Considerações sobre as manifestações políticas, com Leonardo Darbilly

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Leonardo Darbilly (Foto: Lia Ferreira / Vero)

O tão esperado 2014 chegou. Com ele, o medo das autoridades de um novo boom de manifestações voltou. Mas, para entender melhor o atual cenário, que tal voltarmos um pouco no tempo? O professor Leonardo Darbilly, mestre em administração pública, analisou as manifestações do ano passado numa entrevista reveladora. Em sua tese de doutorado, Leonardo disserta sobre as mudanças nas relações de poder que ocorreram no campo da comunicação política no Brasil. Tudo a partir do surgimento da blogosfera política alternativa. Que tal nos aprofundarmos um pouco mais no assunto?

Leonardo Darbilly
Mestre em administração pública pela Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (EBAPE/FGV)
Doutorando em administração pela Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (EBAPE/FGV)
Professor no curso de administração do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (IM/UFRRJ)
Bacharel em administração pela Universidade Cândido Mendes


Como você avalia o clamor popular por mudanças tendo em vista as manifestações que começaram em 2013? 

As manifestações que ocorreram no mês de Junho de 2013, sem dúvida alguma, foram extremamente relevantes, não apenas pelo grande número de pessoas que dela participaram, mas também pelo fato de que elas foram marcadas por algumas características ausentes de formatos mais tradicionais de manifestações, o que causou espanto não apenas nas autoridades constituídas, mas em uma parcela considerável da população brasileira. Creio, nesse sentido, que as manifestações podem ser consideradas um importante fenômeno no âmbito de um país em que, tradicionalmente, a política sempre foi vista com certo desinteresse e apatia, especialmente se estabelecermos uma comparação entre o debate político no Brasil e em outros países latino-americanos. Dito isso, devo dizer que eu não acredito que seja possível encararmos todas as manifestações que ocorreram naquele mês como sendo parte de um mesmo todo. As primeiras manifestações que ocorreram foram organizadas por um movimento denominado como Movimento Passe Livre (MPL) e tinham como objetivo pressionar os governantes locais a reduzirem o aumento da tarifa dos transportes públicos que haviam sofrido um reajuste considerável naquele momento, o que causou, com toda razão, a indignação por parte de parcela considerável da população. Tal indignação não surgiu de um momento para outro, mas foi o estopim gerado por movimentos semelhantes por parte de diferentes governos e que claramente privilegiavam o empresariado do setor de transportes em detrimento do cidadão.  Ao longo dos dias, o MPL passou a contar com o apoio de uma parcela considerável de pessoas, o que fez com que suas manifestações adquirissem maior peso e, por fim, conseguisse alcançar seu fim. No entanto, é importante chamar a atenção para o fato de que alguns outros grupos totalmente desvinculados do MPL e de seus objetivos acabaram por se aproveitar daquele momento e, especialmente por meio da utilização das redes sociais (que também foram utilizadas por parte dos manifestantes ligados ao MPL), mobilizaram, sobretudo, jovens de classe média tradicional para que estes fossem às ruas para se pronunciar sobre temas como a corrupção, PEC-37, saúde, educação, eventos como a Copa do Mundo e Olimpíadas, dentre outros. O grande problema é que tais assuntos, dotados de extrema complexidade, foram abordados nesse segundo grupo de manifestações a partir de um viés bastante conservador, quase sempre por meio da repetição de clichês que lemos todos os dias nos grandes jornais ou vemos nos noticiários da televisão e, o que é mais complicado, se apropriando de um discurso ideológico que naturaliza a ideia de que o Estado é ineficiente e corrupto e que nada fala a respeito do outro lado da moeda da corrupção, que são as empresas privadas que atuam como corruptoras. Se não há corruptores, não há corrupção. Coincidentemente, esse tema não é mencionado pela grande mídia, já que esta trata a corrupção como se fosse um fenômeno sem causa que pudesse ser resolvido meramente por meio da punição e como se tal problema não fosse parte de um problema muito maior que é a estrutura do nosso sistema político. Nesse sentido, um grande passo que daríamos para combater a corrupção em nosso país seria implementar a Reforma Política, especialmente por meio da proibição do financiamento de campanhas políticas por parte de empresas privadas. A grande questão é que, quando se entra nesse mérito, imediatamente os setores mais privilegiados economicamente se omitem e fogem do debate, o que faz com que o assunto seja deixado de lado. A razão para isso é evidente. 
                                           Leonardo Darbilly (Foto: Lia Ferreira / Vero)

