Capacitismo é crime de ódio

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Texto por Rita Elizabeth

Capacitismo é uma série de práticas e comportamentos (tanto conscientes quanto inconscientes) contra pessoas que possuem algum tipo de deficiência. As pessoas que praticam capacitismo têm uma tendência de achar que a “não-deficiência” é o normal e que pessoas que tem deficiências têm que se virar para se encaixar na norma ou se afastar das pessoas que não têm nenhuma deficiência.
Capacitistas costumeiramente veem deficiência como um erro na vida, um jeito incorreto de se viver e portanto costumam negar qualquer experiência de vida de pessoas com deficiência.
É bom lembrar que sentir pena, lamentar ou idealizar a pessoa por ter deficiência é capacitismo da mesma forma.Também é quando, por exemplo, tratam a pessoa com deficiência como criança, quando acham que uma pessoa com deficiência mental é “burra”, quando acham que uma pessoa cadeirante é uma pobre coitada e saem empurrando a cadeira dela sem nem perguntar se pode, é quando negam a deficiência da pessoa pra culparem ela por algo que ela não tem controle, é quando agridem verbalmente e fisicamente alguém por ter deficiência e várias outras coisas.
Sem contar as barreiras e violências institucionais, como prédios que não têm acesso pra pessoa com deficiência; faculdades que não adaptam seu ensino pra pessoas com deficiências mentais, visuais, auditivas; policiais que abordam e agridem uma pessoa que não tem capacidade de fala; quando os motoristas de ônibus se negam a ativar o elevador pra pessoas com deficiência que não são cadeirantes (e as vezes, até pras que são).
Não somos inferiores nem superiores.
Precisamos de coisas específicas as vezes (rampas, acompanhantes, piso tátil, etc…) mas isso não é tratamento especial, é tratamento básico para podermos ter a mesma condição de locomoção ou estadia em um ambiente do que as pessoas sem deficiência.
“Direitos iguais” não é o mesmo que ignorar necessidades específicas.
Capacitistas constantemente tentam fazer com que odiemos quem somos, mas não vão conseguir.
Eu me amo e eu não queria não ter deficiência. Eu não quero ser ~normal~… Tenho uma perspectiva única sobre o mundo por causa de tudo que passo e do tanto que isso me sensibiliza à dor dos outros ao meu redor.
Ainda bem que eu consigo escrever pra expressar muito do que eu sinto e vejo, porque eu sei que outras pessoas com deficiência mental não conseguem (tanto por alguma inabilidade motora quanto por ser difícil de falar sobre isso mesmo).
Não me normatizarão, eu tenho orgulho de ser quem eu sou, eu tenho orgulho de poder lutar pelos meus irmãos, irmãs e irmxs com deficiência que não podem ou não conseguem. 

Às vezes acham que temos OBRIGAÇÃO de sermos “super heróis” e de superarmos nossa deficiência – como se fosse algo que dependesse de força de vontade e como se não tivesse muita gente que se sente confortável assim (eu, por exemplo, tenho muito orgulho de ter a deficiência que tenho).
Pessoas com deficiência: vocês não são obrigadas a serem fortes o tempo todo.
Vocês não são obrigadas a serem exemplos de superação só porque pessoas sem deficiência acham isso bonito.
Se permitam chorar, desistir de um caminho que faz mal, se isolar um pouco as vezes… Isso é bom. Só não deixem tomar conta de suas vidas, claro, mas também não reprimam suas emoções dessa forma.
Lembrem-se: vocês não “têm” que fazer nada – façam porque querem e não porque outras pessoas pressionam a fazer.
No mais, desejo muita força a todxs nós pra seguir em frente!

* Esse texto é uma compilação de postagens da página Capacitismo é crime de ódio. 
** Rita Elizabeth é uma das administradoras da página. É uma pessoa com deficiência mental e com deficiência de locomoção. Apesar de sua deficiência mental, ela as vezes consegue se expressar bem através de textos. Siga a página para conhecer melhor sua história e ler outros textos sobre pessoas 

2 Comments

  1. (Acho que o sistema aqui engoliu meu comentário. Se aparecer repetido, por favor desconsiderem este.)

    Gostei do texto e aprendi com ele. Mas acho que o termo “crime de ódio” é forte demais para o que você descreve. “Preconceito” e ” ignorância” dão conta da maioria desses casos. Já “crime de ódio” remete a ações deliberadas contra um grupo, como, digamos, de nazistas contra judeus. A ideia era “destruir”/” afastar” de alguma forma um grupo inteiro, e não me parece que isso aconteça com os deficientes na grandes maioria dos casos. Ainda mais porque a grande maioria das pessoas não é educada para lidar mesmo com as deficiências mais comuns, e só é chamada a aprender isso quando diante de um caso prático e próximo. Então, é um problema sério, sim, mas acho que não passa exatamente pelo “ódio”. e sim pela negligência e ignorância.

    Parece-me, no entanto, que alguns progressos têm sido feitos. Ainda falta muita coisa, sem dúvida, até porque “deficiência” é um termo que engloba várias situações bem diferentes, mas as coisas têm mudado à medida que o problema ganha maior visibilidade. Que lhe parece?

    Um abraço,
    Rodrigo.

    • Não é verdade isso. A maioria das ações de capacitismo são deliberadas assim como em qualquer outra opressão. E também, crime de ódio é qualquer crime direcionado a minorias sociais, independente de deliberado ou não.
      Como eu disse na entrevista que ainda vão publicar, existe um número enorme de pessoas que ataca pessoas com deficiência. Por exemplo, uma gangue que espancou um cadeirante aqui no Brasil por apoiar uma candidata a presidente que desgostavam, ou um rapaz que teve um equipamento que era colado no ouvido retirado porque não gostavam da aparência dele e quase fizeram com que tivesse traumatismo craniano, entre vários outros casos. Pessoas que “só” falam algo preconceituoso por falta de conhecimento ainda é uma realidade bem distante

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