Mulheres, nós somos fruto do pecado?

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O dia Internacional da Mulher é celebrado dia 08 de março. É quando ganhamos flores. Muitas flores: rosas murchas, dobradiças de papel, flores desenhadas. Contudo, a cortina cheirosa esconde uma realidade alarmante. Segundo a bancada evangélica, vivemos num país laico-cristão e a nossa moralidade vem diretamente do livro sagrado. Para celebrar nosso dia, a bíblia tem uma mensagem especialmente carinhosa para nós, mulheres. Feministas e simpatizantes, abstenham-se.

Filhas de Deus! Nós ganhamos em primeiro lugar no quesito “símbolo do pecado”. Mesmo quando vítimas de abuso físico e psicológico, somos apontadas como culpadas. Para a sociedade, somos nós que provocamos. Nós sempre estamos no lugar errado, na hora errada. Quando um homem nos mata, mata por amor – assim dizem. É a loucura da paixão, é a irresistibilidade dos nossos corpos.

Mas de onde surgiu a imagem da mulher provocadora, daquela que leva o homem à loucura, ao pecado?

Você muito provavelmente ouviu sobre a queda de Lúcifer quando pequena, no culto ou missa, ou de pessoas próximas. Nada na bíblia aponta com certeza e clareza a queda de Lúcifer, mesmo assim os fiéis levam a cabo o ponto zero de todo o Mal. A estória se tornou parte da nossa cultura, e simboliza o início do pecado.

Segundo o mito, a primeira ofensa contra Deus veio da criatura excepcionalmente sapiente, o anjo desenhado para o topo da hierarquia celestial. Lá, no momento da derrota e da queda, o pecado nasceu no universo.

Conforme o Velho Testamento nos conta, o início de nossa odisseia é o barro. De todos os elementos da terra, esse é escolhido por um motivo misterioso e desconhecido. O bafo divino anima o barro e dele nasce o homem. Ele, diz o Gênesis, tinha tudo para si, tinha o paraíso sob os pés e voz de Deus acima dos pensamentos. O paternalismo entra em cena e cria a mulher que, feita de um material secundário, fica abaixo do homem.

Ressentida e seduzida por Lúcifer, a serpente astuta, a mulher desobedece à ordem de Deus: “Tudo é do homem, menos aquela árvore chamativa no centro do Jardim do Éden, aquela cheia de frutos suculentos, a ‘Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal’”. E está avisado desde o início: tudo é comestível, menos aquela árvore de nome esquisito, e a consequência da desobediência é a morte. Como a curiosidade nunca foi muito boa em ceder – e é difícil pensar em como Deus pode ter se esquecido deste pequeno detalhe quando a colocou na cachola humana –, o homem falha no teste divino.

A primeira dúvida é: o que você tem a ver com a queda da Estrela Vespertina? Muito, conforme a cultura do cristianismo nos diz. No Jardim do Éden, quando tudo estava dentro dos conformes, quando o dia estava fresco, o sol brilhava e o primeiro casal corria nu para cima e para baixo, Deus colocou a árvore do conhecimento do Bem e do Mal no centro do Jardim, como parte dum teste bastante duvidável. O fruto daquela árvore estava proibido e cortado definitivamente do cardápio. E se o casal o comesse, o que ocorreria? Nada menos que a morte. Lá estava a árvore e do lado estava a placa: “Cuidado, risco de vida”.

Naturalmente curioso, o casal se aproximou da tal árvore para ver o motivo de tanto fuzuê. Lúcifer, dominado por sentimentos vingativos, se transformou em serpente e convenceu a mulher sobre os benefícios do fruto proibido: provavelmente o fruto a transformaria em Deus. A mulher por fim comeu e compartilhou com o homem. A humanidade, consequentemente, se contaminou do pecado e foi expulsa do Jardim do Éden.

O motivo para o nosso “flashback” é um: o modo como Deus puniu o casal diante da óbvia desobediência. No final, Deus os poupa da morte. Mas talvez Ele tivesse em mente um futuro bem pior que a morte.

