Não vemos mais a morte

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      Todos os animais, que outrora teríamos que matar para poder ingerir os nutrientes previamente processados de seus corpos, já que nunca pudemos ingerir in natura do solo e sempre nos faltou conhecimento para ingerir apenas na forma de vegetais, atualmente são mortos por outras pessoas ou por máquinas para nos atender.

      Um açougueiro pode abater 30 frangos por dia. Digamos então que seria 1 pessoa em contato com a morte e 90 pessoas sem, já que ninguém come um frango inteiro sozinho por dia.

      A vida convivendo com a produção em larga escala arrancou o contato com a morte da esmagadora maioria das pessoas. Há décadas, nós colhemos carnes, peixes e frangos nos supermercados, como quem colhe vegetais em árvores ou no chão. Aliás, se não tivessem nos contado se tratar de um animal, pensaríamos que coxa de frango é uma fruta igual à pêra, que nasce na frangueira.

      O quê nós fazemos? Sabemos que é morte, mas não sentimos que é morte. Há uma espécie de bloqueio mental. Talvez culpa do marketing ou de algo maior, da cultura. Continuamos consumindo. Entretanto, há um sutil, imperceptível e não falado “não toquemos no assunto”.

      Uma vez que não estamos mais nos tornando acostumados à morte, sentimos aflição ao vermos um animal sendo morto, mesmo que para atender ao costume de comer carne, que também é nosso.

      Essa configuração não mudará jamais. A produção em larga escala veio para ficar. Então, jamais haverá uma população “industrial” habituada à morte. Mesmo países, como a China, onde a escassez de alimentos criou a cultura de usar qualquer animal como alimento, não têm forças para deter essa tendência.

      Pessoas mais velhas acham bobagem. Muito provavelmente, elas tiveram mais contato com a morte do que as últimas duas gerações

      Todo abatedouro é um serial killer gentil, simpático e prestativo com os clientes, fregueses e amigos, mas frio, calculista e objetivo com suas vítimas.

      Crescemos tratando os animais como amigos e até protetores. De repente, já estão nos nossos pratos e nem pensamos que um dia estiveram vivos. O quê é isso? É frango, uma espécie de batata.

      Eu prevejo uma forte tendência ao “veganismo” para as próximas décadas, justamente por causa da perda do milenar contato com a morte unida ao saber, ao conhecimento, que, apesar de ser o inimigo número 1 dos aproveitadores e charlatões, também pode ser usado para forçar um mercado a mudar.

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