As pessoas por trás dos projetos de doações de cabelos

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As pessoas por trás dos projetos de doações de cabelos

Autoria: Érica Carnevalli

Estica, pinta, seca, molha, enrola. Essas são algumas das muitas coisas que se fazem com o cabelo. Este tem uma importância para formação da aparência e reflexo da personalidade. Para uns é intocável, não querem mudar nunca, outros é difícil acompanhar, sempre pintando, cortando, mas independente de qual tipo você for elogios a ele sempre são bem vindos.

Isabela (na direita) com as amigas, antes de cortar o cabelo para doar(arquivo pessoal Isabela Velasque

Isabela (na direita) com as amigas, antes de cortar o cabelo para doar.

Essa relevância pode ser sentida e relembrada em casos extremos quando passa por doenças que afetam o crescimento do cabelo, como o câncer, que não só modifica a aparência, mas muitas vezes também a autoestima, “o cabelo é emblemático, principalmente para quem passa pela doença. A pessoa ficar careca é como se ela tivesse perdendo uma parte dela, ela perde um pouco da alegria”. Elizabeth Lomanski, que passou por um câncer de mama ano passado, conhece bem essa situação, mas além de ter se curado quis fazer algo mais como forma de agradecimento e decidiu: “vou deixar meu cabelo crescer e doar para fazer peruca para ajudar outros”.

Essa foi a semente para depois criar seu projeto de arrecadação chamado “Razunzel Solidária”, que já tem quase cinquenta mil curtidas no Facebook, e várias parcerias com salões de beleza e projetos no país.

Campanhas como essa já existem há bastante tempo não só mundo afora, mas também no Brasil. Diversos hospitais, principalmente os específicos para câncer recebem doações, mas não é, ou era do conhecimento do grande público, como para Isabela Velasque. Quando uma colega pediu para ela doar seu cabelo para uma amiga não sabia que era possível. Entretanto, esse cenário tem mudado, ultimamente cada vez é mais comum ver pessoas engajadas em projetos dessa vertente. Como foi o caso dos estudantes no trote do ano passado da USP que doaram seus cabelos para hospitais e campanhas e explicaram que isso já é uma tradição do IME (Instituto de Matemática e Estatística), mas só agora notaram uma maior exposição.

Doacoes de cabelosEssa situação ocorre devido ao aumento de interesse ou melhor divulgação? Para Elizabeth um pouco dos dois, “essa geração está muito engajada em ajudar o próximo” e usando as redes sociais esse processo é acelerado. 

Mas, não se pode negar que o câncer tem sido muito mais discutido. “O câncer era uma coisa proibida, um tabu”, explica Elizabeth. Com a evolução da medicina as pessoas mudaram essa relação e estão muito mais instruídas, abertas para ajudar e conversar. O sucesso estrondoso do livro “A Culpa das Estrelas” que virou filme, lançado ano passado, é exemplo disso. Narrativa de uma adolescente tentando ter uma vida normal enquanto luta contra a doença, que afeta seus pulmões. O escritor da obra, John Green, criou uma campanha de doação para incentivar os fãs, e a atriz, que interpretou a jovem, doou para chamar ainda mais atenção à causa.

Entretanto, tem suas complicações. Existe um mercado de cabelo, a compra e venda é disputada por profissionais desse meio para terem mais opções para seus clientes. Conhecidos como apliques, tão comuns no mundo feminino. Esse “produto” é caro, Elizabeth sofreu com falta de credibilidade no começo, “as pessoas me perguntavam: o que me garante que você vai entregar a peruca?”. Isabela também encontrou problemas no início do seu projeto em Brasília. Seu blog já tinha mais de um ano, mas só a partir de 2014, depois de uma ação de natal para arrecadar dinheiro, para confeccionar perucas para pessoas com câncer, mais as reportagens na televisão e jornais, que o público se interessou. “No inicio do ano recebia uma mensagem por dia, hoje recebo quase uma doação por dia”.   

Mas, não é apenas receber os cabelos e fazer as perucas, o processo é longo. Os “rabinhos”, como são chamados, devem ser enviados para alguém que as faz. Na maioria das vezes é difícil achar profissionais que fazem isso voluntariamente, já que é caro passar por higienização, dividir os cabelos pelo tipo para depois serem produzidas. O mais importante é que apenas “um rabinho” não é suficiente para confeccionar uma peruca, então é necessário esperar para ter um acúmulo.

Apesar disso, essa demora vale a pena. Para Elizabeth não é doação de cabelo, mas de amor. Isabela é o exemplo disso, “a sensação de ter feito bem a outra pessoa com algo tão simples não cabia em mim e eu me senti na obrigação de compartilhar com as pessoas o que eu senti”. Esse sentimento é frequente em todos os doadores que comentam nas páginas de cada uma, apoiando e parabenizando os projetos.

O sucesso em comum tem feito elas pensarem no futuro de suas campanhas. Elizabeth quer se dedicar cem por cento a “Rapunzel Solidária”, querendo transformar em uma ONG. Já Isabela quer criar uma identidade visual para fazer uma página no Facebook e conseguir parcerias com salões. Os futuros são distintos, mas o objetivo um só, tornar esses projetos algo popular e acessível para todos que tem um “espirito” solidário. E talvez quem sabe o sonho de Isabela se torne realidade, “espero visitar uma cidade e quando passar por um prédio antigo estar escrito como descrição que aquele prédio foi um hospital para tratamento de pessoas com câncer, assim como hoje acontece com os prédios antigos que eram hospitais para tratamento de pessoas com lepra”.

Passo a passo para doar o seu cabelo:

1. Antes de cortar avise seu cabeleireiro para prender bem firme o cabelo com elástico.

2. Os "rabinhos" devem ter no mínimo 15cm de comprimento (medido desde o elástico) e podem ser qualquer tipo de cabelo, mesmo com química.

3. Pronto! Agora só entregar no local ou enviar pelo correio para o projeto que você está contribuindo. 

 

Para saber mais sobre os projetos:

http://doecabelos.blogspot.com.br/

https://www.facebook.com/rapunzelsolidaria?fref=ts

 

 

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