Estupro, condenação para a eternidade. O cardápio bíblico é cheio de alternativas para nós, mulheres. Em Gênesis já temos uma noção do que o Senhor espera das descentes de Eva. Sem titubear, o Todo-Poderoso anuncia que multiplicou grandemente a dor do parto e afirma que a partir de então o marido passou a dominar a mulher. Aliás, o homem como o dominante na relação é recorrente na bíblia. A palavra de Deus deixa claro que as únicas que devem ser valorizadas são as submissas, as caladas e as virgens. Mesmo assim, dentro do monoteísmo, elas sempre foram e, em alguns casos, até hoje são o bode expiatório e o exemplo da perversão e da fraqueza.

A palavra divina relata como Amnon, filho de Davi, enamorou-se de sua irmã Tamar.[1] Como não poderia ter relações com ela, fingiu-se de doente e mentiu para que ela cozinhasse para ele. Retirou todas as pessoas do recinto e pediu para que ela, sua irmã, se deitasse com ele. Tamar se recusou, mas como Amnon era mais forte que ela, estuprou-a. Deus, o interventor, nada fez para impedir. Nem mesmo Davi, o pai, se dá o trabalho de levantar da cama para ver qual era o motivo do barulho suspeito. Depois do ato incestuoso, Amnon sentiu uma forte aversão por ela e mandou que se levantasse e fosse embora.

Absalão, outro filho de Davi, recomendou a Tamar que se calasse e nada dissesse sobre o assunto. Ela não deveria ficar angustiada por isso, afinal, era apenas uma mulher. Contudo, o próprio rei Davi se encheu com o pecado da ira quando soube do acontecido, mas nada fez contra Amnon. Como resumo desta novela familiar, foi Absalão que tomou uma atitude um tanto shakespeariana. Mandou seus servos embebedaram Amnon e em seguida o matarem. Depois disso, Absalão fugiu. Portanto, moças, a bíblia lhes ensina uma valiosa lição: se forem estupradas, deixem que um de seus irmãos resolva o assunto. E, acima de tudo, em vez de gerar uma polêmica familiar e trazer discórdia, fiquem caladas.

Por falar em estupro, a bíblia tem uma maneira muito peculiar de lidar com o assunto. A fornicação é punível com pena de morte.[2] Ou seja, o casal que resolve fazer sexo ou brincadeirinhas fora do casamento, deve ser morto. No caso do sexo forçado, se estiverem na cidade e a moça não gritar, ambos também deverão ser mortos, pois o grito seria a única prova da inocência da moça. Agora, imagine a situação em que a moça tenha sua boca coberta ou outra na qual não seja ouvida. Além da humilhação de ter sido violentada, ela também deverá ser morta, pois não há provas de que tentou gritar por socorro. Lei eficiente esta, não?

Tomemos o livro de Números como exemplo.[3] O Senhor ordenou que o povo de Israel se vingasse dos midianitas, algo que foi aceito prontamente por Moisés, o Vingativo. Pois bem, os soldados de Deus assim o fizeram, exterminaram todos os homens, roubaram-lhes os gados e todos os seus bens. Mas fizeram também algo que não estava nos planos: deixaram viver as mulheres e seus pequenininhos, mesmo que encarcerados. Moisés, contudo, não aprovou a condescendência do povo de Jeová, pois as mulheres não deveriam ter sido poupadas. Ordenou então a morte de todas elas, exceto, claro, das virgens. Após a morte selvagem dos homens midianitas, o segundo cenário como um palco de uma brutal carnificina em nome de um Deus todo-poderoso estava montado. Mulheres e crianças foram levadas à força para a presença de Moisés, sem terem a mínima noção de seus destinos.

As meninas virgens tiveram que assistir, atônitas, ao povo de Deus trespassar suas espadas sagradas em suas mães, familiares e conhecidas. Após verem os cadáveres empilhados, as virgens foram divididas entre as tribos de Israel e passaram a viver juntos dos animais, usadas como meros objetos sexuais pelos assassinos de suas famílias. Como se não bastasse, uma parte dessas mulheres foi sacrificada ao Todo-Poderoso, pois este adorava uma carne inocente. As que restaram tiveram seus corpos poupados, mas suas vidas tomadas. Afinal, de que forma aguentaram viver num mundo de abuso sexual e violência física, no qual um Deus bondoso e justo ordenou Moisés a destruir seu povo e nada fez para deter os soldados de Deus enquanto as abusavam?

