In Cauda Venenum

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“Antes, se me lembro bem, pude provar da inocência da carne e da pureza da alma. Tive sonhos bons e pensamentos castos, próprios da infância. Os anjos habitavam o meu sono e me faziam companhia. Durante os acessos de loucura, ia ao Céu celebrar as vestes brancas e me purificava, provando dos frutos seletos… Embriagava-me, bebendo da água lustral e santificava-me, degustando cada especiaria do Éden.


Sem perceber, feria pouco a pouco os meus inúmeros sentidos e corrompia a minha essência. Marchava, submissa, para a minha perdição… 

Ora, ultimamente, ao tornar-me prudente e cheia de dúvidas, senti as dores dos anos perdidos e as flechadas da juventude senil. Julguei-me persuadida. Devaneei! Fui expulsa do Paraíso. Maculei o vestido branco: manchei com sangue. Tatuei-me. Encontrei-me dentro de círculos, dançando o Sabat… Pactuei com demônios e me servi de alianças. – Preveni-me contra a inocência de outrora. Fui salva! Tornei-me insaciável e sagaz. 

Hoje, peco contra tudo e contra todos! Faço questão! 

Dia após dia, desejo novas experiências, aventuras e traumas… Anseio, até mesmo, novas feridas, novas cicatrizes. Aspiro, insanamente, novas punhaladas, novos açoites, novas bofetadas. Acostumei-me à roda. Tiro vantagem de todas as traições, de todos os vínculos rompidos. Por ora, tenho pesadelos e muitos apetites. Os íncubos povoam o meu leito e eu os faço companhia… Atrevo-me a buscar somente aquilo que me surpreenda; que escandalize. Arrisco tudo o que possuo e tudo o que sou diante de todos os imprevistos, de todas as possibilidades… Entrego-me por inteira ao acaso. Enfrento todos os perigos. Ofereço-me à todos os altares. Rendo-me, afoita, à todos os rituais e, com facilidade, me perdôo. 

A partir de agora, só me resta o Inferno… 

E depois de tê-lo vencido, nada mais me será negado! Tudo me será lícito… Possuirei a verdade na alma e a peçonha entranhada na carne do corpo… Defender-me-ei das feras do bosque e do imundo das moscas. Vingar-me-ei de todos os inimigos! Meu sangue será arrojado e mau. Possuirei presas. Ganharei garras de harpia e serei corrosiva, amarga, cheia de veias e sangue pelo corpo cru. Andarei nua; pois não precisarei da proteção das roupas. Crescerá em minha pele uma carapaça dura, e em meus membros nascerão revestimentos de aço. Serei cruel! Ser-me-á permitido conter na boca, o bálsamo; e na cauda, o veneno! Tornar-me-ei invencível!” 

(Hölle Carogne) 

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