Afinal, somos todos Macacos?

em Comportamento/Racismo por
Apesar de qualquer coisa que falem sobre Marketing, no capitalismo se ganha dinheiro com tudo, deixe que um pouco desse ganho seja feito em causas úteis, porque bom, funciona. A priori, certa ou errada cientificamente, a campanha #SomosTodosMacacos coloca o racismo em debate, promove um anti-racismo em camisetas, muitos comentários nas redes sociais e artigos como este aqui.
Sem mais delongas.
Vamos analisar diferentes pontos de vista. A biologia deixa clara sua conclusão científica de que sim, somos macacos. Somos primatas, somos animais, temos as patas, as orelhas, os pelos… Uns mais que outros, quem sabe, mas temos. Cor de pele realmente não faz diferença, assim como os pelos de uma onça não a diferenciam tanto de uma pantera, ou os pelos pretos de um labrador, em oposição aos pelos dourados de outro, também não fazem diferença.
Estamos no mesmo grupo de espécies que os macacos, somos um a mais dentre tantos os primatas caracterizados com muitas semelhanças. Vivíamos não apenas de maneira parecida com a desses outros animaizinhos, mas também, dizem algumas hipóteses, convivemos com eles em dados momentos da história de nossa evolução. Hoje eles convivem conosco em zoológicos e safáris, também em algumas reservas que com muito esforço ambientalista conseguimos manter por aí.
Imagine o seguinte, se surgisse um macaco que, vivendo em um ambiente quente, evoluiu com quatro narinas para respirar e, enfim, “refrescar” a cabeça. Como ele seria chamado? Macaco de quatro narinas, ou, mesmo que não isso, seria um macaco de qualquer forma. O que então poderia nos fazer pensar que se um macaco com quatro narinas é um macaco, um ser humano com cérebro um pouco mais desenvolvido o deixa de ser?
Agora um pouco das ciências humanas. Existe uma antropologia antiquada que não é mais válida, mas é o que muitas pessoas, apesar da época em que vivemos, ainda concordam.
Cristóvão Colombo, “o descobridor das Américas”, descreveu os seres humanos daqui como nativos que nem de longe poderiam ser da mesma espécie que o homem europeu. Disse ele que esses animais (os índios), viviam das selvas, enquanto o “homem”, homo sapiens branco europeu, vivia das colheitas, comparou com toda a “civilização” europeia, nas artes, costumes, “bons modos”… Dizia Colombo que a cultura indígena era, digamos, bestial. Bom, creio que até aqui todos concordam que essa diferença cultural não é uma diferença de espécie entre índios e europeus, e que anacronismos a parte, Colombo estava bem equivocado ao considerar que índios americanos e nativos europeus são duas espécies diferentes de animais, apenas por suas diferenças culturais.
A antropologia que surgiu mais tarde buscou “corrigir” Colombo, explicando a cultura dos índios, mostrando que era também humana, descrevendo suas tradições religiosas, respondendo aos motivos das diferenças culturais, porém com certeza não menos humanas entre os índios e os europeus.
Então é um pouco estranho que a mesma visão antropológica que corrigiu a diferenciação de Colombo, esteja a partir do critério da cultura humana querendo separar o Homo Sapiens dos macaquinhos. Quem está querendo fazer isso nos dias de hoje é desinformado, ou pior, tem asco de assumir a mesma origem animal. E podemos incluir nessa “cultura humana” a selva de concreto que construímos ao redor do mundo. Você pode dizer que você é humano à vontade, mas não pode dizer que não é macaco. A ciência expõe nossas semelhanças e nossa ligação evolutiva, e não é como se humanos e macacos não tivessem semelhanças comportamentais, além das diferenças que a cultura fez surgir.

Mas isso nos faz mais humanos, porém não menos macacos

Na opinião de quem vos escreve: A visão que soma a cultura na equação da diferenciação das espécies não é ao todo inválida porque, bom, nós somos diferentes. Mas isso nos faz mais humanos, porém não menos macacos, não é um argumento amplo o suficiente para isso, e nem poderia ser. Temos muito em comum, nos traços biológicos, fisiológicos e em nossas origens primatas, para dizer que também somos macacos o suficiente. Isso é bom, nos lembra da ligação que temos com a natureza, o que nos faz entender melhor o mundo.
Então somos macacos? Sim. Mas somos todos macacos? Bom, costumamos dizer que um assassino em massas não é humano, aproveito-me dessa liberdade jornalística para dizer que não, não somos todos macacos, uns são mais macacos que os outros. Você leitor, que aceita nossas origens primatas, que convive com uma realidade animal, que se envolve com a natureza ao menos num sentido conceitual (nessa selva de concreto em que vivemos), sabe que nós somos bem macaquinhos, gostamos sim de bananas e outras frutas tantas. Gostamos de praia, quem nunca subiu em árvore? Não sabe o que está perdendo.
Para o leitor que ainda discorda, o peço que se lembre do começo de tudo, os recém-nascidos primatas. Um bebê não tem cultura ainda, não fala, não mata, não rouba. Nem um bebê humano, nem um bebê chimpanzé, ou um bebê gorila, ou um bebê Mico-Leão, bebês são a essência da nossa natureza macaca. Bebês não sabem mentir, não possuem uma carga de conceitos e ideologias que os diferem enquanto ser das outras espécies de animais. Os bebês primatas possuem as mesmas origens evolutivas e um DNA muito próximo entre si, e nos mostram que, afinal, somos todos macacos, e alguns desses macacos são macacos humanos em potencial.

Jornalista com interesse nas áreas de filosofia, política, economia e ativismo social. Bastante convicto que não existe imparcialidade em nenhum meio de comunicação, declara sua posição em prol da ética e dos direitos humanos. Defende que o modelo econômico cartalista explica o real funcionamento da economia mundial, mesmo quando ortodoxos visam impor uma visão ilusória para defender, por trás dos panos, que a renda se dirija aos detentores das dívidas nacionais e do grande capital. Defende uma política socialmente liberal, que proteja os indivíduos das forças de mercado, totalmente oposto ao conservadorismo moral, político e econômico. A existência do comércio livre é desejável para os consumos variáveis do dia a dia, porém os bens de subsistência devem ser regulados firme e dignamente pela democracia, como bens da República. Saúde pública e Educação gratuita universal de qualidade, mídia livre e distribuição de renda até um nível de vida agradável a todos, isso deveria ser o básico do básico para guiar qualquer visão econômica. Infelizmente não é.

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