Hoje é sabido que nem todas as moças sangram durante a primeira relação, então, mesmo que desconsiderássemos a atrocidade contida na lei divina, muitas moças poderiam ter sido acusadas falsamente. A lei era ineficiente, pois naquela época não se poderia provar a virgindade da moça com absoluta certeza. Além de ineficiente, brutal. Devemos, portanto, seguir a bíblia como um livro moral que determina a vida sexual e matrimonial do homem moderno? Especialmente nos dias atuais, nos quais a virgindade não é mais vista como algo precioso ou desejável, quantas mulheres, segundo o Velho Testamento, deveriam ser mortas a pedradas?

A maioria dos crimes recebia punição na hora, diante de um grupo de pessoas que presenciaram a cena ou que estavam por perto. Que povo bárbaro é este que admiramos e julgamos como dignos de serem lidos? Ora, até mesmo o funcionamento natural do corpo era condenado! O Velho Testamento estabelecia que toda mulher menstruada era tão impura que os lugares onde ela sentava deveriam ser evitados. Se um homem encostasse na esposa, na mãe ou na irmã nesse período do mês, não poderia sair de casa por sete dias. E, se o fizesse, poderia ter de pagar uma multa. Tornar-se impuro com menstruação era considerado um ato tão pecaminoso que, se um casal fizesse sexo durante este período, deveria ser eliminado de seu povo.[4] O parto também era visto com tais olhos. Ora, se a mulher concebesse a um filho homem, seria imunda por uma semana. Mas se tivesse uma menina, seria considerada imunda pelo dobro de tempo![5] O sexo feminino era sempre mal visto por este livro misógino e extremamente machista.

Levemos, por um minuto, este conceito de impureza a sério. Pela lógica bíblica, as mulheres deveriam se abster de seus trabalhos por uma semana todos os meses, afinal, neste período estão impuras e não deveriam contaminar seus colegas de trabalho. Garçonetes e chefes de cozinha, então, deveriam ter até mesmo mais dias de folga, para se certificarem de que estão completamente limpas. Ninguém gostaria de comer alimentos vindos de pessoas “impuras”, não é mesmo? Ou você acha este pensamento um absurdo? Isto porque a civilização já superou tais conceitos primitivos e retrógados. Mas pérolas como estas são achadas aos montes na bíblia, o guia moral que, à risca, ninguém segue.

O cristão racional diz que a atração pelo sexo oposto faz parte da natureza humana e que as fantasias da mente podem acontecer com qualquer um. Mas, cabe ao cristão controlar tais pensamentos, expurgá-los, tirá-los de si como se expulsa um demônio. Mas caso a pessoa falhe em obedecer às leis sexuais de Jesus, ora, o título de cristão pouco cabe a ela.

Por exemplo, graças ao avanço do secularismo o divórcio foi concedido como um direito às conquistas individuais. Os cristãos modernos tendem a ser favoráveis à separação, pois compreendem que por mais que um casal queira, nem sempre é possível manter um relacionamento por toda a vida. Mas, ao contrário do que pensam, Jesus não era a favor do divórcio. O segundo casamento só poderia ocorrer em caso de imoralidade sexual, ou seja, caso um dos parceiros cometesse fornicação, adultério ou alguma outra prática imoral. Há outra exceção em que permite o divórcio: quando o descrente resolve se separar do crente.

Mas Jesus deixa claro que quem se divorcia de sua mulher faz com ela se torne adúltera e quem se casa novamente com uma mulher separada está cometendo adultério.[6] Ou seja, o segundo casamento é uma forma de pecar. Ainda bem que hoje as mulheres são mais autônomas e não precisam se agarrar ao fracasso de um casamento. Hoje as pessoas recebem bem os divorciados e são estimuladas para que se casem novamente. “Que seja eterno enquanto dure” é a filosofia de vida dos tempos atuais. Mas definitivamente não é a mesma do livro sagrado que dita como deveríamos nos portar.

