Espelho, espelho meu

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(Foto: SXC / Reprodução)
A polêmica sobre a invasão do instituto Royal e o resgate dos Beagles, na última sexta-feira (18), movimentou os debates a respeito da utilização de animais em testes de medicamentos, vacinas, pesquisas relativas ao câncer e tantas outras. Em suma, os argumentos mais comuns são: “Querendo ou não, animais são inferiores aos seres humanos, pois não têm o mesmo nível de consciência que nós temos, logo, é mais ético fazer pesquisas com eles” e “A sobrevivência humana justifica qualquer ato. Temos que escolher o preço que vamos pagar. Já que agora as melhores opções atuais são os testes nos animais, então que assim seja”. Tais justificativas recorrem apenas aos argumentos racionais e tampam os ouvidos quanto ao sofrimento de seres vivos sencientes. Falar em sofrimento e afeto, para os cegos racionais, trata-se de apelo à emoção. De fato, é no mínimo coerente defender a própria espécie. Mas, infelizmente, muitas das pessoas que falam o quanto se importam com seus semelhantes estão muito distantes de compreender e mudar a realidade em que vivem. 
Quando o ser humano se olha no espelho, é possível que veja apenas sua face mais politicamente correta, aquela que ele pinta como eticamente aceitável. Tudo que apita em sua consciência pode ser justificado, distorcido ou simplesmente eliminado, afinal, todos precisamos de uma boa noite de sono. Mas a visão que temos de nós mesmos, a de que estamos fazendo o máximo dentro das nossas limitações físicas e emocionais, está muito longe do real. Já passamos da hora de deixarmos os livros de autoajuda de lado para nos focarmos na desconstrução da nossa imagem de seres bem intencionados. Como diz o ditado popular, de boa intenção o inferno está cheio. Apenas assim poderemos olhar nosso reflexo e tentar mudar, de fato, a imagem no espelho. 
Vejamos os argumentos utilizamos e algumas das ações que questionam a prática humana:
1 – “O ser humano é superior a todas as outras formas de vida”
Pelo que se pode observar, a mesma pessoa que afirma algo parecido não se importa, muitas vezes, por outro lado, com o fato de que, apenas aqui no Brasil, cerca de 490 empresas estão na lista suja do trabalho (humano) escravo. Nem ao menos lê a lista e de exigir mudanças por parte de tais empresas. Segundo o Atlas do Trabalho Escravo no Brasil, o perfil do escravo brasileiro do século 21 é: “migrante maranhense, do norte de Tocantins ou oeste do Piauí, de sexo masculino, analfabeto funcional, levado para as fronteiras móveis da Amazônia, em municípios de criação recente, onde é utilizado principalmente em atividades vinculadas ao desmatamento”. Para a pessoa desinformada, parece que alguns humanos são mais superiores que outros. Sem contar que o desmatamento é um  problema sério que atinge a todos nós. O problema de nos acharmos superiores a tudo é que podemos justificar nossa face predatória e, consequentemente, a destruição de nós mesmos. 
2 – “A sobrevivência da espécie justifica qualquer ato não ético, mesmo o sofrimento de animais em pesquisas”. 
O que, na verdade, a pessoa que se foca na “sobrevivência da espécie” faz para que isso seja possível? Se a pessoa fuma perto de outras, faz sexo sem proteção com diversos parceiros e não se importa em transmitir doenças, consome cancerígenos como se não houvesse amanhã e ainda ensina seus filhos a fazerem o mesmo, colocando refrigerantes em mamadeira e os entupindo de fast-food, ela, na verdade, não liga nem um pouco para a sobrevivência. Quando a pessoa detesta ouvir a palavra “sustentabilidade” e ignora todos os efeitos do aquecimento global, ela não se interessa pela a continuidade da espécie. Segundo o site Terra, A ONG Global Footprint Network “calcula todos os anos o dia em que