Casualidades: o velho, o novo e possíveis (re/des)encontros

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Acordo, faço meu asseio e desjejum. Parto em mais uma jornada matinal e rotineira.
Como de praxe, estou acompanhado por alguma boa-amizade nos momentos que me permito abdicar da adorada solidão. Neste dia vinha pois Fernando, junto a mim.
Incomumente pegamos condução terrestre, para uma parada atípica e necessária neste dia. Cumprida tal obrigação, partimos, novamente pela estrada.
Pago o valor, sentamo-nos. Ao nosso lado, uma mulher, nem feia nem bela, tinha certo charme, pele morena, cabelos longos, uniforme de trabalho – camisa vermelha e calça preta. Nem deu por nossa presença, aprisionada que estava ao seu grilhão.
Entretidos em nossa conversa, pouco fizemos de tal ignorância à nossa aproximação. Contudo, dado momento, eis que notamo-la a ouvir/olhar-nos (ou talvez a “ouvEr-nos”) em rabo-de-olhos. Viramo-nos em sua direção e esta refugiou-se uma vez mais detrás muralha.
Tornamos o diálogo, ela pouco a pouco foi-se aproximando, mais, mais, mais, e de repente, estávamos a lhe falar e ela a falar-nos também.

“Desculpe – ela começou – não pretendia interrompê-los. É que… isso que falam… tocou-me sabe.”

“Ora, apreciamos muito sua ‘interrupção’. Estavas tão fixada ao teu aponto sutilmenteque nem reparastes que lha cumprimentamos antes de sentarmos.”

“Oh, isto… sim, de fato. Sinto-me cada dia mais presa a isto! Gostaria de não ser…” – balbucia encarando o objeto em mãos.
Fernando e eu entreolhamo-nos. Aponto-a com a cabeça, e ele indaga.

“O que em nossa conversa despertou-lhe tanto interesse e tocou, como dissestes?”
Reanimada com nosso interesse em conhecer-lhe algo, tornou a nós.

“Oh, o ponto onde ele – indica Fernando – disse: ‘Eu morrerei e deixarei / Neste mundo isto apenas: uma vida / Sem prazer e sem gozo, sem amor, / Só imersa em estéril pensamento / E desprezo (…) da humanidade.’

Minha vida – olha-nos suplicante – minha vida está assim. E isto, este grilhão, é um impedimento a que eu tenha até mesmo conversas como estas; é uma barreira que levo a todo lugar. E eu a amo e a odeio. Mas quero sentir o mundo novamente…”

Continuamos conversando, ela dizendo sobre seu emprego, filha e sonhos desfeitos porém não esquecidos; ainda a tortura os ter abandonado e trocado pela barreira. Pergunta o que fazemos. “Eu sabia!”, brada ao dizermos, “por isso compreendem-me tão bem.”
Despediu-se, chegava a parada onde ficaria.

“Muito obrigada aos dois! Voltarei a estar em companhias como as tuas e recuperarei o tempo perdido e meus antigos sonhos. Adeus!”

E lá se foi, aquela mulher cujo nome nunca saberemos, ela, que com sua história narra a de muitas outras pessoas, que esqueceram seus sonhos, sua força para realizá-los e também o prazer de travar conversas casuais com um desconhecido, simplesmente ao agrilhoar-se por detrás de um smartphone.

Quanto a nós, Fernando e eu, permanecemos o restante da viagem em silêncio. Chegado o nosso destino, agradeci-lhe as boas conversas, e então guardei-o na mochila para a chuva não estragar.
Fernando Pessoa… ótimo amigo.

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