Mulheres do Candomblé: força e opressão

em Cultura/Direitos Humanos/Feminismo/Religião por
Yalorixá Mãe Menininha do Gantois.
Mãe Menininha do Gantois.

As violências causadas pelo patriarcado atingem a todas as mulheres, mas essa violência se dá de formas diferentes em cada grupo social, não podemos dizer que uma mulher branca de classe média sofra a violência da mesma forma que uma mulher negra e pobre, e então, adicionamos mais uma categoria; negra, pobre e candomblecista. Além da violência de gênero, classe social e raça, também o preconceito religioso, que por se tratar de uma religião de matriz africana não se separa da violência racista, uma vez que a estrutura social ocidental, branca e patriarcal tende a demonizar o que for de origem negra.
A realidade das mulheres candomblecistas vai muito além da violência patriarcal, a intolerância religiosa que tem sua origem do racismo bate de frente com essas mulheres todos os dias. Quero destacar também sobre como a intolerância religiosa se faz mais presente diante das mulheres, os homens também são vítimas da intolerância religiosa por razões do racismo e preconceito que rodeiam essa tradição, entretanto quando nos direcionamos a compreender as especificidades contidas no ser mulher candomblecista é necessário pensar na visão de “fragilidade” que se tem da mulher, embora a mulher negra nunca tenha sido tratada como frágil, mas de forma naturalizada esta outra violência se torna frequente por influência do machismo. Analisar também que, o candomblé surge num contexto onde a cultura negra é demonizada, justamente por ser uma cultura de matriz africana.
Isto posto, as mulheres de terreiro são fortes em todos os sentidos, pois estão sujeitas a lidar diariamente com diversas opressões; a opressão de classe, pois o candomblé por ser uma religião negra, assim como todo o povo negro, foi largado à subalternidade por consequência da escravidão; pelo sujeito mulher, tendo que lidar com a dominação patriarcal; o fator religioso, para qual o pensamento fundamentalista cristão estruturante da igreja católica demonizou a tradição religiosa que é o candomblé, isso se dá também pelo racismo. A intolerância religiosa que o povo de terreiro sofre não pode ser analisada separada do racismo, pois uma questão influencia diretamente na outra.
Nesse aspecto da fragilidade feminina a feminista Sueli Carneiro dirá o seguinte:
“Quando falamos em romper com o mito da rainha do lar, da musa idolatra dos poetas, de que mulheres estamos falando? As mulheres negras fazem parte de um contingente de mulheres que não são rainhas de nada, que são retratadas como antimusas da sociedade brasileira, porque o modelo estético é a mulher branca. Quando falamos em garantir as mesmas oportunidades para homens e mulheres no mercado de trabalho, estamos garantindo emprego para que tipo de mulher? “Fazemos parte de um contingente de mulheres para as quais os anúncios de emprego destacam a frase:” Exige-se boa aparência.”(CARNEIRO, 2011)
Desta maneira, Sueli Carneiro descreve muito bem o quão a fragilidade é um mito para as mulheres negras e nesse caso, adiciono a categoria de mulheres candomblecistas, que pela natureza de onde estão inseridas, lidam diretamente com vários setores da opressão.
Trago para este texto observações que tenho feito durante todas as vezes que frequento os terreiros de candomblé. E já presenciei algumas mulheres questionarem sobre suas solidões afetivas quando se refere a parceiros que não são do grupo religioso, pois o que pude notar é que, esses possíveis companheiros se afastam dessas mulheres ao saberem que são filhas de santo. No X Seminário Negritude e Resistência organizado pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros na Universidade Estadual de Alagoas em 2015, a palestrante Monica Carvalho, mestranda em sociologia e pesquisadora das Questões Étnico-raciais, especificamente as Relações entre Estado e Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, também filha de santo, trouxe para o debate algo que me intrigou, em sua fala, Mônica Carvalho diz que: “para setores da sociedade, uma mulher de candomblé não consegue um parceiro naturalmente, ela recorre a magia, como se elas não tivessem potencialidades o suficiente para atrair alguém”. Essa colocação me fez questionar sobre o quanto as mulheres do axé precisam lidar diariamente com as facetas do machismo e da intolerância religiosa e o quanto isso reflete de uma forma direta nas relações pessoais e na construção do imaginário popular sobre esses sujeitos.
Reitero que, este breve texto faz parte do início de uma pesquisada que se constitui a principio através de observações e algumas leituras, a intencionalidade é expor de forma concisa a presença das variadas formas de violência na vida dessas mulheres e chamar atenção sobre a importância dos movimentos feministas direcionados também ao combate à intolerância religiosa, pois, acredito que não seja libertador lutar somente pelo fim do patriarcado, considerando que o racismo, elitismo e o preconceito religioso são correntes na estrutura que compõe uma sociedade desigual entre os sexos.
Visto isso, concluo meu raciocínio enfatizando que a mulher candomblecista é sobretudo, forte. Sendo elas grandes responsáveis por uma tradição que sofreu várias tentativas de extinção por parte de uma sociedade eurocentrada cristã e que ainda hoje, precisam lidar constantemente com as diversas faces das opressões que estruturam as desigualdades no cenário brasileiro.

Acadêmica em História pela Universidade Estadual de Alagoas, membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB-UNEAL) e Grupo de Estudos Feministas Dandara-UNEAL, amo gatos e café com canela, feminista interseccional, filha de Obaluayê e Yansã, e nordestina.

2 Comments

  1. Parabéns pelo artigo, é muito importante ampliar a análise sobre o machismo, considerando suas interfaces com o racismo e em relação às mulheres de matriz africana.

  2. Ótimo artigo, infelizmente essa prática vêm se tornando uma realidade dentro de todas as religiões afro brasileiras, terreiros destruídos, perseguições a praticantes e coisas mais, estamos caminhando para um estado não de direito, mas sim de intolerância generalizada.

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