Da Santa Devoção I

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“A noite desponta salgada, com aquele ar místico de estrelas e nuvens descoradas, um friozinho manso entra pelas janelas e gela-me a carne, o ventre, a pele. Apago todas as luzes, pra que a claridade não desfaça o ar religioso e puro que vem de fora. Acendo umas velas, queimo uns incensos, lembro de alguns mantras antigos e visualizo uns sigilos, pra ver se acalmo a minha alma que há dias anda impaciente, a procura de algo para devorar e de alguém que a devore. Até recordo uns versículos, algo como nos Cânticos de Salomão: ‘Entre, meu querido, no seu jardim e coma dos seus frutos seletos’, mas alma que é alma segue sempre inquieta, nervosa, ansiosa. Ajoelho-me cheia de pecados e, cúmplice, decido rezar! Prendo cuidadosamente os cachos dos meus cabelos, fecho os olhos e toco a minha boca. Sinto os lábios carnudos e percebo a língua, que afiada lambe os dentes. Experimento a saliva quente e feroz escorrendo das glândulas e indo pingar nos lençóis, como um sacerdote afoito dando início a um ritual. Debruço-me felinamente sobre o teu corpo e sentindo-te o cheiro, desperto como um animal voraz. Das profundezas da minha complexidade encarno algo de pomba-gira, de sete saias e torno-me furiosa, violenta, primitiva… Passo as mãos sobre o teu peito, sinto-te o plexo, o quadril, o falo endurecido e rijo. Inclino a cabeça, e lá de baixo miro-te as pupilas inflamadas e cheias de expectativas. Abro a boca, molho bem, vou e volto! Engulo teu membro pulsante e me excito, transcendo! Sinto-te dentro de mim: extensão das minhas veias, dos meus nervos; te chupo as impressões e as energias, te lambuzo as coxas, as ancas, as partes! Sedenta, sugo a seiva que escorre do teu caule e me alimento das tuas raízes! Sorvo o orvalho do teu tronco e me faço sereno! O tempo pára, vira eternidade! Devoto-me à ti, transbordo umidade! Oro aos teus pêlos e ao teu corpo, o melhor dos altares! Dedico uma prece demorada ao teu músculo e me purifico: ‘Santificada seja a tua carne nesta noite mística! Bendito seja o teu regalo hídrico! Abençoado seja o teu néctar, que me purifica a alma e me liberta a essência! Louvados sejam os espasmos e santa a pequena morte!’ E ao fim dessa ode suprema, ultrapasso todas as barreiras reais e abro as asas, viajo espaços! Encaro-te o corpo entorpecido de prazer e ofereço-te um sorriso largo! Ah, noite sagrada: quando esqueço os pecados e sinto o gosto de deus!”
Hölle Carogne

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