Ética e Moral

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Há uma constante confusão entre o conceito de ética e o de moral. São tidos como sinônimos, podendo isso ser explicado por uma relação intrínseca entre os dois. O texto a seguir busca, ao invés de propor definições absolutas, expor ideias diversas que nos levam a perceber várias diferenças entre o conceito de ética e o de moral, junto com a percepção da definição de ambas.

Ética e Moral: Suas relações e diferenciações

Começando com a Ética, uma das áreas de conhecimento filosófico que estuda as relações humanas no intuito de apresentar avanços sociais. Muitos estudiosos dessa área são leitores ávidos de pensadores do passado, e buscam, a partir de informações do presente, compreender o contexto moral atual.

A moral não é uma área do conhecimento. Moralidade é um nome que se refere ao conjunto de ideais, paixões e pensamentos que formam o modo de ser de um indivíduo. Se este modo de ser será ético ou não são outros quinhentos.

No senso comum não é raro ver o termo ética sendo utilizado no sentido de moral. Exemplificando, um representante de uma determinada seita religiosa afirmando que segue valores éticos, quando prega valores morais. Ele pode estar pregando o preconceito contra minorias, provindo de puro moralismo, mas usa a palavra “ética” para dar suposta legitimidade ao seu discurso. Não é necessariamente um erro conceitual tentar usar a palavra “ética” em si para o fim de descrever sua própria moralidade, mas isso se o ideal de moralidade em questão seguir a mesma busca dos filósofos e demais pensadores que se dedicaram ao estudo da Ética, a busca pelo aperfeiçoamento de si, pela afirmação do valor da empatia, pelo enriquecimento das relações na vida em sociedade. Mas não faz qualquer sentido conceitual pregar uma ética individualista. Ética pode vir de Ethos, que significa “modo de ser”, mas a história deste conceito na filosofia não remete à mera tradução do termo, mas no que ele se tornou e como foi adotado nas ciências humanas modernas.

Moral possui diversos usos, variando de um termo neutro a ser adjetivado para um termo bom ou ruim em si mesmo, dependendo do contexto. Ou seja, descrever uma moral como boa, perversa, mas também pode ser utilizada como algo intrinsecamente bom ou ruim. Por exemplo dizer que uma pessoa é muito moral, no sentido de alguém coerente, mas também pode-se chamar um sujeito de moralista, que a depender do contexto da frase pode muito bem ser visto como dizer que é um sujeito autoritário, que não segue uma atitude ética, podendo ainda ser um hipócrita que prega uma certa regra moral mas age sem ela. Aí temos uma diferenciação entre os termos.

Existem várias formas de definir ética e moral. A dos filósofos que seguiram Kant, esses que hierarquizaram ética por sobre a moral, por exemplo:

Schelling: “A moral em geral coloca um imperativo que só se dirige ao indivíduo, e exige apenas a absoluta personalidade do indivíduo; a Ética coloca um imperativo que supõuma sociedade de seres morais (observe que moral aqui está sendo utilizada como algo positivo) e assegura a personalidade de todos os indivíduos através daquilo que ela exige de cada um deles. (e então temos a proposta da Ética para a moralidade dos indivíduos, no intuito de assegurar uma sociedade justa e produtiva)”. Para Hegel, a ética seria o reino da moralidade.*

Mais uma proposta seria o ideal de ética de H. Spencer: “A Ética como um fragmento de um todo de que ela é inseparável e que é o estudo da conduta universal (Data of Ethics, cap. I).”*

Limitar o conceito de ética a um sinônimo de moral seria um reducionismo, ignorando a construção histórica que se deu na filosofia, e também uma quebra de seu lado voltado para a sociedade concreta em relação ao seu lado universal, tão precioso dentro de suas definições, por motivos que serão demonstrados.

