As plantas e a fome

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Uma flor nasceu na rua. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”
                                                              (Foto: SXC / Reprodução)
Uma flor nasceu na rua. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. Com essas palavras, Carlos Drummond de Andrade criticava a opressão e o “mundo cinza”, há mais de 60 anos, através da poesia A flor e a náusea. Palavras atuais, num país que vive a guerra da fome, mesmo vendo flores romperem o asfalto e plantas nascerem em qualquer lugar – jardins, calçadas, ou até mesmo garrafas e potes velhos sem uso. A guerra da fome alcança cerca de um terço das famílias brasileiras, segundo o IBGE – números que, pasmem, já foram piores.
Presos às suas classes e a suas roupas, os cidadãos andam de branco pela rua cinzenta, mas esquecem que o marrom da terra, o verde das plantas e a transparência da água são os bens mais básicos dos quais precisam. Um pouco de terra, centenas de sementes compradas por míseros centavos, algumas gotas de água e um recipiente fácil de encontrar nos lixos – garrafa pet, pote de sorvete ou Tetra Pak – é tudo de que necessitam para começar essa empreitada. 
Os homens voltam para casa menos livres, mas levam jornais e soletram o mundo. Mas não conhecem suas necessidades mais básicas: a terra, a semente e a água. Ah, esqueci: como vivemos, hoje, trancados por paredes de concreto, é preciso conseguir um pouco de Sol, também. E, a partir de três meses, os primeiros vegetais plantados já poderão enfrentar as melancolias e as mercadorias à espreita. A couve parece ter vida eterna, se recompõe a cada folha retirada – que tal cozinhar no feijão? A chicória é forte, dá um belo recheio para panquecas e também tem vida longa. A mostarda é uma verdadeira praga de tanto que dá, mas praga mesmo é passar fome num país tão fértil.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios: garanto que uma planta nasceu. E, com ela, a comida que falta para alguns. 
Texto escrito por 
Rogério Alvarenga
Editor de publicações da UFSJ 
Coordenador do projeto de extensão UFSJ Bioagradável 
Especialista em Educação Ambiental (UFJF), bacharel em Jornalismo (UFBA) 
Outros textos: blogdocontratonatural.blogspot.com

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