Quem são os donos das grandes empresas que financiam as campanhas políticas e que depois cobram tal favor? São justamente aqueles que pertencem a tais setores da sociedade. Não é sem razão que, dentre os pactos apresentados pela presidente Dilma para tentar solucionar os problemas que foram objetos dos protestos, a Reforma Política era o mais importante deles, sendo que nesse momento a proposta encontra-se parada no Congresso. Voltando às manifestações, é importante chamar a atenção para o fato de que, dentre alguns grupos que se aproveitaram da manifestação pela redução das tarifas, havia grupos clamando pela volta da ditadura militar, pela privatização de empresas públicas, pelo impeachment da presidente, por um “choque de gestão pública” (termo utilizado pelo principal de partido de oposição ao governo atual), etc. Nesse sentido, não é verdade que tais manifestações eram totalmente apartidárias e desvinculadas de alguma ideologia específica, como grupos como o Anonymous fazem questão de afirmar. A grande prova disso é que o próprio MPL, após obter vitória no que diz respeito à redução das tarifas, afirmou em entrevista a alguns jornais que eles estavam se retirando das manifestações, uma vez que eles, sendo um grupo declaradamente de esquerda, perceberam que havia outros grupos claramente de extrema-direita e até mesmo fascistas que se infiltraram nos protestos e que se apropriaram daquele momento para tentar extrair vantagens políticas. Em entrevista ao jornal da Globo, por exemplo, os líderes do MPL falaram claramente que o objetivo deles era a redução das tarifas do transporte público, e que os outros temas não estavam na agenda do grupo. Demonstraram, inclusive, preocupação em desvincular a atuação de grupos tais como o Anonymous da atuação deles, uma vez que possuem bases ideológicas bastante distintas. Por fim, eu creio que o resultado mais concreto desse fenômeno ainda não pode ser analisado com mais clareza nesse momento, uma vez que três meses é muito pouco para que possamos ter uma avaliação menos apaixonada do que ocorreu. Talvez o brasileiro se acostume a ver daqui pra frente de forma mais frequente manifestações sobre temas diversos, como, aliás, é normal em países como a Argentina, onde quase todos os dias presenciamos grupos de manifestantes em frente à Casa Rosada se pronunciando contra e também a favor do governo. Posso estar enganado, mas não acredito que o número expressivo de pessoas que vimos nas manifestações de Junho se repita tão cedo aqui. Grandes manifestações podem sem dúvida ocorrer, mas não acredito que da mesma forma que naquele momento. O importante é que essa experiência tenha servido para que as pessoas possam adquirir ao longo do tempo maior maturidade para reivindicar seus direitos de forma independente e ideologicamente fundamentada, sim. Devemos refletir primeiramente sobre o projeto coletivo de sociedade que desejamos construir. Tal projeto não pode ser neutro, ele naturalmente está vinculado a alguma visão de mundo. Independentemente de tal projeto estar vinculado a uma visão mais liberal (ou neoliberal) ou a uma visão mais próxima do modelo social-democrata, é importante é que as pessoas tenham consciência de que tal disputa existe e que ela nesse momento está ocorrendo em nosso país. A partir disso, o importante é nos posicionarmos e a partir de tal posicionamento nos articularmos para cobrar aquilo que acreditamos ser o correto. E isso sem que sejamos levados pelo coronelismo de organizações muito bem posicionadas ideologicamente como a Globo ou de grupos que se dizem apartidários, mas que no fundo sabemos bem que não são. Academicamente, acho que as manifestações serão objeto de diversas pesquisas futuras, cada uma delas tentando explicar as razoes pelo que ocorreu. No campo dos estudos organizacionais, que é a minha área, ou mesmo no campo da comunicação, acredito que um tema de pesquisa muito interessante seria analisar as tentativas por parte de distintos grupos de se apropriar da agenda dos protestos e liderá-los. Por exemplo: você deve lembrar que, logo no início do evento, um famoso jornalista apareceu em uma emissora de televisão criticando de forma áspera os protestos organizados pelo MPL, taxou-os de irrelevantes e disse que havia temas muito mais importantes que com os quais os manifestantes deveriam se preocupar. Imediatamente, tal vídeo foi compartilhado incessantemente nas redes sociais com tom de indignação ao comentário desse sujeito e, dias depois, ele foi obrigado a pedir desculpas e reconhecer que se equivocou. Não acredito que de fato sua opinião tenha mudado. O que ocorre é que alguns grupos que lutam pela democratização das comunicações aproveitaram essa gafe para colocar tal tema na agenda dos protestos. Não é sem razão que emissoras de televisão como a Globo e a Record, que tradicionalmente criminalizam movimentos sociais, foram alvejadas quando tentavam realizar a cobertura das ruas. Chegou a um ponto em que elas, especialmente a Globo, abandonaram a rua e passaram a cobrir os eventos por meio de seus helicópteros ou em cima de prédios. Grande parte da população entendeu, naquele momento, que é necessário a pluralidade da informação. Isso não significa, evidentemente, que em parte o objetivo daquele jornalista não tenha sido alcançado, pois, como afirmei anteriormente, a grande mídia conseguiu emplacar boa parte de sua agenda nas manifestações por meio de um processo de insistência e com a ajuda de setores mais conservadores. Não se pode dizer, porém, que a pauta das manifestações foi totalmente apropriada por algum grupo específico, com exceção, como já disse, dos protestos do MPL.  Mas que houve uma tentativa fervorosa de apropriação da agenda das manifestações por parte especialmente da grande mídia, isso sem dúvida alguma ocorreu. Recomendo a pesquisadores do campo da comunicação que analisem as manchetes dos grandes jornais desde o início do evento até seu fim por meio da utilização da técnica da análise crítica do discurso. Será um trabalho bastante rico! 