A ética, além de outras coisas, é a filosofia da moral, seu estudo e polimento. Estudar a moral por meio da ética é buscar aprimorar a moral humana, torná-la cada vez mais correta, em termo mais geral, aperfeiçoá-la. A observação da realidade concreta pode levar à conclusão de que um indivíduo não é capaz de se tornar um seguidor absoluto da moral humana perfeita, é uma meta utópica. Porém, é em busca de perfeição que se aprimoram os valores humanos, para gerar um sistema social cuja lei não dependa da moralidade individual que pode cair na hipocrisia, mas sim de sua aplicação, do uso de seus recursos para gerar igualdade de Direitos. Não é necessário acreditar que um dia essa perfeição será atingida, mas simplesmente entender que a busca pela perfeição é estar constantemente aperfeiçoando o ideal, o que nunca deixará de ser algo positivo e produtivo.

Segundo Espinosa, a felicidade consiste na passagem de uma perfeição menor para uma maior, e a tristeza, de uma maior para uma menor. Para o filósofo do século XVII, para uma pessoa ser verdadeiramente feliz, ela precisa conseguir se aperfeiçoar. Não “ser perfeita”, mas estar na constante busca por perfeição. A moral (individual), dentre muitas outras coisas, está para a Ética (área do conhecimento) como um objeto de estudo, e em uma sociedade que valoriza esta ciência, os valores morais comuns são aperfeiçoados pelo avanço do conhecimento e estudo da ética. Estudo que se faz, como tantos estudos filosóficos, por meio de questões como “mais vale um homem milionário frente uma cidade com fome, ou uma cidade de iguais sem nenhum milionário?”, e como resolver problemas como este sem recorrer à barbárie, são questões que repercutem nas políticas econômicas e sociais de qualquer país, e que mesmo sendo lidadas pelos mais diversos valores morais, muitas vezes não o são por meios éticos.

            “(…) a ética exprime a maneira como uma cultura e uma sociedade definem para si mesmas o que julgam ser o mal e o vício, a violência e o crime e, como contrapartida, o que consideram ser o bem e a virtude, a brandura e o mérito.”**

A maioria das pessoas, éticas ou não, consideram-se pessoas morais. Sua moralidade pode provir de uma ideologia, uma religião ou suas experiências pessoais. A ética não se limita por ideais específicos ou mandamentos religiosos, ao menos muitos dos estudiosos buscaram, por métodos racionalistas, evitar o quanto possível as influências de pontos de vista limitados. Pois há sempre uma tendência de que a moral influencie na busca ética, uma vez que ela influencia as pessoas, e os estudiosos da moral são pessoas. Por exemplo, se Fulano busca definir a moral perfeita mas ao mesmo tempo é influenciado pela moral específica da sua sociedade de origem, Fulano possivelmente irá acabar por definir uma moral diferente da moral que Ciclano, em outro país e cultura, poderia definir. Daí parte uma qualidade do filósofo Bento de Espinosa, considerado um dos poucos que fugiu da moral do contexto em que vivia para definir uma Ética o mais universal e racional o possível.

Mas mesmo Espinosa, em dado momento, fez uma declaração a partir da moralidade específica de sua época, ao dizer que a busca pela defesa dos animais é um sentimento feminil, num sentido pejorativo é claro. Podemos analisar a afirmação e levar em conta alguns fatores: a sociedade européia, no século XVII, não tinha lá a melhor produtividade de alimentos. Não seria pragmático ser um ambientalista em prol dos animais, na época, enquanto não haviam opções conhecidas, técnicas, para suprir o consumo da carne. Nesse raríssimo caso Espinosa decidiu escrever uma proposição que, diferente da maior parte de sua obra, não era universal, mas específica para o contexto de época.

 ética não necessariamente influi na moral, uma vez que seu domínio depende muito do comprometimento intelectual dos envolvidos no conhecimento ético, ou seja: Assim como o antropólogo pode passar despercebido pelas linhas do tempo, a ética passa despercebida pelas decisões políticas e sociais de uma nação. Um ataque de proporções tremendas como ogivas nucleares não possui qualquer justificativa ética, e ainda assim existem discursos moralistas da época defendendo a medida. A moralidade pode ser totalmente desprovida de justificativas éticas.

As ações com justificativas éticas não poucas vezes vão contra os interesses de grupos de poder social, aliás, podem lhes ser extremamente inconvenientes. Fato é, podemos dizer, que os moralistas buscam definir o significado da ética como seus próprios valores morais, que eles buscam impor sobre o povo. O chamado “código de ética” em empresas que usam o termo no sentido de “regras de convívio social” ou “regras de tratamento do consumidor”, são técnicas frias e calculadas. Também temos a ética religiosa, neste contexto o conceito é usado como conjunto das regras morais de uma determinada religião. Como antes dito, não é um uso necessariamente equivocado do termo, mas não é a definição filosófica do conceito.

