“Classe Média”, a música que soa como um soco

em Arte/Música por
Max Gonzaga (Foto: Reprodução)

Sou classe média
Papagaio de todo telejornal
Eu acredito
Na imparcialidade da revista semanal
Sou classe média
Compro roupa e gasolina no cartão
Odeio “coletivos”
E vou de carro que comprei a prestação
Só pago impostos
Estou sempre no limite do meu cheque especial
Eu viajo pouco, no máximo um pacote cvc tri-anual
Mas eu “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente em itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Mas fico indignado com estado quando sou incomodado
Pelo pedinte esfomeado que me estende a mão
O pára-brisa ensaboado
É camelo, biju com bala
E as peripécias do artista malabarista do farol
Mas se o assalto é em moema
O assassinato é no “jardins”
A filha do executivo é estuprada até o fim
Ai a mídia manifesta a sua opinião regressa
De implantar pena de morte, ou reduzir a idade penal
E eu que sou bem informado concordo e faço passeata
Enquanto aumenta a audiência e a tiragem do jornal
Porque eu não “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente em itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Toda tragédia só me importa quando bate em minha porta
Porque é mais fácil condenar quem já cumpre pena de vida

Em 2005, nasceu a  música “Classe Média”, de Max Gonzaga. O cantor e compositor, criado em São José dos Campos, no interior de São Paulo, analisa a conjectura da sociedade de forma simples, mas impactante.
“A música foi criada exatamente em cima do calor da emoção ante um tipo de fato que a gente está vendo acontecer neste instante, a questão da maioridade penal, a questão da pena de morte, decorrentes da passionalidade que se produz em algumas situações.

Claro que respeito outras opiniões, mas, nesse debate, ninguém fala do social, das carências que produzem esse estado de coisas. Só se fala em prender ou matar. E, nesse contexto, é óbvio que quem sai mais prejudicado são os menos privilegiados.

Então, fiz a música nesse momento, dado esse contexto, de nós voltados exclusivamente para nós mesmos, para a nossa segurança, para a educação dos nossos filhos, mas pouco preocupados com aqueles que não têm as mesmas possibilidades que eles

Essas pessoas que buscam esse tipo de “solução” para a violência ao mesmo tempo não aceitam a reação natural, sociológica, dessas pessoas que, dada a situação social em que estão, reagem de alguma forma por estarem fora do contexto social dos incluídos ao consumo e a outras regalias dos mais favorecidos”, pondera Max Gonzaga. 
 Todo o seu trabalho está disponível para download em seu site pessoal. Em entrevista, disse não temer que o pirateiam. “Não tem problema nenhum”. Leia a entrevista no Blog Cidadania

Jornalista em formação. Fundadora da Ou Seja e blogueira. Meio Lia, meio Lua, prefere flores no cabelo a diamantes no pescoço.

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