chineses. “Dá para diferenciar pelo comportamento. Eles são mais agressivos”, explica Rosa “Se você ver um oriental falando alto com alguém, é chinês”.

Apesar do teor, as reclamações de Rosa Maria são endossadas por outros descendentes de japoneses que moram no bairro. Mesmo sendo imigrantes, eles não parecem abertos ao convívio com os novos habitantes. “Agora tem haitianos recém-chegados. Não tenho nada contra, mas eles estão precisando de um emprego”, conclui ela de maneira contundente e no mesmo tom de voz encontrado em Renato Yamamoto, que cuida de uma loja especializada em livros, revistas e histórias em quadrinho japonesas, e fala sobre os haitianos que vendem artigos, como correntes e relógios, perto do metrô.

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“Eu particularmente nunca vi eles fazendo nada de errado, mas é estranho que uma pessoa dessas tenha tantos itens assim, não tem como conseguirem de uma forma legal”. “Não só haitianos, mas angolanos e nordestinos também chegam para ganhar o pão de cada dia. A maioria chega com um sonho, mas nem todo mundo tem essa sorte”, afirma Yukiko, quase complementando o que já havia sido dito. Sobre os haitianos, ela acredita que “ninguém nasce ruim. Mas se misturarem com os brasileiros que já são ‘desse ramo’, pode dar problema”, indicando que eles estariam suscetíveis a entrar para a criminalidade. “É mais fácil deles se misturarem. É o que o ambiente faz”, conclui ela. “Algo de bom no bairro?”, os entrevistados questionam, parecem não entender a pergunta.

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“A comida”, alguns respondem categóricos, associando ao que as pessoas mais procuram quando vão à Liberdade. Mario Hiroshi ousa responder que é a segurança, mas não deixa de contar histórias de furtos rápidos que aconteceram no meio da rua. “É preciso estar atento, os ladrões logo reconhecem uma corrente de ouro e percebem um bom celular”, adverte o homem que já morou na Rua do Glicério. “Os jovens brasileiros estão cada vez mais gostando da comida japonesa”, acrescenta Rosa Maria, encabulada pela câmera que começa a despontar das mãos dos repórteres. “A maioria vem aqui para comprar e comer”. A Liberdade é um bairro muito comercial e pouco residencial, e é por isso que atrai muitos turistas e consumidores, como a família Miyamoto, que mora em Mogi Mirim e sempre visita a região para fazer compras.

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“Os preços são muito bons e conseguimos encontrar produtos aqui que não existem em outros lugares”, conta Edson Miyamoto. Apesar do comércio, os artigos ainda continuam sendo orientais. Em meio a tantos itens do nosso dia a dia que possuem a base cultural americana – por mais que não sejam feitos nos Estados Unidos -, talvez as tentativas de fornecer produtos do Oriente sejam a melhor forma de assegurar a cultura do local. Orientalizando símbolos americanos como o Mc’Donalds em forma de casa japonesa, a Liberdade torna-se uma caricatura do Japão no centro de São Paulo e um ponto turístico muito peculiar.

Fica o paradoxo de até onde a cultura está empregada nesses aspectos que podem parecer vazios e, ao mesmo tempo, cheios de significados. Desfigurada pela chegada de imigrantes de outras nacionalidades, pelo êxodo dos nisseis e sanseis – filhos e netos de japoneses – e pela mudança demográfica pela qual passa, a Liberdade é um lugar único. Maior colônia nipônica fora do país em todo o mundo, já não preserva as características tradicionais de outrora, mas ainda guarda seu charme, que continua encantando os jovens jornalistas que desceram as escadas do metrô observando os adolescentes fantasiados naquele domingo que, como em qualquer domingo, desaparecia para dar lugar a uma nova semana.

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