Você acha que a inexistência de lideranças prejudicou o diálogo entre os manifestantes e o poder público?

Diferentemente do discurso reproduzido pela grande mídia a respeito das manifestações, eu não acredito que tal fenômeno foi marcado por uma total ausência de lideranças. Como afirmei anteriormente, as manifestações em seu primeiro momento foram organizadas pelo Movimento Passe Livre, grupo que já havia organizado outras manifestações em momentos anteriores. O MPL conta com diversos integrantes, mas alguns deles se destacaram ao longo das manifestações exercendo papeis distintos em uma espécie de divisão de tarefas. Nesse sentido, um dos membros era responsável por informar à polícia o trajeto do grupo, outro elaborava o material a ser distribuído, e outros foram designados para comparecer à reunião com o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, para que se pudesse discutir a redução das tarifas. Obviamente, o tipo de liderança que se observou não é o mesmo tipo de liderança tradicional ao qual estamos acostumados, como a de um sindicalista no caso de uma greve. Talvez estejamos presenciando o surgimento de outros tipos de liderança, em que indivíduos provenientes de diversos campos sociais e, facilitados pela utilização das novas tecnologias, podem ter a chance de fazer valer seus pontos de vista e assim ganhar peso na arena política. Há que se chamar a atenção, entretanto, para o fato de que, dentre esses integrantes que mais se destacaram nas manifestações do MPL, grande parte deles já militava politicamente e, portanto, não se pode dizer que eram inexperientes nesse campo. Alguns já haviam participado do Fórum Social Mundial (onde o próprio movimento surgiu, aliás), outros militavam na esquerda e um deles foi inclusive integrante do Centro de Mídia Independente. Você pode perceber que houve um processo claro de negociação entre alguns membros do MPL e o prefeito Fernando Haddad que durou por alguns dias e que ocorreu graças a algumas reuniões agendadas por ambas as partes. Tal negociação obteve sucesso e, como todos sabem, a prefeitura e o governo de SP recuaram e as tarifas foram reduzidas ao preço anterior. Agora eu pergunto a você o seguinte: porque o objetivo do MPL foi alcançado e as outras manifestações se perderam ao longo do tempo? Há duas explicações nas quais eu acredito. Primeiramente, as revindicações das manifestações do MPL eram claras. Já as manifestações por parte de grupos como o Anonymous não eram claras, uma vez que não havia ali proposta específica alguma que pudesse sanar os problemas que eles colocavam. Tais manifestações eram dotadas de palavras que se colocavam, como eles mesmos divulgavam nas redes, “contra tudo que está aí”. Em outras palavras, não havia nenhuma proposta a ser repassada para o poder público. Dizer que é contra a corrupção sem propor nada que possa atacar de fato o problema é repetir as mesmas palavras utilizadas por movimentos como a Marcha da Família com Deus e pela Liberdade na década de 60 e que foram pretexto para o posterior golpe militar que ocorreu no fatídico ano de 1964. Parece outro contexto, mas é sempre bom relembrar que os setores mais conservadores da sociedade acusavam Getulio Vargas pelo “mar de lamas” no Palácio do Catete e que isto o levou posteriormente ao suicídio, que JK era constantemente acusado de corrupção pelos principais jornais do país e que João Goulart sofreu o golpe com este mesmo discurso (O editorial do jornal O Globo um dia após o golpe militar teve como título “Ressurge a Democracia”.). 
                                         Leonardo Darbilly (Foto: Lia Ferreira / Vero)

