As Crônicas de Solin (parte I)

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Por Erickson Oliveira

Ao sol poente nasce mais uma estrela, morre mais um cometa

Fui concebido nas sombras desse mundo
Afogado em fogo, carbono e enxofre
Mergulhado no sangue do estupro
Vindo do pior pecado capital

Foi da pureza virgem e imaculada
Que minha progenitora sucumbiu ao terror
E ao medo – jazia em si um único desejo
Morrer e levar consigo seu último anseio

Não aceitavas o fim que lhe coubera a vida
Impura acordou naquele dia
De um pesadelo o qual não poderia suportar
Tantas e tantas vezes senti em seu ventre
Seu desespero,
Seu desprezo
Por minha existência manchada de dor.

Porém, no fim, nasci: como um anjo negro – já caído
Outrora trazido pelos ventos de mau agouro
Que sibilavam apenas em noites de Outono
Outonos vermelhos e escusos – que queimavam

E queimaram no peito de minha mãe
Mataram em sua alma, com toda sua agonia
O seu corpo. E dos pedaços sem cor e sem vida
Sobraram apenas o carbono e a fáscia de uma lembrança – maldita

Eu vim da lama e do suor bandido
Do calor putrefato e marginal
Sou uma criatura da terra e unicamente pela terra bem-vinda
Sem mãe nem pai, sem dor – era o que eu esperava
Apenas.
Pelo meu final.
O desfecho que tanto esperava. Morrer, afinal.

Acadêmica em História pela Universidade Estadual de Alagoas, membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB-UNEAL) e Grupo de Estudos Feministas Dandara-UNEAL, amo gatos e café com canela, feminista interseccional, filha de Obaluayê e Yansã, e nordestina.

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