Desabafo de um cidadão: “Não há diálogo por parte do poder público”

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Roger (Foto: Arquivo Pessoal / Reprodução)
Ele não tem medo de usar a sua principal arma: a própria voz. O técnico em eletrônica e estudante de música, Roger, contribui para a divulgação das manifestações que dominam a agenda política do país desde junho. Também divulga, pelas redes sociais, os abusos policiais cometidos em protestos. Semanalmente vai até a Câmara para entregar donativos aos participantes e apoiá-los. Mas não gosta de ser chamado de manifestante. “Sou apenas um cidadão comum, um pouco mais politizado que a maioria, indo às ruas ocasionalmente lutar pelos meus direitos básicos”, diz. Mas sua luta tem um preço. Rogério chegou até mesmo a adoecer por causa do contato com gás lacrimogênio e teve que se afastar um pouco dos protestos. Ele descreve as manifestações como “um grito de basta, um pedido de socorro de um povo que não aguenta mais péssimos serviços, corrupção e descaso”. 
 Leia a entrevista completa: 
 Você acha que a inexistência de lideranças prejudicou o diálogo entre os manifestantes e o poder público? 
Não há diálogo por parte do poder público. Eles se aproveitam dessa inexistência de lideranças notórias para justificar a falta de diálogo. Até porque as reivindicações são por ações que não interessam aos políticos. A própria ideia de liderança está em crise, filosoficamente falando. Não que não possa existir, mas de forma espontânea e não imposta. 
O que pensa a respeito da tática de manifestação Black Bloc? Você considera a violência como um meio legítimo de protesto? 
Eles, como qualquer outra parcela da população, têm o direito de se manifestar. Pessoalmente, presenciei apenas a reação diante de violência policial. Sou contra a violência, mas um fato indiscutível é que violência gera violência, assim como a resistência é um direito e até mesmo um dever do povo. Não tenho pena de agências bancárias que indiretamente são responsáveis pela tragédia de muitas famílias. Entendo o simbolismo de suas vidraças quebradas. Porém, não apoio a depredação de estabelecimentos comerciais e patrimônios históricos. Na verdade, tenho plena convicção de toda a responsabilidade do sistema econômico em todas as mazelas da sociedade e de toda a revolta associada. Seja a revolta consciente ou não disso. 
 Você sofreu algum tipo de repressão policial? Qual foi a cena mais intensa ou comovente que você vivenciou nas manifestações? 
Fiquei emocionalmente abalado após algumas semanas de grande envolvimento. A luta é muito sofrida e é preciso muita coragem para meter a cara. Na primeira manifestação do Maracanã, que foi na região da estação de metrô de São Cristóvão, houve uma verdadeira emboscada por parte da polícia. Foram horas cercado sem conseguir sair, respirando pimenta e gás lacrimogêneo. Pessoas foram cercadas e aprisionadas dentro da Quinta da Boa Vista. Naquele dia, fiquei impressionado com a truculência policial e tive complicações respiratórias por causa do gás. Ver mulheres sendo arrastadas pelos cabelos é uma cena horrível, pode ter certeza. 
Muitos protestaram contra a realização de megaeventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Você acha que o Brasil está realmente preparado para receber tais eventos?
 Não está preparado. Sempre fui contra. O povo não foi consultado. A copa, em especial, foi uma jogada política articulada pelo governo. Os outros países cancelaram a candidatura em favor do Brasil e pronto. De um dia para o outro, falava-se em mega investimentos e legados mil. Já está claro que não haverá legados representativos para a população. Não houve investimentos estruturais significativos. Duvido que a Baía da Guanabara seja despoluída. O único legado planejado desde o início pela classe política foi o das comissões em forma de propina, gerada pela enorme quantidade de licitações e contratos fraudulentos. 
O que você pensa a respeito do protesto das atrizes da rede Globo que postaram fotos de “luto” pela decisão do Ministro Celso de Mello em votar a favor da aceitação dos embargos infringentes no processo do mensalão? 
 Não defendo os mensaleiros, acho que eles têm de ir para a cadeia. Não defendo classe política alguma, na verdade. Salvo raras exceções, política não é lugar para pessoas de bem. Tornou-se um antro de corruptos, ignorantes, fanáticos religiosos. São corruptos, em sua maioria. Inóspito. Ainda assim, cabe a observação que a Rede Globo quer, claramente, o governo burguês e aristocrata de volta. Um império capitalista como a Globo não possui interesse algum em manifestações populares e governos de esquerda (ainda que de pseudo-esquerda, cada vez mais afastados de suas ditas ideologias). Os atores da Globo nada fizeram sobre as manifestações, assim como grande parte da classe artística. O manifesto de seus artistas quanto aos mensaleiros é mais uma questão de interesses políticos do que uma sincera expressão desejosa de um país melhor com mais oportunidades para o povo carente. 
A melhoria da educação brasileira foi um dos principais temas das manifestações. Recentemente, os professores da rede municipal do ensino foram retirados à força da câmara do Rio de Janeiro. Como você avalia a reação do poder público em relação aos professores? 
 Considero a violência contra uma classe que deveria ser reverenciada absurda e injustificável em qualquer circunstância. É difícil de entender os pormenores das negociações, mas está claro que a condução da situação por parte da prefeitura está sendo feita de forma autoritária e desumana. Não há voz para os professores na mídia que também tenta reduzir o movimento. Teorias conspiratórias à parte, não é de interesse de nenhum poder público ou econômico investir na instrução do povo. Onde estão os Globais agora? 
Por fim, uma pergunta bônus e geral: 

