As Crônicas de Solin- parte III

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Por Erickson Oliveira

Quando um pesadelo vira um sonho ruim, quando a vida não passa de um sonho ruim

Noite passada acordei do mesmo pesadelo
Não consegui mais dormir
“Quem eu era?
Quem eu sou?

Eu deveria me perseguir?”

Fui a um velho orfanato
Maldita casa de palhaços
Estava abandonado…
As traças e aos piolhos…
As plantas parasitavam com suas guelras cintilantes

Era belíssimo

De tão belo, me doía
Por que eu odiava tanto aquele lugar…?
Algum segredo que eu não deveria descobrir…?
Algum motivo que me faria querer deixar de existir…?
Um corredor soou-me familiar…

Ao seu fim, uma sala, misteriosa.
Em seu interior, uma escrivaninha, destruída.
Desmaiei e então acordei.
Já era manhã.
O sonho o qual lembrei…

Era terrível

Por toda minha vida, eu tentava fugir
De meu passado que me perseguia
Da podridão do dono do orfanato
Maldito comedor de criancinhas
Inocentes, puras e perfeitas. Eram todas suas crias

Fui concebido do estupro de minha mãe
Nasci como um cadáver, não em corpo – mas em alma
Nunca ninguém me quis.
Fui jogado
Esquecido aqui.

Fui coagido.

Fui cercado. Fui detido. Fui devorado.
Mas o dono do orfanato não conseguiu me tocar.
Não! Minha alma era negra. Negra demais para ser possuída assim.
Dilacerei sua carne flácida, em seu falo ereto
Destruí seu orgulho, amaldiçoei sua existência

Criança ainda, aprendi sobre o medo e o fedor
Que exala do espírito de cada ser humano
Várias noites eu via e ouvia
O dono do orfanato escolhendo suas vítimas
Trazendo-lhes dor para ludibriar seu prazer

Foi destituído

Quando veio a mim, arranquei-lhe o sangue
Entupi suas entranhas
E corri para até onde meus pulmões sangrassem mais
Andei em mais uma dezena de orfanatos
Nunca mais me dei com ninguém

Todos me temiam
Ninguém nunca quis me entender
Todo aquele ódio que eu sentia
Só agora pude compreender
Acordei do pesadelo e caí em um sonho ruim

Fui desiludido

Minha realidade bateu em mim
Não havia nada que eu pudesse fazer.

Acadêmica em História pela Universidade Estadual de Alagoas, membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB-UNEAL) e Grupo de Estudos Feministas Dandara-UNEAL, amo gatos e café com canela, feminista interseccional, filha de Obaluayê e Yansã, e nordestina.

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