A democracia que já era vidro, se quebrou

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Queria escrever um texto de repúdio sobre a votação na câmara que ocorreu no último domingo e que deu abertura ao processo de impeachment da presidenta Dilma. Sem conseguir escrever sozinha, pedi ajuda à galera do Facebook. Perguntei como estavam se sentindo, o que estavam pensando. E então juntei os relatos num só texto, como se fôssemos uma única voz. Os nomes estão no final. 

17/04/2016- Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. Na foto, Deputados da oposição chegam ao plenário. Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados
17/04/2016- Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. Na foto, Deputados da oposição chegam ao plenário. Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados

Nunca fui uma pessoa que tem crise de ansiedade, mas nesse domingo acordei às seis da manhã e não consegui mais dormir, preocupada com o país. Quando acordei, recebi mensagem de uma amiga, que também não dormiu bem. Brincamos se isso tudo não era um castigo divino porque na nossa imatura adolescência sonhávamos em ter nascido na ditadura, para lutar, para defender os nossos ideais democráticos.

Hoje, adulta, eu tenho consciência que eu não gostaria de viver aquilo. Não queria que meu país tivesse em sua história mais uma passagem tão triste e dolorosa. Não queria que pessoas tivessem sido torturadas para termos nossa democracia, que nem é tão democrática assim.

A divisão do povo brasileiro resulta na morte da democracia. Não só da democracia, mas dos direitos dos trabalhadores, das minorias, das diferenças. Não vou dizer que concordo com o governo atual (longe disso) mas não se pode negar o progresso nesses tópicos.

Afinal, como que deixamos nos levar a ponto de levantarem um muro (veja bem, um muro!) em Brasilia?

Brasília - Estrutura com tapumes de aço no meio do gramado da Esplanada, erguido para que manifestantes favoráveis e contrários ao pedido de impeachment possam acompanhar a votação, recebe cartazes e pichações com mensagens (Antonio Cruz/Agência Brasil)
Brasília – Estrutura com tapumes de aço no meio do gramado da Esplanada, erguido para que manifestantes favoráveis e contrários ao pedido de impeachment possam acompanhar a votação, recebe cartazes e pichações com mensagens (Antonio Cruz/Agência Brasil)

O resultado em si, na verdade, eu já esperava. Eleições com empate técnico criam uma oposição fortíssima, que outros momentos não criam. O impeachment ainda é consequência do empate técnico vivido em 2014. Nenhum lugar tem mais “oposição” a qualquer “situação” do que justamente seu ambiente de trabalho.

Mas ao longo da votação, eu descobri o que é vomitar de nervoso, de raiva, de tristeza. As justificativas foram intragáveis. Meu corpo queria colocar aquilo para fora. A ficha ainda não caiu mesmo após tudo ouvi da boca desses 367 deputados que votaram a favor de colocar nossa democracia em risco. Eu não posso aceitar meu voto sendo desrespeitado. Não posso aceitar essa realidade e achar que é normal. Não sei se consigo conviver com pessoas que pedem para o golpe acontecer.

Parte triste: ver a maioria corruptos “lutar contra corrupção”. Parte “engraçada” um deputado falar “pela paz de Jerusalém!” que misturou um riso com mistura de ridiculosidade e desespero. Indignação: por apenas citarem suas famílias e Deus, confirmando que o estado não é laico! Horror: pelo cara que falou “não querer educação sexual e mudarem o sexo das crianças”. Decepção: Apesar de ser palhaço Tiririca nunca ter faltado… faltou ao respeito!

17/04/2016- Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados
17/04/2016- Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República.
Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados

Como aqueles homens podem representar o país? O que eles têm a ver com a gente? O caso do Impeachment não é válido, sequer as pedaladas são motivo.

Deixaram claro que estão ali defendendo interesses próprios, interesses de suas famílias (interesses financeiros mesmo), interesses de uma minoria muito privilegiada do país. Senti asco ao olhar o rosto de desprezo, o tom de sarcasmo, a imaturidade, de ver o caráter de quem “me representa”.

17/04/2016- Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados
17/04/2016- Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República.
Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados

Na defesa de cada voto, me doía ver deputados colocando seus parentes e Deus como justificativa… O congresso deveria representar o país todo e não defender um e outro, ainda mais quando suas mãos estão mais sujas do que daquela que está sendo “julgada” ali… Só sei que é triste e nós vamos sim pagar esse pato, esquerda, direita, centro e etc., porque democracia deve funcionar para todos, mas a grande maioria ainda não entendeu isso…

17/04/2016- Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. Na foto, Presidente da Câmara, dep. Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados
17/04/2016- Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. Na foto, Presidente da Câmara, dep. Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados

Como posso ter esperança no meu amanhã se ladrões sempre ganham ? Parece mesmo orquestrado pelo próprio diabo, vejo no sorriso do Cunha que vai se safar, vejo no bando de ladrões que votaram sim, vejo na felicidade do povo que não sabe o que fez.

