Holden em 2016

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Holden Caulfield não é do fundão como os outros caras. Quando aparece nas aulas, o que é raro, escolhe logo a primeira carteira. Não tem paciência pra nada. Joga o corpo de péssimo humor, desconfortável, como se a madeira lhe esmagasse os ossos. Com os dedos finos e ligeiros reclama aos montes via smartphone.

Eu sei disso porque eu tenho Holden como amigo no Facebook. Se trocamos algumas palavras pessoalmente foi muito. Mas a gente é da mesma sala, então é quase um dever social nos termos numa lista virtual mútua.

Não entendo como um cara com tantos seguidores consegue, em vida corpórea, ser tão ausente e ter pouquíssimos amigos.

Bem, na verdade, entendo perfeitamente…

Holden nunca está satisfeito. Dá para ver só pelo modo de andar.  Ora arrasta os pés, ora desliza rápido feito foguete. O mundo pesa sobre ele. Ele e a barba ralada. Ele e seu jeito descolado de tudo.  Ele e sua playlist que consiste em The Doors e Father John Misty.

O que espanta são seus cabelos totalmente grisalhos já aos vinte e poucos. E a altura exagerada que me força a olhar para cima nas raras vezes em que nos esbarramos no corredor.

“Acho que devemos nos focar na questão da hipocrisia da mídia”, ele me diz enquanto acende um cigarro.

Fazer trabalho de faculdade com Holden ou é se dar muito bem ou reconhecer o fracasso. Isso porque ele é sempre ácido. Presunçoso. Hipercrítico.

Ao mesmo tempo, noto que ele não reconhece o próprio talento e deixa para fazer tudo no último segundo. Ele sequer consegue perceber o quanto encantador é com seu visual vintage dos anos 50.

“Devemos nos focar no livro ‘Padrões de manipulação da grande imprensa’, aquele do… Do…”

“Do Perseu Abramo”, eu complemento.

Era óbvio que tínhamos que nos focar no livro. Tínhamos 24 horas para entregarmos uma resenha a respeito.

“Exato. A gente tem que traçar quais são os interesses do jogo de poder que movimenta as notícias da grande mídia. No duro, a gente precisa falar das fórmulas de manipulação da realidade e, consequentemente, da informação”.

Holden consegue às vezes ser muito repetitivo. Adora a expressão “no duro”, o que me irrita bastante.

“Está certo”, eu digo num suspiro. Por fora, pareço desinteressada. Mas a verdade é que eu o observo de soslaio. Tudo que eu consigo processar é  ele é o cara por trás de um dos blogs mais famosos do mundo.

É estranho pensar que “O Apanhador no Campo de Centeio” exista por causa das experiências dramáticas daquele cara logo ali, palpável, colega de facul.

Então ela olha para cima, meio que perdido na fumaça. Eu dou uma tossida arranhada, um tanto forçada. Ele se desculpa por fumar tão perto.

“Nunca pensei que fosse chegar até aqui, sabe? ”, ele confessa.

“Como assim, cara? ”

“Aqui. Na faculdade de jornalismo. No ambiente mais hipócrita de todos”

“Você pode ganhar a vida como colunista, afinal é um crítico exemplar”, eu digo na lata.

“Eu leio bastante, já é algum começo”

“Como assim, cara, você tem um blog com milhares de hits por dia”

“Você não entende”, ele suspira com os olhos. “O que eu quero é muito além disso, sabe? ”

Então noto que ele olha com certo desprezo para as minhas mãos, pras minhas unhas pintadas e me lembro de seus posts à la Hamlet sobre a beleza hipócrita feminina.

Num gesto inconsciente, eu me escondo no bolso do casaco, o que me deixa um tanto embaraçada. Eu me convenço de que sou feminista e que não estou no mundo para agradar homem, mesmo que este seja a encarnação do spleen que paira sobre os jovens de classe média alta que estudam na PUC.

“Acho que você é um grande perfeccionista”, eu digo. “Você nasceu que horas? ”

“Ah, por favor, não me diga que você acredita nessas bobagens de mapa astral”

“Ora, eu sou uma bruxa”

Ele ri.

“Não sei que horas nasci. Às vezes acho que nasci na cabeça de um homem qualquer. Um homem terrivelmente enfadado, no duro”

“O que, você está me dizendo que é um personagem? ”

“Não somos todos? ”, ele completa, um tanto perdido no olhar.

“Mas então, o que você realmente queria ser se você pudesse escolher? ”

Ele se ajeita na cadeira. Me olha profundamente. Acende mais um cigarro. Dá uma de suas tragadas.

“Como assim? Se pudesse fazer a merda da escolha?”

“Isso, se você tivesse escolha”

“Seja lá como for, fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo… E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser o apanhador no campo de centeio.”

E então eu finalmente entendo o motivo pelo qual o blog urbano mais visitado do mundo tinha aquele nome. Holden queria ser um apanhado num campo de centeio, ao menos virtualmente. E então todo o desprezo que eu fingia ter caiu por terra.

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

1 Comment

  1. Amei sua crônica sobre Holden Caufield! Na minha opinião, ele é um dos personagens literários que mais representou a juventude masculina diferente dos estereótipos sociais. Ele não é rebelde sem causa. Ele não faz o tipo maria-vai-com-as-outras, sem noção. Aliás, ele está sendo ele mesmo. E isso o condena a solidão em uma sociedade de aparências. Um dia desses, imaginei ele vivendo nos dias de hoje. Ele iria sofrer pra caralho com as redes sociais, com o politicamente correto e com a exploração de menores. E você acertou em cheio ao colocar o livro de Salinger como um blog. Acho que ele te convidaria pra fugir com ele, vocês seriam mochileiros ao redor do mundo, diria que te ama, embora sofresse com a falta de resposta do whatsapp da sua verdadeira amada. Enfim, sempre haverá um Holden dentro de nós lutando contra os phonies do mundo. Independente do tempo e do espaço.

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