MULHERES NA PRODUÇÃO DE LITERATURA FICTÍCIA

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6874-livro_preconceito-300x240Este breve texto é baseado em observações e leituras acerca das mulheres na produção de literatura fictícia, tomando como base o pensamento de Virginia Woolf e trazendo essas implicações para o contexto das mulheres no Brasil, sobretudo as mulheres pretas e pobres.
Ao me debruçar sobre a obra de Virginia Woolf “Um teto todo seu” passei a refletir sobre todas essas mulheres na produção de literatura fictícia e outros gêneros e o discurso pejorativo em torno do termo “academicismo” nas discussões sociais. O que uma coisa tem a ver com a outra? Buscarei responder a pergunta na medida em que discuto a participação das mulheres nas produções literárias.
Utilizei Virginia Woolf por ser a primeira mulher em que li uma obra discutindo esse assunto, que outras mulheres falam sobre isso não tenho dúvida, mas Virginia Woolf foi o primeiro contato que me despertou interesse sobre tal.
Trato aqui sobre as mulheres na produção literária e não nas mulheres enquanto objeto de literatura. É sobre o que elas produzem e não sobre o que produzem sobre elas. Por isso coloco como destaque as observações de Woolf. Em um ensaio acerca das “mulheres e a ficção” Woolf nos falará das condições necessárias para se produzir ficção e não só ficção, mas todo e qualquer trabalho envolvendo a escrita. Ela destaca que, para uma mulher produzir é necessário: um teto todo seu, um quarto, uma sala, um espaço livre de interrupções e dinheiro. Woolf também trata de questões como a validação social do trabalho produzido pelas mulheres. Vejamos o que ela nos diz sobre isso:
“Tais dificuldades materiais eram descomunais, mas muito piores eram as imateriais. A indiferença do mundo que Keats, Flaubert e outros homens geniais achavam tão difícil de suportar, não era, no caso dela, indiferença, mas hostilidade. O mundo não dizia a ela, como dizia a eles: “escreva se quiser, não faz diferença pra mim”. O mundo dizia, gargalhando: “Escrever? O que há de bom na sua escrita?”.
Neste sentido, o trabalho produzido pelas mulheres, socialmente, não possuía significado algum. Não era digno de receber criticas, era completamente rejeitado. Estamos falando aqui de mulheres brancas de classe média/alta, sem deixar de observar o tempo histórico onde Woolf estava situada ao tratar desde assunto, nesse caso na década de 1920, Inglaterra. Pois bem, ao decorrer das décadas as mulheres foram se apropriando cada vez mais da produção literária como Agatha Christie, Jane Austem, J. K. Rowling, Nora Roberts, Simone de Beauvoir, etc.
Visto isso, pensemos na realidade das mulheres no Brasil, e aqui não irei me direcionar as mulheres brancas classe média/alta, embora estas também sofram diretamente com a dominação patriarcal e tenham muitas vezes seus trabalhos lançados ao esquecimento, porém com os avanços sociais, as mulheres brancas passam a ter espaço na produção fictícia e acadêmica no Brasil, isto porque, são dotadas de condições materiais necessárias para produzir. Dando continuidade ao raciocínio, vejamos a realidade das mulheres que compõe a parte inferior da pirâmide social brasileira que são: pretas, pobres e indígenas.
Se as mulheres brancas de classe média/alta passam por situações constrangedoras ao escreverem sobre qualquer tema por interferência do machismo, imaginemos o que não se prestam as mulheres que citei. Então trago para esta discussão mulheres como Carolina Maria de Jesus, Cristiane Sobral, Conceição Evaristo, Elisa Lucinda, dentre outras que, são invisibilizadas e hostilizadas, não porque seus trabalhos são insignificantes, mas sim, pelo racismo e machismo que estruturam as relações sociais e que influenciam diretamente na forma de enxergar o trabalho de mulheres menos privilegiadas.
Voltando novamente para Virginia Woolf quando cita as condições necessárias para se produzir literatura, nos deparamos sob o contraste de Carolina Maria de Jesus, uma mulher negra, pobre que cursou apenas as séries inicias de sua época e que no contexto da vida na favela, Carolina de Jesus escreveu o primeiro livro “Quarto de Despejo” derivado de anotações em um diário. No terreno da ditadura militar, o livro de Carolina foi recolhido e consequentemente, o apagamento social dessa obra. É preciso dizer também que, segundo uma entrevista de Luma de Oliveira à Revista Fórum, “a figura de Carolina Maria de Jesus foi utilizada por muitos para que o argumento de “ascensão social” fosse reforçado”. Isto posto, o trabalho de mulheres como Carolina de Jesus só é levado em consideração quando o grupo dominante nutre algum interesse, e neste caso o de mascarar a realidade das mulheres negras e pobres, onde a grande parte dessa população não possuía e ainda não possui acesso à educação básica.
Pensando no contexto atual, após uma série de lutas dos movimentos sociais, temos hoje, um grupo de mulheres que se apropriaram da escrita, que trabalham sob as condições que lhe foram impostas historicamente para criar obras de ficção, poesia, e de todas as ciências. Mulheres negras, pobres e indígenas que mesmo não tendo um teto todo seu, um quarto, uma sala, um espaço silencioso e dinheiro, buscam dentro desse sistema racista, machista e elitista formas de produzir ficção ou qualquer outro gênero.
Entrando na utilização do termo “academicismo” ou “academicista” tem sido contatado como tentativa de desqualificar alguém que busque debater algum assunto com base em argumentos de autoras e autores sérios. Tenho visto esse discurso muito presente quando se refere aos diálogos sobre racismo e machismo. Homens que tentam desqualificar mulheres sob esse “argumento” quando se trata de machismo e trazemos teóricos para explicar melhor o que se está querendo dizer e também, por parte de mulheres brancas, quando mulheres negras fazem o mesmo.
Analisando o que já foi dito sobre as mulheres na produção literária e todas as dificuldades impostas para cada grupo, esse discurso do “academicismo”, é nada mais que uma forma de silenciar os sujeitos e neste caso específico, me refiro as mulheres menos privilegiadas socialmente. Presenciei certa vez uma moça branca de classe média dizer a uma companheira negra e pobre que ela era “academicista” por utilizar fundamentação teórica para validar seu argumento, pois ela não tinha lido aquele autor. (Ao discutir com uma pessoa que não teve acesso a educação é desnecessário utilizar esses mecanismo, torna-se desonesto.) Ora, a moça era branca, o privilegio já começa pela cor, e classe média com acesso ao ensino superior. Já que queria debater tal assunto, no minimo tivesse estudado, pois está munida de condições para tal. O mesmo exemplo serve para o caso dos homens. Considerando que o número de mulheres negras e pobres dentro das universidades produzindo, é menor, comparado as mulheres brancas e aos homens.
Seguindo a lógica desse raciocínio, não há crime algum em nós, mulheres negras, pobres e indígenas sermos “academicistas”, lutamos dobrado diariamente para sobreviver, e para estudar e produzir então? Luto e mantenho a fé de que um dia, todas nós teremos as condições necessárias para sermos academicistas, para escrever poesia, romances, ficções diversas, textos e livros acadêmicos. Que nós um dia não precisaremos mais escolher entre nos alimentar, alimentar os nossos, e estudar, como é a realidade infelizmente da maioria das mulheres neste país.

Acadêmica em História pela Universidade Estadual de Alagoas, membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB-UNEAL) e Grupo de Estudos Feministas Dandara-UNEAL, amo gatos e café com canela, feminista interseccional, filha de Obaluayê e Yansã, e nordestina.

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