Não existe existencialismo na miséria

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Hoje, ao chegar à faculdade, só pensava na liquidez do século XXI. Tudo que vinha à minha cabeça era Zygmunt Bauman e o sufocamento que os espaços enclausurados me causam. No entanto, após assistir ao documentário “Garapa”, do diretor José Padilha, percebi que a liquidez é um luxo, do qual eu, uma garota pertencente à pequena parcela privilegiada do país, pode desfrutar.

O documentário foi filmado no interior do estado do Ceará e acompanha a realidade de três famílias que, segundo a FAO (ramificação da ONU que lida com a questão da agricultura e da fome no Mundo), sofrem de “insegurança alimentar grave”. Em outras palavras, a fome extrema, que pode levar o indivíduo a óbito. O diretor optou por uma estética “pobre”, como se ao filmar a pobreza tivesse que seguir o mesmo padrão visual. As cenas são em sua maioria granuladas, filmadas em preto e branco, sem a presença de trilha sonora ou movimentos bruscos com a câmera.

A presença da política é também algo muito notório no documentário: seja em programas federais utilizados para sanar a fome (Bolsa Família e Fome Zero), seja na utilização de ornamentos de propagandas eleitorais, como a vestimenta de camisetas partidárias por integrantes da família, seja na utilização de pôsteres de candidatos como utensílios domésticos.

Pensar na política como protagonista, em meio à miséria, faz-nos questionar a legitimidade dos nossos políticos nacionais que, na maioria das vezes, elegem-se na base do oportunismo. Dessa forma, explica-se a imbecilidade da Câmara de Deputados, formada, em sua maioria, por homens corruptos e sem qualquer tipo de capacidade e vontade para governar e criar medidas enérgicas para tirar esses indivíduos deste estado de inanição.

Ao se analisar a realidade dessas famílias cearenses, é possível notar uma semelhança com os personagens do romance “Vidas Secas” de Graciliano Ramos. No romance, os personagens humanos são apresentados de maneira bruta e áspera, vítimas da atmosfera caracterizada pela seca que absorve a humanidade dos sertanejos, como se fossem camaleões que se adaptam ao ambiente.

A cachorra Baleia, embora seja um animal, apresenta grandes sensações humanas. Conhece alegrias e tristezas, vida e morte. Cabe a ela o momento mais dramático da narrativa. Já aos demais personagens, cabe a sobrevivência na seca do sertão nordestino.

Lembro que, ao ler o romance no Ensino Médio, achava que aquilo era irreal. Como um ser humano pode ser menos humano que um cachorro e ter vontades tão rasas?  Ao assistir Garapa, contudo, todas as minhas perguntas foram caladas. É impossível ter vontades complexas quando se falta o básico. Não acredito que um ser humano se sustenta apenas por “pão”, mas isso é primordial. O intelecto só pode ser desenvolvido quando o corpo funciona bem e o existencialismo é um luxo dos “bem alimentados”.

Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feioÀs vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopéias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas”

(RAMOS;GRACILIANO,p.20)

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