É um circo comandado pelo Cunha “pelo fim da corrupção”. Acho curioso como o PT é pintado pela mídia e pela oposição como símbolo que carrega em si todo o peso da corrupção, me parece uma forma de controlar a ânsia do povo Brasileiro por um país melhor, usando a vontade do povo para fins políticos.

É utopia achar que caindo a presidenta, Temer e seus comparsas irão cair também. O povo não é respeitado a prova viva disso foi essa votação. Colocar Temer e Cunha não é nem perto de significar o fim da corrupção. É preciso tomar bastante cuidado com o monstro que se alimenta para devorar o “inimigo”, ele pode ser intratável depois. É a maior mentira coletiva que eu já vi. É um golpe comandado por um dos homens mais corruptos da história do país. É um dia pra gente se envergonhar como brasileiros para o resto de nossas vidas.

17/04/2016- Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. Na foto, Foto: J. Batistta/ Câmara dos Deputados
17/04/2016- Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. 
Foto: J. Batistta/ Câmara dos Deputados

Pensei no quanto é importante desmistificar que as eleições são somente para presidente, praticamente ignora-se o restante. Qual o sentido de estarmos a quatro “eleições presidenciais” colocando candidatos de “esquerda” na presidência e uma maioria de direita no congresso e no senado? É de se pensar. A questão maior que muitos estão começando a enxergar agora não é a defesa ou condenação do PT, mas a necessidade de reforma política urgente, necessidade de repensar os votos e escolhas. É importante ser coerente durante as eleições. É importante ter consciência que elegemos o presidente e quem permitirá que ele governe também.

17/04/2016- Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. Foto: Zeca Ribeiro/ Câmara dos Deputados
17/04/2016- Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República.
Foto: Zeca Ribeiro/ Câmara dos Deputados

Fui tomado por uma terrível tristeza, a tristeza de ver que a Justiça e a Mídia são meras peças em um jogo político de Xadrez e que no fim a única coisa que tomou um xeque hoje foi a democracia. Eu me senti traída, porque foi isso o que aconteceu com a Dilma: TRAIÇÃO. Eu perdi a fé no ser humano ao ver aquela maioria de homens brancos, burgueses, compactuando com o golpe. Senti nojo ao ter certeza que o estado laico é uma lenda. E senti medo. Medo das consequências desse golpe contra a democracia.

Brasília - Manifestantes contra o impeachment da presidente Dilma acompanham, na Esplanada, a sessão de votação na Câmara dos Deputados (Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Brasília – Manifestantes contra o impeachment da presidente Dilma acompanham, na Esplanada, a sessão de votação na Câmara dos Deputados (Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Sim. MEDO. Medo por mim, medo pelo meu filho que está sendo gerado, medo pelas amigas lésbicas, medo pelas amigas negras, medo por todas as mulheres, medo por todas as minorias. Medo do futuro. Estou mesmo com nojo e repúdio disso tudo. O país nas mãos de um machista (governante e partido em si) que pisa nos pobres, nos negros, na comunidade LGBT , nos indígena… medo do que pode acontecer daqui pra frente. Prevejo perder minha bolsa da faculdade e muitos outros beneficiados com estudos perdidos.

Rio de Janeiro - Manifestantes contra o impeachment se reunem nos Arcos da Lapa, centro do Rio, para assistirem a votação do processo de impeachmetda presidenta Dilma Rousseff (Tomaz Silva/Agência Brasil)
Rio de Janeiro – Manifestantes contra o impeachment se reunem nos Arcos da Lapa, centro do Rio, para assistirem a votação do processo de impeachmetda presidenta Dilma Rousseff (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Morrendo de medo do futuro, não quero imaginar que a saída seja ou ir pra linha de frente ou fugir . A sessão de votação foi uma palhaçada, parecia que estavam em um parque de diversões.

Brasília- DF 17-04-2016 Manifestantes contra o impeachment em frente ao congresso. Foto Lula Marques/Agência PT
Brasília- DF 17-04-2016 Manifestantes contra o impeachment em frente ao congresso. Foto Lula Marques/Agência PT

Tenho preocupação quanto a minha não religiosidade, ao respeito que já não me é dado por esta posição e que tende a aumentar. Aflita por ser mulher, mãe solteira, classe C, não estar numa família nuclear, não me relacionar apenas com homens. Infeliz pelos queridos amigos artistas, gays, negros, pobres, todas as minorias. Decepcionada com as informações que terei para trabalhar com meus alunos. Enfim, em total desacordo com este cenário político do país em que eu vivo; Não gostaria de sobreviver.

Brasília- DF 17-04-2016 Manifestantes contra o impeachment em frente ao congresso. Foto Lula Marques/Agência PT
Brasília- DF 17-04-2016 Manifestantes contra o impeachment em frente ao congresso. Foto Lula Marques/Agência PT

Tô meio dividida entre medo e esperança. Medo porque sei o que acontece com os inimigos dos deputados golpistas. O finado Lucas Arcanjo que o diga. Mas esperança porque ao longo desses últimos dois anos vivi um processo de alfabetização política e atualmente vejo mais pessoas acordando.