O que quero dizer é que o discurso contra a corrupção pode ser utilizado de duas formas: para extrair vantagens políticas e beneficiar determinados grupos políticos que geralmente são tão ou mais corruptos do que os grupos a quem eles acusam ou para de fato promover melhorias em nosso sistema político e atacar o problema. A punição aos corruptos é importante, mas isso não deve ser o elemento central que permeia o discurso, uma vez que é problema policial e não problema político. O problema político é, repito, promover a reforma política. A presidente enviou uma proposta de plebiscito ao congresso, mas a ideia está morrendo por conta de interesses específicos. Eu me pergunto: onde estão os grupos que gritavam contra a corrupção no mês de Junho? Deveriam cobrar do congresso a implementação da proposta. Mas sumiram. Para mim, não é coincidência. Em segundo lugar, penso que o fato de termos visto algum tipo de liderança (ou referência, o nome não faz muita diferença) no MPL que se propôs a ir ao encontro das autoridades com uma proposta clara em busca da solução do impasse foi outro fator que fez com que o objetivo deles fosse alcançado. No caso dos outros grupos, justamente pela inexistência de propostas específicas e também pelo fato de não assumirem suas principais referências (estas se encontram ocultas no anonimato da esfera virtual), acabaram perdendo força com o passar do tempo até se diluírem quase que por completo, em paralelo aos lamentáveis episódios de violência que passaram a ocorrer. Para não dizer que estes outros grupos não obtiveram nenhuma vitória, podemos citar como exemplo a rejeição à PEC-37 pelo legislativo, mas isso não é um fato que podemos considerar como uma grande demonstração de força. Podemos citar também o pronunciamento da presidente Dilma em que ela apresentou alguns pactos com o intuito de atacar os problemas mencionados nos protestos. As propostas foram elogiadas por alguns e criticadas por outros, mas o fato é que após esse fato os protestos perderam sua força aos poucos. Algumas delas, como o Mais Médicos, foram implementadas, mesmo com todo a guerra travada pelos Conselhos de Medicina de nosso país. Outras não foram implementadas porque não dependem apenas do governo federal, como a própria reforma política. 

O que pensa a respeito da tática de manifestação Black Bloc? Você considera a violência como um meio legítimo de protesto? 

Com relação aos Black Block, eu jamais poderia me colocar contra qualquer tipo de movimento social, uma vez que fazer manifestações é um direito de todos os cidadãos e deve ser garantido. Entretanto, penso que a violência em uma democracia é a última tática a ser utilizada, uma vez que ela tende a assustar a população e pode fazer com que reivindicações justas sejam frustradas por conta de tal conduta, além de ter o potencial de acirrar ânimos e culminar com feridos ou eventuais mortes. Assim, a adoção de tais meios pode acabar fazendo com que muitas pessoas adquiram uma postura de rejeição a tais movimentos. Problemas políticos devem preferencialmente ser negociados por meio da própria política (não política eleitoral, mas política no sentido mais amplo, como o próprio ato de abrir canais de negociação). A utilização da violência acaba sendo uma via que foge da via da negociação, ou em outras palavras, acaba por se deslocar do campo da política, que deve ser o espaço natural de tais movimentos sociais. O mesmo eu posso mencionar sobre determinadas autoridades que, ao invés de tratarem os movimentos sociais como parte inerente da prática política, preferem criminalizar (com a ajuda da grande mídia, diga-se de passagem) tais movimentos e optam por utilizar a violência policial para reprimir manifestações diversas. Tanto um caso como outro certamente vão gerar reações semelhantes em ambas as partes.