 Você acha que há uma crise na representação política brasileira? O que fazer para superá-la? 
 O sistema político econômico do mundo está falido. Ou seja, a crise é de métodos e valores. O capitalismo não deu certo e, assim como o socialismo, fracassou. Ambos são baseados em autoritarismo e acabam sendo pretextos para o fascismo. Falando sucintamente de capitalismo, não existe autorregulação do mercado e políticos e empresários trabalham juntos para enriquecerem cada vez mais. Logo, não há meritocracia enquanto o povo morre de fome e se marginaliza. Quanto ao socialismo, cerceamento de liberdade, censura e concentração da riqueza nas esferas governistas também está longe de ser algo justo. Tenho absoluta convicção que uma mudança radical nas bases do sistema se faz necessária. Os políticos gastam 99% de seu tempo debatendo alianças, maquinando ataques a inimigos, bolando negociatas e preparando campanhas publicitárias com fins eleitoreiros… Resumindo, não têm tempo para pensar em melhorias estruturais dos nossos serviços. Não usam o seu tempo em prol da população, apenas pensam em seus projetos pessoais. Existe um óbvio conluio, ainda que automático de um modo geral, entre os donos do capital, políticos, militares, líderes religiosos e a grande mídia para manter as coisas como estão. Isso nada tem a ver com teoria da conspiração, é algo óbvio na verdade. Para que mudanças? Para que dividir minha fortuna? Para que abrir mão do poder que conquistei? Essa total falta de respeito para com o próximo, essa total desumanidade e ignorância, a meu ver, é incentivada pelo lucro e poder associados. O mundo precisa de uma revolução ética, uma revolução de valores onde o dinheiro sequer precisa existir. Temos os recursos em abundância… Para que colocar barreiras como papel moeda entre nós e nossas necessidades básicas? Moradia, alimento, saúde, lazer, carinho, direito de ir e vir… Isso tudo está mais a mão do que imaginamos. Basta aguçarmos nossa visão e quebrarmos paradigmas tão inúteis como os que nos têm aprisionado a esse modelo ultrapassado em que vivemos. A ciência deve ser valorizada. A tecnologia aliada a premissas éticas básicas é capaz de gerir o planeta a fim de que todos tenham abundância e possam trabalhar de acordo com a sua aptidão. Contribuindo para um mundo melhor e mantendo sua saúde física e mental. Indico um filme chamado “Zeitgeist Moving Forward” como obrigatório para quem deseja abrir os olhos e perceber claramente como a sociedade está doente e precisando de mudança urgente. São vários filmes dessa série, mas esse documentário resume bem a questão…

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

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