Colocando portanto ambos os conceitos em questão, na prática, temos: A moral, definindo as (e definida pelas) decisões do indivíduo; a ética, que pode ou não ser observada nas decisões do indivíduo, e a Ética enquanto área do conhecimento que busca estudar e explicar os motivos pelos quais ele tomou uma e não outra decisão moral (Ética enquanto estudo do Ethos) e, ao mesmo tempo, chegando a conclusões que, idealmente, podem se tornar valores éticos que uma pessoa moral que busque ser correta pode vir a conhecer e seguir.

Uma vez que a ética possui esse caráter de aperfeiçoamento da moral, pode-se dizer que, ao menos idealmente, seu estudo prima por alcançar uma moral universal, essa seria a moral mais ética. Nesse caso, temos o “ético” enquanto adjetivo, não mais simplesmente o estudo da moral, mas sua qualificação perfeita. A partir desse princípio, podemos concluir que uma pessoa pode muito bem ser extremamente moral em suas decisões, e nenhum pouco ética. Ao mesmo tempo, uma pessoa extremamente ética é, necessariamente, uma pessoa de boa moral, quanto mais avançados os estudos éticos estiverem em sua sociedade (ou somente seus próprios estudos sobre a Ética).

Mas não por estar presente nas decisões e hipocrisias dos indivíduos, a moralidade deixe de ser uma estrutura social. Pois existem muitos moralistas com ideais em comum que se unem para atingir o fim de disseminar sua moral para todos os indivíduos da sociedade. Neste caso:

            “A moralidade é uma totalidade formada pelas instituições (família, religião, artes, técnicas, ciências, relações de trabalho, organização política, etc.), que obedecem, todas, aos mesmos valores e aos mesmos costumes, educando os indivíduos para interiorizarem a vontade objetiva de sua sociedade e de sua cultura.”**

Uma pessoa moral muitas vezes se guia pelos padrões que existirem em sua sociedade, e em suas experiências de vida. Uma pessoa ética se baseia em constantes reflexões racionais acerca das decisões que deve tomar em contextos que envolvem valores morais, trata-se do refinamento do intelecto, da percepção das necessidades humanas dentro de um ideal amoroso (contrário ao odioso), uma vez que prima-se por gerar um contexto de liberdade e harmonia mútua.

Sobre a liberdade e harmonia mútua, trata-se de uma conclusão ética acerca do que a moral necessita ser para atingir um ponto de bem estar social, não é uma conclusão eterna e perene, uma vez que os estudos éticos do passado nem sempre consideraram liberdade como uma necessidade humana e, por incrível que pareça, ainda existem os que não consideram-na como tal. Daí que podemos nos lembrar do que foi falado antes: O ser humano moral não necessariamente é um ser humano ético. A depender do ponto de vista, alguns moralistas podem pregar que manter um escravo é um ato moral. E isso já foi pregado pela totalidade das instituições de muitos países e povos.

Explicamos então um lado do conceito de ética que é caracterizado por um idealismo futuro. O ideal de que muitas vezes as considerações humanas sobre a moral são limitadas, mas a ética é universal a princípio e poderá sempre aperfeiçoar a sociedade, o convívio. Esse lado é um dos lados. Outro lado trata da ética na realidade concreta ou seja, o que já foi desenvolvido intelectualmente sobre a ética, pelos estudos feitos dentro da sociedade. Ou seja, o que é considerado atualmente como melhor para todos, pois universal significa abrangência total.

Esse lado idealista pode ser exemplificado. Vamos supor um determinado período histórico onde o conceito de ética está nos seus princípios, acaba de surgir a ética como um estudo da moral. Mas a escravidão ainda é aceita na sociedade, e os próprios filósofos da ética, ainda não perceberam que liberdade é um ideal fundamental para a ética, que deve ser incluso na prática moral (ou perceberam, mas não acham que faz sentido aplicar isso aos escravos, por motivos culturais). Logo, temos um contexto onde, embora a ética exista e busque aperfeiçoar o julgamento acerca da moral, ela não está sendo plenamente considerada e aplicada. Não é motivo para anacronismo, mas para refletir que o conhecimento das melhores formas de convívio evolui, a prática dessas formas se adapta, e que em todas as épocas, até os dias atuais, essa prática não é adotada por todos.

