Francesca Woodman e o delicado tema: suicídio

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 Francesca é uma das minhas fotógrafas favoritas. Ela se matou aos 22 anos e seu trágico fim é motivo para muitas especulações. Coloco o verbo no presente porque ela continua viva através da sua arte. Bom, eu estava pesquisando sobre ela quando me deparei com um texto no site IdeaFixa. Já pelo título eu pude imaginar o intento do conteúdo: “Francesca Woodman, a jovem fotógrafa suicida”. Quer algo mais sensacionalista que isto? Por que não se focar na sua arte? No que representa? “Ah, não. Vamos falar da garota louca que se matou. É divertido. Dá visualizações”. Foi isto que eu senti do começo ao fim. O texto me chamou a atenção principalmente pelo modo vulgar, rude e sensacionalista com o qual trata o assunto suicídio. Já começa definindo a moça com “Um ego frágil e uma personalidade obsessiva”. Claro. A autora do texto, Valéria Scavone, [ironia on] a conhecia pessoalmente. Na verdade, poderia transformar o que escreveu numa tese de doutorado a respeito. Por que, óbvio, se a menina queria se matar era por que tinha um ego frágil e uma personalidade obsessiva. Uau. Vamos defini-la, vamos limitá-la, vamos traçar um motivo pelo qual ela cometeu esse ato. Vamos diminui-la até que não reste mais nada. [/ironia off].

“Francesca teve sua ‘morte marcada’ 5 dias antes de seu pai, George Woodman, inaugurar sua exposição em Guggenheim, em Nova Iorque. Para adicionar mais drama à cena, ela dá um salto no breu de sua casa, no Lower East Side – Manhattan, e desfigura seu rosto bonito. Como um ‘borro’ surrealista”, escreve a autora. Sim, a moça passava por dificuldades, mas vamos nos focar superficialmente em como era bela. Ah, que terrível ela ter se matado e desconfigurado o lindo rosto… É quase perverso o modo com que a autora trata o tema, comparando sua morte com um “borrão surrealista”.

“No ‘mundo de cá’, ela nunca foi totalmente presente: uma moçoila não contemporânea que amava literatura vitoriana e gótica e usava roupas vintage”. O tempo todo a autora procura justificar a morte. Como se os gostos pessoais de vestimentas da Francesca já ditassem como ela via o mundo. Ela poderia estar presente sim usando as roupas que quisesse. Mas a autora procura mesmo é julgá-la, dissecá-la, como se isso fosse possível.

“A causa de um suicídio é sempre uma polêmica. Todos podem abordar a causa que imaginarem juntando fatos e conhecimentos sobre a decisão de determinada pessoa. Mas o mais provável, é que Francesca Woodman tenha vivenciado ao pé da letra a persona que criou. Uma resistência contra a cultura da conformidade e do puritanismo”.
A autora termina o texto colocando o que acha a respeito da morte da fotógrafa. Admite mesmo que tem a sentença nas suas próprias mãos, como se soubesse a fórmula capaz de desvendar a alma de Francesca. Falou, falou, falou. Falou o óbvio para todos, o que pode ser extraído das fotos de Francesca. Mas ficou navegando neste lamaçal de falsas conclusões. Não há como saber os motivos do suicida, mesmo que deixe uma carta, que escreva bilhetes, que converse a respeito. Pois trata-se da negação da própria existência, de uma vontade de parar a dor, enfim, seja como for: é muito íntimo, muito profundo. Cada pessoa tem sua própria visão a respeito da morte e como deseja terminar a sua vida. Alguns esperam morrer velhinhos e dormindo. Outros preferiram se jogar da janela de suas casas. Infelizmente, há sempre alguém querendo ditar as vontades íntimas das pessoas. Há muita incompreensão e sensacionalismo a respeito do tema. As pessoas precisam colocar motivos para aquilo que não entendem. É tanta sensibilidade que, atônitas, ficam presas na superfície. Não direi: o suicida é isto ou aquilo. Cada um é cada um. E, na sua singularidade, reconhece ou não os seus motivos mais íntimos.

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