Muitos protestaram contra a realização de megaeventos como a Copa do Mundo e das Olimpíadas. Você acha o Brasil está realmente preparado para receber tais eventos? 

Eu sou totalmente favorável à realização de eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, apesar de entender a preocupação por parte de muitas pessoas com relação a esse tema. O pensamento linear ou evolutivo que geralmente norteia o debate político no Brasil e que se baseia na ideia de que enquanto não solucionarmos todos os problemas inerentes às áreas mais básicas como educação e saúde não podemos cogitar a realização de eventos relacionados a outras áreas” parece lógica. Entretanto, há uma conjunção de fatores de ordem política, econômica, cultural e social que tornam a realidade muito mais complexa e que impedem que esse tipo de raciocínio prevaleça. Na verdade, se a gente tomar tal pensamento como verdadeiro, teríamos que abdicar de realizar qualquer tipo de evento de porte internacional e tal privilégio ficaria nas mãos tão somente dos países ricos. Ocorre que muitos desses países ricos também possuem problemas diversos de ordem econômica e social. Lembro que o Brasil concorreu com a Espanha, Estados Unidos e Japão na disputa pela realização dos jogos olímpicos. Ora, a crise econômica pela qual a Espanha vem passando já há alguns anos é muito mais grave do que a nossa (assim como boa parte da Europa), e mesmo os EUA estão passando por problemas econômicos no qual milhares de pessoas foram jogadas para abaixo da linha de pobreza. A crise econômica de 2008, teve origem, aliás, justamente nos EUA e depois instalou-se como furacão na Europa. A América Latina, mesmo com todos os problemas que ainda possui, foi o continente menos afetado por essa crise, justamente porque vinha se afastando do modelo neoliberal que predominava naqueles outros contextos. Os países latino-americanos, aliás foram os que mais avançaram nos últimos anos no que tange ao combate à desigualdade econômica, erradicação do analfabetismo, crescimento econômico e distribuição de renda, como mostram todos os dados provenientes de instituições como ONU e PNUD. Porque países como os EUA e Espanha não deixaram de apresentar suas candidaturas em função da crise econômica que atravessam? É porque o retorno que tais países poderiam obter com tais eventos não deve ser nada desprezível. De acordo com dados da Fundação Getulio Vargas, enquanto o valor do investimento de recursos públicos e privados na Copa do Mundo alcança a casa dos R$ 29 bilhões de reais, o retorno estimado de tal evento está na casa dos R$ 142 bilhões de reais. Quem estiver interessado nos dados de forma mais detalhada e os principais setores que serão beneficiados, pode acessar os resultados do estudo na internet. Além disso, o fato de haver logrado tal êxito ajuda a consolidar o Brasil como player internacional de peso, juntamente com outras disputas nas quais estamos nos envolvendo no campo da política internacional. Sendo assim, eu pessoalmente acredito que o esforço de se anular a realização de tais eventos por meio das manifestações é equivocado, uma vez que o Brasil já foi escolhido. Creio que tais protestos poderiam ter sido realizados ao longo da candidatura do Brasil, uma vez que de fato poderiam lançar luz sobre as dúvidas que parte da população possui a respeito desses eventos. Já que isso não ocorreu, eu acredito que o que deve ser feito é um controle bastante rígido por parte da população com relação aos gastos que vêm sendo feitos e também o acompanhamento e fiscalização da utilização dos recursos financeiros que serão gerados, com o intuito de garantir que essa quantia considerável de dinheiro seja destinada justamente aos setores que dela mais necessitam. Para isso, é necessário que a sociedade civil se articule mais e passe a acessar de forma mais frequente os mecanismos de controle social e as ferramentas que estão disponíveis para que essa fiscalização seja realizada. 
                                                    Leonardo Darbilly (Foto: Lia Ferreira / Vero)
Tema da tese de doutorado de Leonardo Darbilly
Em minha pesquisa analiso as mudanças nas relações de poder que ocorreram no campo da comunicação política no Brasil a partir do surgimento da blogosfera política alternativa. Analiso mais especificamente um movimento que surgiu há alguns anos atrás no Brasil intitulado Movimento dos Blogueiros Progressistas (BlogProg). Tal movimento foi idealizado por um grupo de blogueiros (dentre eles jornalistas, ativistas políticos e ativistas digitais) que, incomodados com o monopólio no campo da mídia por parte de apenas quatro ou cinco empresas (Organizações Globo, Abril, Folha de São Paulo e Estado de São Paulo), decidiram lutar pela democratização da comunicação no Brasil e, consequentemente, pelo direito de todos os cidadãos receberem outras informações que não aquelas produzidas por tais organizações e que por sua vez se caracterizam pelo viés altamente conservador e partidarizado, com o intuito de beneficiar partidos políticos pertencentes ao espectro da direita política brasileira. Tal movimento surgiu no ano de 2010 durante as eleições presidenciais daquele ano e com o passar do tempo consolidou-se, adquiriu relevância no país e obteve importantes vitórias no que diz respeito à luta por uma mídia mais plural e democrática.

