Crônicas de um motel falido

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Tenho certeza de três coisas: brasileiro transa pra chuchu. A mulherada tá muito sem-vergonha. Tem mais homossexual no mundo que a gente imagina

Tonhão, gerente de motel na Vila Mariana, em São Paulo

O gerente

Demorou cerca de uma hora para que Tonhão, gerente de um motel na Vila Mariana, em São Paulo, conseguisse tirar uma cliente regular de uma suíte. A cliente era uma delegada casada com um investigador e se recusava sair mesmo após o término do seu horário de reserva.

As cartadas do tipo “você sabe com quem está falando?” parecem ser jogadas o tempo todo quando o assunto é poder e sexo. Especialmente naquele motel. “O pessoal dá carteirada mesmo! Não têm vergonha de usar. É uma cultura tão insensata…”, diz Tonhão, quase citando DaMatta pra explicar seu cotidiano.

Tonhão me cumprimentou de forma branda, um tanto constrangido. Passamos por uma escadinha estreita até chegar ao pequeno escritório. A sala era bastante bagunçada. Ele pediu desculpas algumas vezes e logo me ofereceu a cadeira. Apesar do frio que faz em São Paulo, aquele escritoriozinho estava razoavelmente quente. O que mais me chamou atenção foram alguns bolos de dinheiro na mesa.

Nossa conversa durou cerca de meia hora. Após a estranheza inicial, ele logo relaxou e desabafou tudo o que podia sobre seu trabalho. Durante cerca de dez anos ele era autônomo e vendia material de escritório. Os negócios estavam bem, mas então veio a crise. “Tive um problema na conta do Banco do Brasil que entraram e levaram dinheiro. No meu ramo, se eu estivesse trabalhando hoje, estaria passando fome”.

Graças a uma cliente antiga, recebeu a proposta de trabalhar como gerente num motel paulista. Ele mandou currículo sem esperar retorno. Até que três meses depois ligaram em busca de uma entrevista.

Agora num emprego formal, sua rotina de trabalho chega a ser desgastante, por volta de 12 horas diárias. Conta que desde que começou perdeu 20 quilos.

No começo eu achava tudo muito engraçado. No primeiro dia que fui trabalhar, entraram 3 homens numa suíte. Tudo de gravata e de carrão importado. Tava uma gritaria na suíte que eu falei ‘meu deus!’

Intimidades

Tonhão diz que de madrugada ele caminha pelo motel e às vezes vê e escuta uma porção de coisas inusitadas. Diz que muitos clientes transam de porta e de janela aberta: “Tem um médico, um japonês que vem sozinho. Ele gosta muito de ficar com a janela aberta, a cortina aberta, pelado e em cima da cama se masturbando e mexendo com as meninas (que trabalham lá)”.

Segundo Tonhão, mulheres quando reservam suítes tendem a ser mais atenciosas e procuram decorar o quarto para seus parceiros. Nos 14 meses em que ele trabalha lá, somente um homem ligou pedindo ajuda para fazer uma surpresa pra a parceira num café da tarde.

A última cliente que esteve aqui pagou 400 reais numa suíte. Trouxe uma tábua de frios pronta e pediu para as meninas fazerem a decoração de frutas, pães, doces e bolos. Foi muito legal! Eu passei a tarde enchendo bexigas porque a suíte é grande, né. Decoraram a escada, o ofurô e tudo para o aniversário de namoro. Ela disse que tinha brigado com o namorado e fez as pazes. Era uma enfermeira de um hospital em São Paulo;

Drogas e violência

Muita gente que frequenta o motel vai mesmo sozinho para beber e se drogar. “Tem uma moça que vem aqui e que na última vez a única coisa que ela pediu foi um almoço e um travesseiro. Não tomou banho. Estava tudo limpo. Mas cheio de bituca de maconha e pozinho. Veio se drogar”, ele explica.

Até mesmo violência conjugal ele já presenciou.

Teve um casal que eu não sei o que rolou na suíte, mas ela deu uma surra no cara! A suíte ficou toda cheia de sangue. Eu falei: meu, só não me derruba a televisão, pelo amor de deus. A televisão é cara e depois vocês não vão ter dinheiro pra pagar.

Por falar em dinheiro, os clientes que não têm grana deixam pneus, relógios, celulares, correntes, colares, pulseiras e até mesmo calcinhas e sutiãs.

Desde que Tonhão começou a trabalhar, já houve quatro ocorrências policiais. Ele já nem liga. “Tá tranquilo, tá favorável”, ele diz brincalhão. “É tudo conhecido nosso aqui da área”, ele se refere aos policiais que frequentam o local, dando ele a própria carteirada final.

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Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

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