É importante ressaltar que, segundo a bíblia, Deus em alguns casos prefere a solteirice ao casamento, pois os casados dividem sua atenção entre Ele e o mundano, sendo que os solteiros têm mais tempo para Deus.[7] Sim, eis aqui mais uma prova do quando Nosso Senhor aprecia ser o centro das atenções. Além da atenção que precisamos dar ao Onisciente, a palavra divina nos lembra de que não somos de nós mesmos, uma vez que nosso corpo é templo do Espírito Santo. Esta a razão pela qual não podemos recorrer às imoralidades, tais como dormir com prostitutas, praticar adultério ou fazer sexo antes do casamento.[8]

A questão mais controversa de todas é a virgindade. Difícil mesmo é seguir esta rígida lista num tempo em que as pessoas demoram mais para casar, devido à pressão exercida por suas carreiras. Hoje o mais comum é o casal esperar por volta dos trinta anos, quando têm condição financeira para começar uma família. Ingênuo daquele que acredita que, sendo um ser humano sadio e sexuado, é possível manter a virgindade intacta até o dia do casamento (exceto se você for assexual). Ainda assim, muitos ignoram o “hoje” e esperam viver como há milênios atrás. Não necessariamente completam o intento, mas carregam a ilusão de um status de santidade que muitas vezes dá energia para discutirmos a hipocrisia contida em suas esperanças infantis.

O valor da mulher, como se pode notar, era calculado pela presença de seu hímen. Assim, toda aquela que perdia sua virgindade antes do casamento era considerada como prostituta. A bíblia se refere ao ato de se prostituir como qualquer relação ilícita. Assim, é um erro pensar que a prostituta era apenas quem vendia seu corpo, pois toda aquela que se entregava à devassidão, que corrompia-se sexualmente. As ações pecaminosas iam desde movimentos insinuantes, danças eróticas até o ato sexual em si. Desta forma, jovens fornicadores – homens ou mulheres que praticavam sexo antes do casamento – e aqueles que cometiam adultério – que traiam seus cônjuges –, segundo a palavra divina, prostituíam-se. As mulheres que tinham um forte apetite sexual, amigas da lascívia, também eram consideradas prostitutas. De fato, a castidade era um elemento crucial para os filhos de Deus. Tanto que, caso um homem acusasse sua esposa de não ter se casado virgem e a família da moça não apresentasse provas de sua inocência, ela deveria ser morta a pedradas, pois, segundo a palavra de Deus, se prostituíra.

Este pensamento, infelizmente, ainda faz parte da realidade brasileira. Temos discussões sobre meninas que desejam usar shorts na escola, sobre o tamanho de decotes num país tropical, sobre o valor da mulher baseado em sua roupa. A moralidade cristã condena o ato de imaginar como seria o gosto dos lábios da vizinha. Seguindo este raciocínio, a moralidade cristã também condena as roupas sensuais, os acessórios que acentuam as formas femininas. Decotes, saias curtas, adereços provocantes, enfim, tudo aquilo que faz com que o homem sinta atração física é visto como pecado.

Especialmente num país tropical, é difícil não usar roupas frescas, curtas e decotadas. Em cidades como o Rio de Janeiro, avistar mulheres andando com biquínis e saídas de praia transparentes é comum.

“Biologia acontece”. Definitivamente esta é uma frase que assusta muitos dos religiosos. Afinal, como agradar a Deus e agir contra sua própria natureza? Os discursos de privação santa podem parecer belos e motivadores sobre certo ponto de vista. Afinal, quem não se sente inclinado a esquecer as urgências da carne para alcançar a paz e a imortalidade ao lado do Senhor? Mas aquilo que muitos chamam de tentação, ou seja, sua própria constituição física e mental, vence a batalha desta dualidade hipotética. O mundo maniqueísta, o mesmo que divide a pessoa em pura e impura, virgem e suja, santa e pecadora, na verdade é uma ilusão. Por isso a lama da impostura religiosa fica tão em evidência, especialmente nas relações diárias e nas manchetes de jornais.

Nós, mulheres, receberemos muitas flores pelo nosso dia. Mas ficaremos ainda sem o presente principal: a nossa liberdade em relação a decidir pelo nosso próprio corpo. É por isso que num país cristão e paternalista temos que decidir sobre os nossos “papeis”: os de mães, os de santas ou de putas. Mas já estamos nos organizando o suficiente para que nossos corpos sejam nossos: não do Estado, da igreja ou de quem quer que seja.

[1]     2 Samuel 13.

[2]     Deuteronômio 23.

[3]     Números 31.

[4]     Levítico 15:19-24, 18:19 e 20:18.

[5]     Levítico 12:2-5.

[6]     Mateus 5:31-32.

[7]     I Coríntios 7:32-35.

[8]     I Coríntios 6:18-20.

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

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