O idealismo está justamente nisso: Uma vez que a ética possui um lado de “universalidade”, apenas idealmente pode o homem vir a conhecê-la totalmente em sua imperfeição humana, ele não conhecia a parte da ética que demonstra a escravidão como algo cruel, logo, embora os filósofos da época se considerem éticos, não o são devidamente. Porém o lado concreto da ética se refere à possibilidade de, frente a imperfeição dos indivíduos, formar um todo, uma sociedade de maneira a, considerando as diferenças, promover um convívio de bons valores, valores éticos.

Progressos ocorrem, o conhecimento ético aumenta, porém lacunas sempre existirão. É como disse Sócrates, “Só sei que nada sei”. Quanto mais o pensador descobre, mais ele percebe que seu conhecimento é incapaz de abranger tamanha quantidade de informações presentes na realidade, ou possíveis no intelecto.

De forma geral, e talvez generalista demais, a ética é definida pelo contexto intelectual de uma sociedade, enquanto a moral, pelo contexto sócio cultural. Guerras podem definir ferrenhamente a moral de uma nação, ainda mais no que tange às suas considerações sobre a dignidade de uma nação rival. Enquanto a ética, idealmente, permanece considerando a violência da guerra como algo cruel e negativo. “Heróis” poderão ser moralmente ovacionados, enquanto eticamente julgados por tantos outros que eles mataram.

Duas grandes diferenças entre a ética e a moral, portanto, são suas práticas, e o caráter dos seus idealismos. A ética é praticada como avaliação da moral, a moral é praticada como atitude social. A ética possui um idealismo que busca um dia alcançar a perfeição de suas considerações sobre o que é mais correto a se fazer, enquanto o idealismo da moral encontra-se na busca por conseguir ser plenamente moral, considerando que a moral em si já é considerada como perfeita, da forma como ela é defendida no contexto social em questão. A ética sabe que não sabe de muitas coisas, a moral acredita já saber tudo o que importa.

Quem busca se guiar pela moral, não busca aperfeiçoar o ideal de moralidade em si, mas sim agir perfeitamente nos termos já definidos da moral da sociedade na qual vive. Busca ser o mais perfeito herói, e não definir o que é o heroísmo, uma vez que isso já está definido. Já a ética busca criticar o herói, será que ele é mesmo um herói? É por isso que a moralidade é tão citada e considerada na política, ela vende seu produto de acordo com o que já existe, e a ética é muitas vezes tão mal aceita, pois ela busca criticar, racionalmente, muitas coisas que podem ser valorosas às ambições de muitos.

Fontes das citações:
* Vocabulário técnico e crítico da Filosofia, André Lalande.
** Convite à Filosofia, Marilena Chauí.

Para aprender mais:
http://www.coladaweb.com/filosofia/moral-e-etica-dois-conceitos-de-uma-mesma-realidade

Jornalista com interesse nas áreas de filosofia, política, economia e ativismo social. Bastante convicto que não existe imparcialidade em nenhum meio de comunicação, declara sua posição em prol da ética e dos direitos humanos. Defende que o modelo econômico cartalista explica o real funcionamento da economia mundial, mesmo quando ortodoxos visam impor uma visão ilusória para defender, por trás dos panos, que a renda se dirija aos detentores das dívidas nacionais e do grande capital. Defende uma política socialmente liberal, que proteja os indivíduos das forças de mercado, totalmente oposto ao conservadorismo moral, político e econômico. A existência do comércio livre é desejável para os consumos variáveis do dia a dia, porém os bens de subsistência devem ser regulados firme e dignamente pela democracia, como bens da República. Saúde pública e Educação gratuita universal de qualidade, mídia livre e distribuição de renda até um nível de vida agradável a todos, isso deveria ser o básico do básico para guiar qualquer visão econômica. Infelizmente não é.

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