“Leva pra casa”

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Quando eu tinha 17 anos, resolvi que iria levar uma criança de rua para morar lá em casa. Eu ficava muito triste sempre que passava pela rodoviária do Plano Piloto e encontrava crianças dormindo no chão.
Acordei e falei: “Mãe, você me deixa trazer uma criança para morar aqui em casa?”
Ela disse um sim automático como quem não ouviu direito ou não acreditou que aquilo poderia ser verdade.
Fui para aula. Depois da escola, passei na rodoviária e a primeira criança que passou na minha frente eu perguntei: “Quer ir lá pra casa?”
Ele disse que sim.
Pegamos o ônibus em direção a Santa Maria e, à medida que o efeito da droga ia passando, ele me olhava de forma assustada.
“Moça, você vai fazer alguma coisa comigo?”
Me contou que tinha um cara que já o tinha levado pra casa e abusado.
Fiquei atônita na hora que ele contou.
Chegando lá em casa foi aquela surpresa. Minha mãe não imaginava que teria coragem.
Ele tinha 10 anos e ainda vem na minha memória o seu olhar distante e apreensivo.
Chegou em casa foi tomar banho e dormimos no quarto eu, meu irmão de sete anos e ele.
Ele passou duas semanas lá em casa.
brincando com meu irmão, na vizinhança
não roubou nada, não agrediu ninguém.
Minha mãe comentou com o restante da nossa família que ficou preocupada e disse que ela deveria entregar para o juizado de menores porque poderia ter algum problema para gente.
Eu chorei.
Chorei muito.
Já tinha me apegado,
queria fazer algo para ajudar
No juizado, encontraram a mãe dele e o padrasto.
Ele tinha fugido de casa por sofrer agressão.
A mãe negligenciou o que o filho sofria porque era sustentada pelo marido.
O juizado resolveu encaminhá-lo para morar com a avó na Bahia.
Nunca mais o vi, não sei que rumo levou sua vida e sua história.
Mas ainda tenho aquelas duas semanas no coração.
Muitas crianças de rua possuem histórias de violação, abandono e abuso semelhante a desse garoto.
A sociedade não é capaz de garantir os direitos básicos de dignidade para as crianças e adolescentes e depois escolhe a penalização como única alternativa.
Que rumo terá um país que mata as suas crianças ou joga elas em um sistema carcerário falido e desumano?
Pela vida eu digo não à redução da maior idade penal.

Depoimento por Thamyra Thâmara de Araújo

Imagem: Vitor Teixeira