Você acha que há uma crise na representação política brasileira?

Eu acredito que existe, de fato, uma crise representativa que ocorre não apenas no Brasil, mas na maioria dos países democráticos. O que vimos no Brasil não é fruto tão somente de situações específicas locais, mas é parte de um problema mais amplo e relacionado ao (quase) esgotamento do modelo de democracia representativa que fundamenta o modo de se fazer política e de se tomar decisões políticas que afetam nossas vidas. Esse modelo vem sendo cada vez mais questionado não apenas aqui, mas em outros países da América Latina, em diversos países da Europa e até mesmo nos EUA. O movimento Occupy Wall Street, que ficou famoso há alguns anos por questionar o sistema político norte-americano que tradicionalmente protege a camada mais rica que representa 1% da população daquele país, deixou isso bastante claro. Na Espanha e na Grécia, os movimentos tiveram como alvo as políticas neoliberais que vêm arrastando tais países para uma situação de total caos econômico.  Nesse sentido, é importante dizer que a origem das manifestações nesses países tem explicações bem diferentes das manifestações que ocorreram aqui no Brasil. Aqui, de forma geral, os protestos focaram na garantia e na ampliação dos direitos dos cidadãos. Lá, as manifestações se colocavam de forma radicalmente contrária ao modelo de economia privatizante que beneficia o mercado em detrimento da sociedade civil. Apesar dessas diferenças, eu acredito que, de forma geral, os cidadãos estão cansados de serem excluídos de grande parte das decisões que afetam suas vidas e querem interferir de forma mais intensa na formulação e implementação das políticas públicas. As pessoas parecem estar fartas de ser vistas meramente como objetos dessas políticas e não como agentes dessas políticas, juntamente com o poder público. Nesse sentido, talvez seja o momento de pensarmos em realizar uma transição de um modelo de democracia representativa em direção a um modelo de democracia participativa em que os cidadãos sejam inseridos cada vez mais no debate político. Isso, entretanto, não é algo fácil de realizar, pois é necessário que se criem mecanismos de participação e é preciso maturidade política para que as políticas públicas de fato sejam formuladas a partir do modo mais consensual possível, ainda que as lutas e disputas de poder jamais deixem de existir. No caso do Brasil, temos experiências bastante importantes de políticas públicas participativas, como o Orçamento Participativo, que inspirou programas semelhantes em diversos outros países do mundo. Mas, de fato, ainda é muito pouco! Na minha visão, a realização de um plebiscito para a implementação da reforma política após um debate profundo e democrático por parte da população seria um enorme passo que poderíamos dar rumo a esse novo modelo. Se irá ocorrer, eu realmente não sei. 
                                     Leonardo Darbilly recomenda a leitura (Foto: Lia Ferreira / Vero)

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

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