Também reconheço mais um sentimento: impotência. E não por coincidência, lembro de ter sentido o mesmo quando a loja em que trabalhava foi assaltada (funcionários e clientes também) e em todas as eleições que votei.

Brasília - Manifestantes contrários ao Impeachment da presidente Dilma Rousseff se reúnem na Esplanada para assistir no telão a votação do processo (Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Brasília – Manifestantes contrários ao Impeachment da presidente Dilma Rousseff se reúnem na Esplanada para assistir no telão a votação do processo (Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Estou tão cansado da hipocrisia dos “cidadãos de bem”, tão enojado com o riso vitorioso do Cunha e seus comparsas, e com o louvor do Bolsonazi à ditadura e à tortura, tão decepcionado com a Casa que não representa o povo p*** nenhuma, que agora só tenho força para dizer: teve golpe.

Quando vi o nojento do Bolsonaro citando o torturador de Dilma e ninguém fazendo nada…

enhanced-4842-1460992360-1Ah, você não sabe quem foi Carlos Alberto Brilhante Ustra?

Presa aos 26 anos no DOI-Codi (centro de repressão do Exército) de São Paulo, Maria Amélia Teles relembra o dia em que o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra pegou nas mãos de seus dois filhos – Edson Teles, à época com 5 anos, e Janaina, com 4 – e os levou até a sala onde ela estava sendo torturada, nua, suja de sangue, vômito e urina, na cadeira do dragão. Na mesma sala estava o marido e pai das crianças, César Teles, recém-saído do estado de coma decorrente de torturas no pau-de-arara.
“Minha filha perguntava: ‘mãe, por que você ficou azul e o pai verde?” Meu marido entrou em estado de coma e quando saiu estava esverdeado. E eu estava toda roxa, cheia de hematomas e ela viu aquela cor roxa como azul. Meu filho até hoje lembra do momento em que eu falava ‘Edson’ e ele olhava para mim e não sabia que eu era a mãe dele. Estava desfigurada”, recorda Amelinha, como é conhecida.

Via noticias.uol.com.br

Após toda afronta, eis a resposta de Jean Wyllys:

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UOL/ Manuela Barem/ BuzzFeed Brasil / Via noticias.uol.com.br

Eu não consigo acreditar que comemoraram como final de copa do mundo. Me senti envergonhada por ver pessoas comemorando como se fosse final da copa do mundo. Me senti envergonhada por ver fogos, ver pessoas aclamando esse absurdo. Elas não tem a menor noção do que estão fazendo. Do que estão fazendo em nome delas. Eu espero que elas continuem na ignorância de quem acha que participou de um momento histórico. Porque se um dia acontecer algo que as façam olhar pra trás e se arrepender… a gente vai ter perdido muito mais que uma votação.

Deveriam ter comemorado a “cristalização” da corrupção e aproveitado o momento para penalizar aqueles que realmente tem culpa no cartório, seja de qual partido for. Enfim, um momento terrível para os trabalhadores que ficarão mais pobres, vendo os ricos ficarem mais ricos.

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Tudo pela economia! Tudo pelo capitalismo! Fora PT! Fora corrupção! Que Deus abençoe o Brasil! (pois vamos precisar de muita bênção).

A democracia que já era vidro, se quebrou. Revolta e tristeza hoje descrevem quem eu sou, não é nem o que estou sentindo, porque acredito que isso não seja passageiro, não tão logo. O único sentimento melhorzinho foi o alívio: porque os deputados em quem votei votarem contra o golpe. Temo por todos nós, principalmente por nós mulheres, gays, trans, negros, pobres, índios etc. Mas a luta continuará!

Apesar do baque, agora temos de nos organizar para pressionar e impressionar o Senado. O mais importante a escrever agora é que não morremos, estamos vivos e somos muitos. E somos fortes. Todos juntos! Rua! E eu daqui da minha cidade, na insignificância da minha casa e meu círculo de convivências, farei minha parte na luta pela volta da democracia e por um país com mais amor e empatia.

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Participaram:

Adriana Melo
Agnês Lino
Anna Diniz
Ana Flávia Guimaraes
Camila Aleixo
Camila Meireles
Camila Santos
Carolina Santos
Cris Álida
Danubia Serena
Dayane Ponte
Evelyn Sanches
Elyana Lanes
Elza Keiko
Hugo Almeida
Isabelle Rumin
Jackson Reis
Lia Ferreira
Lívia Werneck
Lu Leone
Maria Luiza Vasconcelos
Márcio Douglas
Renato Anjo
Raquel Castello
Su Da Silva Rosa
Tatiane De Luca

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

1 Comment

  1. Aquela sessão de tortura descrita no texto me fez pensar que o governo ERA um grupo terrorista que mantinha uma população como refém. Tortura nunca mais.

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