o consumo da humanidade de recursos naturais (alimentos, matérias-primas, absorção de dejetos e de CO2…) ultrapassa o que a natureza pode gerar em um ano sem reduzir seu capital”. Neste ano, o “Dia da Sobrecarga” (“Overshoot Day”) aconteceu dia 20 de agosto, e esta data é antecipada a cada ano. A Terra conseguia suprir as nossas necessidades até os anos 70. A partir de então, por conta do elevado consumo da população, a nossa dívida ecológica apenas cresce. “Os déficits ecológico e financeiro são as duas faces de uma mesma moeda. Em longo prazo, os países não podem enfrentar um deles sem se interessar pelo outro”, afirmou Alessandro Galli, diretor regional da Global Footprint Network para África do Norte e Oriente Médio. Em suma, estamos consumindo muito mais recursos que temos. Logo, logo a conta vai chegar, mas são poucos aqueles que realmente se preocupam com atitudes sustentáveis. Na verdade, são chamados de “ecochatos”. Alguns ainda dizem que os vegetarianos (mesmo aqueles que pensam no impacto ambiental) são hipócritas porque não defendem os insetos (até mesmo as pragas!). Ignoram Malthus e só se focam nos problemas imediatos. Realmente, percebe-se o quanto se preocupam com a sobrevivência da espécie.
3 – “O ser humano é superior a todas as outras formas de vida”
Mas, se a pessoa não se importa em usar uma roupa de marca fabricada por outro humano escravizado, parece que, na verdade, a peça de roupa é mais importante. Grifes famosas foram acusadas de usar trabalho escravo. Boicotar a moda em detrimento de outro ser humano nem pensar, não é?
(Foto: Anali Dupré / Reprodução)
Além disso, algumas marcas de smartphones parecem ser superiores a alguns seres humanos. O documentário “Celular Manchado de Sangue” (Blood in the Mobile), dirigido pelo dinamarquês Frank Piasecki Poulsen, lida com o lado cruel da fabricação de celulares no mundo. Para extrair os minerais usados na indústria, crianças trabalham praticamente sem cessar e sem condições mínimas de segurança nas minas do Congo. A fabricação de muitos desses produtos financia a guerra em países africanos e a escravidão de crianças. Contudo, um celular novinho parece ser mais importante que elas.
Ademais, a pessoa nada faz ao saber que o lixo eletrônico que utiliza vai parar na África. Segundo informações do site Gizmodo, enquanto os consumidores clamam pelos eletrônicos mais recentes, os nossos dispositivos digitais mais velhos envenenam uma geração de crianças em Gana. O fotógrafo Michael Ciaglo visitou o maior local em que isso acontece no país. Jovens e crianças queimam o lixo eletrônico para extrair o cobre e ganhar tostões. Supostamente, chegam a ganhar menos de quatro dólares por dia, enquanto produtos químicos tóxicos são liberados no meio ambiente, contaminando a terra, ar, água, e trabalhadores, o que prejudica seu desenvolvimento físico e mental. 
(Foto: Michael Ciaglo / Reprodução)
Conclusão: o ser humano é superior a todas as outras formas de vida. Mas tal afirmação, para alguns, é apenas verdade quando se trata da própria pessoa. Aquelas que nem se importam com a vida do vizinho, sequer dão a mínima para a espécie toda. Aquelas que dizem que a sobrevivência da humanidade justifica qualquer ato não ético, nada fazem em prol disso, limitam-se apenas em concordar com trabalhos científicos e deixam tudo na mãos de terceiros. Para preocupar-se realmente com o futuro da humanidade, é necessário fazer o mínimo por todos: exigir ética de empresas, ter hábitos sustentáveis, cuidar da própria saúde e de terceiros e lutar por um mundo mais digno para o maior número possível de pessoas, não apenas para alguns. Senão, ao olharmos para o espelho, é muito possível que ele se quebre. 

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

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